Musica

Charles Bradley busca status de rei do soul contemporâneo com a sinceridade do álbum 'Victim of love'

Segundo disco do cantor veterano o aproxima ainda mais do panteão de grandes vozes do gênero

Arthur G. Couto Duarte

Assim como muitos grupos de rock da atualidade parecem ter se rendido à nostalgia de uma era que não viveram ao incorporar visual, instrumentos, maneirismos e mesmo o espírito do assim chamado classic rock, a soul music entrou pelo século 21 em clima de apropriação da era de ouro do gênero. Se selos como Tamla/Motown, Atlantic e Stax se tornaram lendários por viabilizar gravações da melhor música negra urbana feita entre os anos 1960 e 1970, hoje vamos encontrar a nata reciclada do som “racha assoalho” alocada em microgravadoras como a nova-iorquina Daptone Records.


Por sinal, é de lá que vem o suingue fundamentalista de Charles Bradley. Depois de ensaiar os primeiros passos na black music ao imitar James Brown sob o codinome “Black Velvet”, Bradley acabou chamando a atenção – já sexagenário – do produtor e engenheiro de som Gabriel Roth. Coproprietário da Daptone e responsável pela sonoridade retrô que projetou Amy Winehouse ao estrelato (para quem não sabe, é ele o líder e baixista da Dap-Kings, banda por trás da maioria das faixas da finada cantora no álbum Back to black), Roth vislumbrou em Bradley a figura ideal para encarnar a estética vintage.


No extrato sônico vertido pelas poderosas cordas vocais de Bradley, impossível deixar de perceber a marca de um talento ao nível dos ícones Otis Redding, Al Green, Wilson Pickett, Marvin Gaye e James Brown. Se ao estrear com 'No time for dreaming' (2011) ele deixou público e crítica de queixos caídos ao destilar uma gravação sem reparos, Bradley agora quer se apossar de vez do cetro, do manto e da coroa da soul music via 'Victim of love'.

Licenciado no Brasil pela Deck Discos, o segundo álbum de Bradley volta a investir pesado nos recursos analógicos de áudio e na imaculada acústica do estúdio da Daptone para imantar com toda a fidelidade possível a vulcânica performance comandada pelo artista. Catártico quando expressa a dor de quem viveu a infância sem conhecer a mãe, a perplexidade de acordar com sirenes de polícia zunindo nos ouvidos diante do corpo do irmão assassinado a bala ou a incerteza dos tempos que amargou, ainda adolescente, como sem-teto nas ruas do Brooklyn, Bradley acaba por esvaziar acusações de ser um “falso anacronismo” quando arranca do fundo das tripas baladas tão dilaceradas como 'Strictly reserved to you', 'Dusty blue', 'Confusion' e 'Through the storm'. Ainda emanando cheiro de sarjeta, letras contundentes assim garantem o feeling necessário para municiar a mais evocativa e sincera voz desta época.

 

Assista ao vídeo de 'Strictly reserved to you':