Em uma época em que Fafá era de Belém, Zé Ramalho da Paraíba e, posteriormente, até o Robertinho era do Recife, Ednardo trouxe sob a sua responsabilidade toda uma turma com a qual gravou e lançou o primeiro disco. Originalmente batizado 'Meu corpo, minha embalagem todo gasto na viagem', de 1973, que a gravadora preferiu chamar simplesmente de 'Ednardo e o pessoal do Ceará', o LP reunia Rodger, Rogério e Teti, além de Ednardo, revelando ao país talentos natos fora do eixo Rio-São Paulo.
Quarenta anos depois, o cantor, compositor e instrumentista cearense recorda que com a saída forçada de compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros exilados pela ditadura militar, o Brasil viveu uma espécie de diáspora, com o consequente alijamento de diversos artistas da mídia. “Foi nesse período que nós chegamos e, como a indústria precisava vender novos artistas, identificando-os com sua região de origem, também fomos escolhidos”, acrescenta Ednardo, que está de volta com um de seus maiores sucessos na TV.
Da trilha original de 'Saramandaia' faziam parte ainda artistas como Luiz Gonzaga ('Capim novo' e 'Chão, pó, poeira'), Geraldo Azevedo ('Malaksuma' e 'Juritis borboletas'), Alceu Valença ('Borboleta sabiá') e Ney Matogrosso ('Pra não morrer de tristeza'), entre outros. Protagonista do sucesso anterior da emissora carioca, 'Gabriela', inspirada em 'Gabriela, cravo e canela', de Jorge Amado, a própria Sonia Braga foi promovida a cantora em 'Saramandaia', onde interpreta 'Sou o estopim', de Antonio Barros, que também foi gravada por Marinês. A trama de Dias Gomes foi ao ar de 3 de maio a 31 de dezembro de 1976, em 160 capítulos, sob a direção de Walter Avancini.
Ednardo diz ter recebido a notícia da manutenção da gravação original de sua música no remake da novela com alegria. “É uma música emblema da trama”, justifica. Longe de se incluir entre os preteridos da grande mídia – “Nunca entrei na turma dos excluídos ou dos injustiçados, que não morrem, mas também não vivem nunca”, posiciona-se o cantor, compositor cearense –, 40 anos depois da estreia fonográfica ele diz estar preparando novidades para comemorar a data.
“Minha produção está se empenhando para realizar a gravação de DVD e CD. Estamos na fase de pré-produção, com as gravações agendadas para começar no mês que vem e lançamento em dezembro”, anuncia Ednardo. Além de aproveitar a oportunidade para trazer de volta hits como 'Terral', 'Artigo 26', 'Berro', 'A manga rosa', 'Carneiro' e 'Enquanto engomo a calça', ele quer aproveitar para rever canções que fez para trilhas de cinema e peças de teatro. Ednardo iniciou carreira na década de 1970, ao lado de conterrâneos como Fagner, Belchior e Amelinha, com os quais diz manter contato até hoje. Ele lançou 12 álbuns e possui mais de 400 canções.
Massafeira Em plena ditadura militar, foi protagonista do movimento Massafeira, que reunia artistas cearenses, incluindo o poeta Patativa do Assaré, no Teatro José de Alencar, de Fortaleza, onde foi gravado o disco homônimo, em 1979. No ano passado, Ednardo organizou e lançou o livro 'Massafeira – 30 anos – Som, imagem, movimento, gente', em que revê a importância do movimento. “A rigor, antes da Massafeira, a cena artística, cultural e musical de Fortaleza, naquele momento, praticamente estava tímida em excesso ou quase não existia em repercussões nacionais, a não ser o pessoal do Ceará, com os nomes que despontaram”, reconhece.
Além do próprio Ednardo, Angela Linhares, Vicente Lopes, Lúcio Ricardo, Chico Pio, Regis, Ferreirinha, Wagner Costa, Sérgio Pinheiro, Patativa do Assaré, Mona Gadelha, Tania Araújo, Graco, Teti e Aninha participam do CD duplo encartado no livro. Na opinião de Ednardo, a principal contribuição do Pessoal do Ceará para a MPB ocorre de forma perene. “Em conversas com Zeca Baleiro e Chico César, que são meus parceiros, eles falam que aquilo que a gente cantou e canta até hoje são parâmetros nos quais eles se espelham, servem de esteio básico para o que estão fazendo”, orgulha-se . “O Brasil precisa conhecer o tamanho do Brasil. O Brasil não é só Rio e São Paulo”, conclui o cantor, compositor e instrumentista cearense.
TRÊS PERGUNTAS PARA… Ednardo, cantor e compositor
Como recebeu a notícia da volta do 'Pavão mysteriozo' na gravação original, agora não mais como tema de abertura de 'Saramandaia'?
Com alegria, é claro, é uma música emblema no trama de 'Saramandaia', é importante perceber que é a única música escolhida para permanecer na nova trilha, em sua gravação original. Neste remake, será o tema de um dos personagens principais – João Gibão –, que alça voo, dando sentido libertário à trama.
Qual a importância da canção em sua carreira?
Naquela década, os artistas estavam tentando nos primeiros discos ter o merecido espaço nos meios de comunicação e uma canção colocada como tema, em folhetins de TV, representava, como até hoje, uma plataforma especial. Foi e é de importância fundamental para qualquer artista ter músicas veiculadas em rede nacional e no exterior.
A música foi composta sob influência do 'Romance do pavão misterioso', do cordelista José Camelo de Melo Resende (1885-1964), da década de 1920?
Era momento de exceção político-social, quando músicas, livros, teatros, cinemas e jornais eram proibidos pela Censura Federal, amordaçando todos. Então, fui procurar numa leitura de adolescente uma história de cordel, que serviu de motivo para uma espécie de metáfora. É importante que se ressalte que não repeti os versos do cordel homônimo. Foi a ideia libertária que ali estava, como está em milhares de versos, não só desta publicação, que me levou a ser irmão desta energia.
>> 'Única pessoa', 2000
>> 'Libertree', 1985
>> 'Ednardo', 1983
>> 'Terra da luz', 1982
>> 'Imã', 1981
>> 'Massafeira', 1980
>> 'Ednardo', 1979
>> 'Cauim', 1978
>> 'O azul e o encarnado', 1977
>> 'Berro', 1976
>> 'O romance do pavão mysterioso', 1974
>> 'Meu corpo, minha embalagem todo gasto na viagem' (Ednardo e O Pessoal do Ceará), 1973
Palavra de especialista
Túlio Mourão, músico que tocou no disco 'O azul e o encarnado', de Ednardo, de 1977
Melodia universal
Acho que o Ednardo tem uma linha muito original de composição e, mesmo dentro de um grupo coeso como eram os nordestinos da época em que surgiu, ele se distinguia pela linha melódica. Ele também era de um cosmopolitismo surpreendente, ao mesmo tempo em que tinha menos cacoetes regionais do que os seus parceiros. Por isso mesmo, o produto musical que Ednardo criava tinha mais facilidade de trânsito.
Assista ao clipe de 'Pavão Mysteriozo':
Canção de Ednardo, 'Pavão mysteriozo' faz parte da trilha da nova versão de 'Saramandaia', que estreia este mês
Compositor marcou época na MPB ao lado de outros artistas nordestinos