Musica

Monobloco lança segundo disco de estúdio, 'Arrastão da alegria', com música para pular e inéditas

Trabalho tem participação de Fagner e arranjo para 'Garota nacional', do Skank

Ângela Faria

Conhecido por arrastar multidões durante o carnaval, o Monobloco investe na sofisticação sem perder a pegada
O Monobloco chega aos 13 anos pronto para encarar as mutações da adolescência. O segundo disco de estúdio do grupo, 'Arrastão da alegria' (Som Livre), extrapola o mero registro de hits turbinados por releituras batuqueiras para arriscar novas sonoridades e canções inéditas.


Criado em 2000 para animar o carnaval de rua carioca a partir de oficinas de percussão ministradas pelo grupo Pedro Luís e A Parede (a Plap), o Monobloco virou banda de baile. Seus 17 músicos rodam o país com agenda cheia. Fazem de tudo: de festa de formatura a rodeio e festival de inverno, passando por réveillon e exposições agropecuárias.

Com sua batucada, o “bloco-show” retempera clássicos da MPB, do xote, do samba e do pop, sem discriminar funk e axé. O novo álbum veio se arriscar saudavelmente na seara autoral. A banda ganhou de presente as inéditas 'Arrastão da alegria' (Rogê, Fred Camacho e Marcelinho Moreira), 'Tu quer?' (Lenine), 'Nasci para morrer de amor' (Arlindo Cruz, Franco e Maurição) e 'Balança geral' (Aílton Assumpção e Alexandre Nascimento).

Das 14 faixas, 10 são releituras, mas longe da zona de conforto. Uma surpresa veio de Fagner: em 'Maneiras' (Sylvio da Silva), hit de Zeca Pagodinho, a voz meio tristonha do cearense se encaixa na levada “quebra-quilos”. Na romântica 'Um dia de domingo' (Sullivan-Massadas e Mihail Plophsi), o baticum se casa com os teclados de Lincoln Olivetti. A pop 'Garota nacional', do Skank, chega requebrando diferente.

Harmonias e arranjos sustentam um álbum “policlimático”, sem aquela sonoridade monocórdia dos discos de escolas de samba. A ideia é levar o baile para dentro da sala. Para isso contribuem as guitarras de Pepeu Gomes e Davi Moraes, o time de convidados especiais – os cantores Diogo Nogueira, Roberta Sá, Ivete Sangalo e Preta Gil –, e a metaleira de Serginho do Trombone. A cozinha percussiva se enriquece com mestre Maurão (craque da Acadêmicos da Rocinha) e os atabaques de Nei de Oxóssi.

Batuque tecnológico Voltar ao estúdio foi desafiador, sobretudo para um projeto que busca sofisticar a sonoridade do Monobloco sem perder a “pegada” da rua, explica o cantor e compositor Pedro Luís. Outro desafio: construir o diálogo entre as canções inéditas e o repertório dominado por hits.

O baterista C. A Ferrari reconhece: não é fácil arquitetar sonoridade capaz de compatibilizar o contagiante batuque de rua com os padrões tecnológicos em voga. 'Garota nacional', 'Maneiras', 'Tu quer?' e 'Chove chuva' (Jorge Benjor) cumprirão com louvor a missão de soar bem no rádio, garante C.A. Foi preciso trabalhar muito para não perder a espontaneidade e para a festa, gravada em estúdio, não soar artificial.

O percussionista Sidon Silva reforça: o caminho natural é, cada vez mais, buscar caminhos autorais. O maestro Celso Alvim ressalta: Monobloco faz carnaval de rua, mas pode – e deve – apostar em novas sonoridades. Ele destaca outra “missão” do grupo: “Mostrar para a galera mais velha o que o pessoal jovem está fazendo e apresentar repertórios antigos às novas gerações”.

 

"Vamos subir mais um degrau no rumo do autoral, mas sem perder o clima de baile. Compositores já mandam músicas feitas só para a gente" - Sidon Silva, percussionista

 

Funk de família

Na estética do batuque cabe de tudo, menos preconceito, avisa Mário Moura, baixista do Monobloco. Ele não fala da boca para fora. A polícia já ameaçou interromper vários desfiles do grupo no carnaval do Rio de Janeiro caso o funk carioca entrasse no repertório.

O bloco-show e a banda Pedro Luís e A Parede sempre defenderam no palco o ritmo surgido nas favelas. Por isso, a inédita 'Balança geral' (Aílton Assumpção e Alexandre Nascimento) tem lugar de honra em 'Arrastão da alegria'. De norte a sul do país, a festa ferve para valer na hora do batidão, revela Moura. “Tem muito funk ruim e a gente não toca baixaria. Escolhemos aqueles com mensagens bacanas”, reforça ele, lembrando que o ritmo carioca invadiu até o pop internacional.

“Funk é energia, alegria e descontração”, resume Mário, divertindo-se com o fato de até Paul McCartney confessar que andou pesquisando o batidão.

Veja clipe de 'Balança geral', do Monobloco com Aílton Assunção: