Musica

Um ukulele para Paul

Arnaldo Viana

Laís e o instrumento que lhe valeu o ingresso: viagem desde Recife

O que Marcos Daniel mais quer aos 17 anos é subir ao palco, com o violão debaixo do braço, dar um abraço no Paul e tocar com ele. “Uma música só!” Ele veio de Ribeirão Preto (SP) com a mãe, sonhando com isso nos 523 quilômetros de trajeto. O liverpoolense é dado a de vez quando chamar alguém ao palco. Convidava só mulher até 21 de abril do ano passado, no Estádio do Arruda, em Recife, quando viu na plateia o cartaz do quarentão Hermilo Borba: “Paul, por que você só chama mulher? Chama eu?” E chamou. Também, Hermilo já foi a 13 shows do cara. Tanto que uma hora emplacaria o pedido.


Mas é só Marcos Daniel que sonha subir hoje ao palco, tocar e cantar com Paul ou apenas abraçá-lo? Não. Uma pá de gente também quer. A Laís Fancello, de 20, veio de Recife de carona em boleia de carreta agarrada ao seu ukulele (leia-se ukulelê). E jura que não foi nem mesmo aborrecida pelos caminhoneiros. Nem um beliscãozinho? Não mexerem nem no ukulele da garota? “Nada”, respondeu. Isabelle Santos, de 22, veio com ela. Duas. E a choferada de caminhão nem tchum? Hãã!

E a Laís, gente, é corajosa. Chegou, acampou com uma galera no calçadão do entorno do Mineirão, sem dinheiro nem ingresso. Mas correu atrás e ganhou uma entrada graças ao ukulele. Esse nome aí, gente, é de um instrumento musical de quatro cordas. Ela não gosta da comparação, mas parece um cavaquinho. Pois é, Laís foi à promoção de uma operadora de TV por satélite, em um shopping, tocou Ram on no ukulele e ganhou. Laís é daquelas que se transformaram em beatlemaluca a contragosto do pai.

“Ele não gosta dos Beatles, mas minha mãe gosta.” Alguém sugere pedir a Paul uma paródia da música Jorge Maravilha, creditada a Chico Buarque, “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. A ideia anima o curitibano Bruno Melo, de 21, outro acampado. “Cara, minha banda puxa essa música. Faço um baixo legal com ela. Virou um rockão.” Viram? Nem tudo está perdido neste mundo, nem a letra que, segundo a lenda, Chico fez para Amália Lucy, filha do general Geisel, penúltimo presidente da ditadura. Chico nega.

Água e biscoito Verdadeira ou não, a história não está no papo da galera beatlemaníaca. Paul, vegetariano radical, vai ficar orgulhoso da galerinha acampada. Rango ali é escasso. Alguém, em pleno meio-dia, solfeja os primeiros versos de Tomorrow, que, traduzidos, dizem mais ou menos assim: “Traga um naco de pão, queijo, e encontre um local com sombra debaixo das árvores”. Rola isso aí nas barracas? O paulistano Edson Rodrigues, de 21, reage: “Pô, véio, só rola água e biscoitinho”. E sombra? Cauê Saraceni, de 24, outro paulistano, aponta as mudas recém-plantadas em volta do estádio e prevê: “Talvez em 2023”.

O mínimo que se fala de Paul faz o olho de Patrícia Melo, de 38, outra recifense, faiscar. Se alguém disser a ela que é muito pagar até R$ 600 para ver o beatle, ela bate o pé. “Ele vale cada centavo.” Por tudo isso, Paul pode, logo que subir, ao palco, pedir licença ao escritor norte-americano Richard Matheson e gritar: “I am legend”. Patrícia vai rebater: “Lenda só, não. Mito”.

E que todos, Marcos Daniel, Hermilo, Laís, Isabelle, Bruno, Edson, Patrícia, Cauê, viajem esta noite nos versos de Magical mistery tour, mesmo se Paul não tocá-la: “A turnê mágica e misteriosa está aguardando para te levar embora”. Laís e Isabelle, principalmente, vão precisar, caso não queiram pegar carona em boleia no retorno a Recife. Ninguém garante que os caminhoneiros ficaram mesmo bonzinhos, assim, de uma hora para outra.