Musica

No palco, Caetano é ainda melhor

Artista se apresentou em Belo Horizonte, onde contagiou o público com uma invejável energia

João Paulo

Abraçaço de Caetano Veloso envolveu o público do Palácio das Artes na noite de sábado. Mesmo com tudo que já se disse do show e do disco, a apresentação do cantor e compositor ao lado da Banda Cê, formada por Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo e teclados) e Marcelo Callado (bateria), é a prova da força de Caetano em apresentações ao vivo. Ainda que discreto, quase sem falar com o público, de calça preta e camisa clássica vermelha, ele criou uma atmosfera que sublinhava a intenção de cada uma das canções. Sem falar na vitalidade do setentão Caetano que, elegante, rebolou, ensaiou passos de funk e até se deitou no chão, depois de cantar que invejava os orgasmos múltiplos das mulheres.

 

O disco que completa a trilogia ao lado da banda – depois de Cê (2006) e Zii e zie (2009) – chega puxado pela celebração de A bossa nova é foda, canção que abre o show e explicita os recursos musicais da parceria. O cantor emenda com Lindeza, do disco Circuladô, de 1991, como se propusesse um diálogo das duas vertentes bossa-novistas:a força irruptora masculina (pouco falada) e a suavidade (feminina) que chega operando um recuo no tempo. Mas, é importante notar, mesmo quando vai à memória, ela é sempre marcada pela musicalidade contemporânea. O novo e a tradição se comunicam no tempo. Fechando o momento, a sensual Quando o galo cantou, uma espécie de síntese em torno da bossa de ontem e de hoje, inclusive em relação à letra da nova canção.


O disco, assim como o show, é obra de banda, com sonoridade própria, em que o power trio, com suas experimentações de timbres e ritmos, em momento algum se separa da condução dada pela canção. A voz e o violão de Caetano estão presentes o tempo todo. Com ataque sempre reto, a banda deixa de lado um tentador minimalismo para apostar no efeito da concisão, que sempre evoca mais do que exibe. Essa inspiração chega também ao cenário de Hélio Eichbauer, com um fundo com figuras geométricas e telas em homenagem ao russo Kazimir Malevich distribuídas pelo palco. A voz de Caetano deixa a linhagem joão-gilbertiana da doçura para buscar outros recursos, alterações de tonalidades, falsetes e mudanças de registro. O cantor está ainda melhor. Caetano é foda.


O disco tem canções tristes e, mesmo nas mais movimentadas, não está distante a melancolia. Maturidade sem muitas concessões ao consolo da sabedoria. Ainda assim, é notável a capacidade de renovação e invenção de Caetano Veloso e seus músicos, num show em que cada canção carrega uma dose evidente de trabalho prévio. O repertório, que das canções do disco deixou de fora Vinco, de Caetano (com sofisticada letra drummondiana), seguiu com Abraçaço, com direito à coreografia dos músicos atrás de Caetano, movimentando os braços como um polvo cheio de afeto – recurso utilizado na capa do álbum – e Parabéns, dedicado aos aniversariantes da noite, que ganham votos de uma alegria excelsa, traduzida modernamente por “tudo megabom, gigabom, terabom”.


De Abraçaço estão ainda no roteiro Estou triste, Gayana, de Rogério Duarte, O império da lei, Quero ser justo, Funk melódico e O comunista, em homenagem a Marighella, “o mulato baiano”, que ganha um jogo de luz expressivo, em vermelho escuro, destacando o tom narrativo da canção que traz a experiência e as reflexões de Caetano sobre a política do período da ditadura (“os milicos”) e a ausência de sonhos dos nossos dias. Como puxado pelo tema, o cantor recupera a partir daí canções setentistas, com destaque para Triste Bahia, do disco Transa, de 1972, época de seu exílio (que é cantado em O comunista: “O mulato morreu e eu estava no exílio”). Grande momento do show, a guitarra de Pedro Sá recria a sonoridade afro da gravação original, em diálogo com a bateria e a percussão. Ainda dos anos 1970, Caetano recupera Você não entende nada, De noite na cama, Escapulário e Alguém cantando, homenagem à irmã Nicinha. Dona Canô também é lembrada com emoção em Reconvexo e Mãe, canção gravada por Gal em Caras e bocas e que foi reposta em cena no novo show da cantora, Recanto, que tem a marca de Caetano.


Da fase Cê integram o show as canções Odeio, Homem e Outro, esta a última música da noite. Embora o formato de concerto e as características do teatro permitam melhor fruição das minúcias dos arranjos e dos versos entoados ao vivo, o Palácio das Artes parece pregar todo mundo nas cadeiras. O público custa a reagir. Mesmo com a senha dada de que as manifestações de euforia seriam bem-vindas, foi preciso chegar perto do fim do show e de canções mais diretas como Eclipse oculto para que as pessoas se levantassem e chacoalhassem os ossos. Com Luz de Tieta a festa ficou completa, até que Caetano deixasse no ar, com a canção Outro, um apelo à realidade: “Olhe para lá, que eu fui-me embora”. Um showzaço.


Caetano sobe ao palco do Palácio das Artes hoje, às 21h, despedindo-se do público de Belo Horizonte. Os ingressos já estão esgotados.