Musica

Autor de 'Piriguete' e astro do reggaeton nacional gravará CD graças à Lei Rouanet

O belga Alexandre Materna foi criado na Região Norte de BH e saiu da periferia direto para a internet

Ailton Magioli

"Trouxe a periguete para o Aurélio", MC Papo, músico.
Aos 23 anos, MC Papo ostenta o título de rei do reggaeton brasileiro com a autoridade que os 12,7 milhões de acessos a 'Piriguete' lhe renderam na rede. Com direito a remix, o hit virou tema da personagem Fatinha (Juliana Paiva) de 'Malhação', da TV Globo. A obra viral desse “mestre de cerimônia” criado em BH inclui 'Lembranças de moleque' (2 milhões de acessos) e 'Radinho de pilha' (1 milhão).


Vem aí a virada romântica do rapaz, de olho no assédio crescente do público feminino. Primeiro lugar no top 10 do site Reggaton Brasileiro com a recém-lançada 'Tudo para dar errado' (já são 3 milhões de acessos), MC Papo comemora a nova fase de sua carreira. Além de ganhar empresário e produtor, ele, enfim, vai gravar CD viabilizado com recursos da Lei Rouanet.

Tudo isso ocorreu depois de uma série de discos e clipes “feitos em casa”. “Radinho de pilha, por exemplo, filmei e editei na época em que o YouTube ainda tinha o formato quadrado”, conta MC Papo, que assina Alexandre Materna. O batismo no mundo do funk veio da convivência, ainda moleque, com a grafitagem na periferia de BH.

PRECOCE

Nascido em Bruxelas, na Bélgica, e criado nos bairros Santa Amélia e Santa Mônica, na Região da Pampulha, MC Papo curte o chamado new reggae desde a infância. “Aos 3 anos, já ouvia a coletânea 'Rap Brasil' na casa de uma vizinha”, garante ele. Completamente envolvido com esse som, ele começou a compor e a gravar aos 12 anos. Lançou os discos independentes 'Futuro ex-pobre' (2006), cujo repertório já contava com os futuros hits 'Piriguete' e 'Radinho de pilha', e 'El magrelo' (2011). Do inédito 'De outra maneira', Alexandre já mandou para a rede as faixas 'Tudo para dar errado' e 'Covarde'.

O tom romântico do novo CD vem da predileção por esse estilo do reggaeton, que, de acordo com o artista, costuma ser mais dançante. O gênero tem também seu segmento gospel. Papo diz que chega a fazer 12 apresentações por mês em estados como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde mantém duas dançarinas. Em breve, elas formarão trio com um rapaz.

A facilidade de compor vem do gosto pelos versos, revela ele. “Mas preciso de algo melódico para ter as ideias e fazer a letra”, explica. MC Papo tinha 6 anos quando descobriu o funk. A predileção pelo reggaeton se deu posteriormente. Depois de conhecer o termo periguete no Nordeste, ele compôs a canção que virou hit e estourou na rede.

“Trouxe a periguete para o 'Aurélio'”, revela Alexandre, orgulhoso de sua contribuição para que o termo fosse dicionarizado – com a vogal “e” em vez do “i”. O verbete se refere às mulheres sempre dispostas a cair na balada, que não se importam com a opinião dos outros sobre seu comportamento.

De Bruxelas à favela

 MC Papo, que morou em Bruxelas de 2001 a 2004, fala português e francês. Na periferia da capital da Bélgica, teve a oportunidade de conviver com ritmos variados, além da música do Congo, do Marrocos e de outros países africanos. A estreia em Belo Horizonte se deu em 2005, no Sambola, baile realizado na região de Venda Nova, perto da célebre Quadra do Vilarinho, onde o rap e o funk desembarcaram há 30 anos.

Depois de apresentar um programa de reggaeton na Balada FM, emissora comunitária da Favela do Índio, no Bairro Santa Mônica, MC Papo se tornou o astro na região. “Funk é a mesma coisa de samba, só muda a idade do público”, diz a respeito dos gêneros que mais conquistam público nos grandes centros brasileiros. Na opinião do MC mineiro, a aceitação do funk em BH se deve ao pioneirismo do Vilarinho, mas sobretudo à novela 'América', da Rede Globo, cuja trilha contava com Tati Quebra-Barraco ('Boladona') e o belo-horizontino MC Baby.

Entre os novos talentos locais Papo cita MC Kamilla, MC Jefinho BH e MC Tom. Além dos já famosos encontros de artistas do ramo organizados pelo MC Fael, no Alto Vera Cruz, a turma costuma se encontrar na banca de CDs do MC Moreira, no Shopping das Arábias, ao lado do Shoppping Xavantes, no Centro da capital.

Se antes os fãs de funk eram vistos com preconceito, hoje eles estão por toda Belo Horizonte curtindo a batida no celular ou no carro, muitas vezes alto e bom som, afirma MC Papo. “Como se sentem invisíveis, os jovens da periferia gostam de ouvir funk em alto volume”, justifica. Na opinião dele, o chamado funk ostentação – que celebra grifes e marcas de luxo – nada mais é que o reflexo das melhores condições de vida experimentadas em favelas brasileiras. A maioria desses moradores ingressou na classe C, lembra ele.

“As pessoas querem mais festa, comprar roupa de marca”, repara o mineiro, salientando que, apesar de ser um reflexo do mundo capitalista, o funk ostentação contribui para elevar a autoestima das comunidades da periferia. “Ocorreu o mesmo com o rap americano a partir de 2001”, compara.

“O reggaeton tem em comum com o funk a maneira de se construir. Só que ele se expandiu mais para outras classes sociais”, explica MC Papo. Sob a influência da mãe, ele desenvolve trabalho comunitário e estuda serviço social em uma faculdade particular de Belo Horizonte.

SAIBA MAIS

'Reggaeton'
é fruto da junção das palavras reggae e maratón (maratona, concurso e rima típico do rap, proveniente do Caribe). O ritmo foi criado no Panamá graças à mistura do reggae jamaicano com ritmos latinos. Começou a se espalhar no início da década de 1980. Chegou ao Brasil por meio da comunidade boliviana em São Paulo. Difundiu-se a partir da Baixada Santista, do Recife e do interior da Bahia.
 
Criado em 2006, o site '
www.reggaetonbrasileiro.com' reúne sucessos do gênero. Além de MC Papo, circulam por lá talentos como Señores Cafetões; Tavito Bam Bam; Max e Dois Éllis; Muamba Bitt; J. MC, Lil’ Seven; Ptu Uruzua; Yuri e Will; Duz Cariocas; Reggaeton RS; Iwood; Neshmc; Hermano; Ellas Saben; M1 e M2; Mr. Soh; Lah do Guetto; e Reggaeton Brasil.