A magia do Natal invade BH. Descubra a mente criativa por trás da luzes natalinas

Há duas décadas, empresária dispõe de toda a sua experiência em decoração para enfeitar lugares em Belo Horizonte para a época natalina e mexer com o imaginário dos moradores

por Celina Aquino 24/12/2017 12:48

Marcos Vieira/EM
Museu de Artes e Ofícios (foto: Marcos Vieira/EM)

É ela quem dá a cara do Natal de Belo Horizonte. Isso porque Cláudia Travesso assina os grandes projetos com o Papai Noel da capital. “Faço a decoração de muitos lugares por onde o belo-horizontino passa e o meu trabalho é como um presente para a cidade. Fico muito feliz de saber que as pessoas vão parar e ter um minuto de satisfação”, avalia a empresária, que respira a data há 20 anos. Com mente inovadora, sem perder a tradição, ela enfeita praças, prédios públicos e shoppings.
O projeto da Praça da Estação é o mais imponente deste ano. À frente da Futuro, Cláudia trabalhou para realçar a beleza do lugar que recebeu boa parte da programação do aniversário de 120 anos da cidade. “Quis transformar a Praça da Estação em um cartão-postal de Natal de BH, então coloquei guirlandas, laços, anjos, árvore e muitas luzinhas, que é o que as pessoas esperam do Natal”, descreve.

 

Marcos Vieira/EM
Praça da Liberdade (foto: Marcos Vieira/EM)

Para a decoradora, são as luzes que dão o brilho da data, por isso ela abusou da iluminação. A fachada do Museu de Artes e Ofícios se encheu de microlâmpadas brancas e amarelas. Bem no centro, uma cortina iluminada abre as portas do prédio histórico para os visitantes. Já nos balaústres, luzes simulam a chegada da neve. Cláudia ainda posicionou dois anjos em uma lateral e, do outro lado, uma árvore de 12 metros, toda de estrelas iluminadas. Ao fim, as cores que se destacam são o branco e o amarelo das lâmpadas, o vermelho dos laços e o verde das guirlandas.


Todos os elementos são posicionados na base do equilíbrio e na amarração de fitilho. Especialmente nesse projeto, já que existe a preocupação de preservar a fachada do museu, patrimônio cultural tombado da cidade, a decoradora não pode trabalhar com pregos ou cabos. Nem fita dupla face ela tem utilizado, depois que começou a perceber que a cola acaba estragando a pintura.

Marcos Vieira/EM
Cláudia Travesso assina os grandes projetos com o Papai Noel da capital (foto: Marcos Vieira/EM)

Dessa vez, Cláudia não criou a decoração da Praça da Liberdade, “apenas” coordenou a execução do projeto, mas continua a falar com muito carinho do lugar, afinal, ela foi a responsável pelos enfeites desse ponto turístico por muitos e muitos anos. Na opinião dela, é o Natal que mais está na memória do belo-horizontino. “Não estou triste, não, achei que estava na hora disso acontecer. Sempre tive uma preocupação muito grande com esse projeto, mais que os outros, de não ter ninguém para passar o bastão, de não poder nem adoecer.” A decoração, voltada para o aniversário de BH, é da arquiteta de Divinópolis Maria Carolina de Assis Quadros, que venceu concurso promovido pela Cemig.


O mérito de Cláudia foi mudar, no início da parceria com a empresa de energia, a cara do Natal da Praça da Liberdade, que antes se resumia a luzinhas. Pensando principalmente nas pessoas que saem de longe para o passeio, ela propôs incluir instalações interativas, atrações culturais e trabalhar temas diferentes a cada ano. “O Papai Noel exerce uma influência grande nas crianças, então a data não precisa ser fútil. Podemos fazer dela algo muito útil”, avalia. No ano em que se falou sobre preservação do patrimônio, ela lembra que houve o menor número de atos de vandalismo.


Outro projeto tradicional da cidade que está nas mãos de Cláudia é o da Avenida Barbacena. “Gosto tanto daquelas árvores que converso com elas todo ano. Elas dão um brilho diferente à decoração”, destaca. Os troncos ganharam luzes brancas e as copas, azul. Para complementar, o prédio da Cemig tem tubos de lâmpadas que imitam a neve e o da Forluz, logo em frente, estrelas luminosas. Fora as luzinhas, o destaque nas Sala Minas Gerais, sede da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, e no Ministério Público Estadual são os cometas. Entre chegadas e partidas, os belo-horizontinos ainda podem admirar uma árvore no estacionamento da rodoviária. No Palácio da Justiça, luzem emolduram as janelas.

ANO DOURADO

Marcos Vieira/EM
(foto: Marcos Vieira/EM)
Cláudia também assina a decoração do Aeroporto de Confins, que não está na cidade, mas é um lugar por onde o belo-horizontino sempre passa. Há enfeites por todos os lados. Considerando que este foi um ano de ouro para o terminal, devido à expansão, ela optou por trabalhar essencialmente com dourado. Na área central do saguão, duas malas gigantes propõem uma interação com os viajantes, que podem entrar nelas para olhar de perto os enfeites e tirar fotos. Guirlandas e árvores de Natal complementam o projeto do aeroporto.


Para encontrar o Papai Noel no mês de dezembro, costuma-se ir aos shoppings. Tradicionalmente, eles recebem crianças que visitam o Bom Velhinho para tirar fotos, por isso não se pode dispensar uma bela decoração. Cláudia responde pelo projeto de três centros de compras de BH, entre eles o Minas Shopping, onde está o mais diferente que ela já fez. A inspiração é do belo-horizontino Marco Túlio Matos Vieira, criador do canal AuthenticGames no YouTube, que virou celebridade da internet e hoje tem mais de 11 milhões de seguidores. “Não tem Papai Noel, boneco de neve ou nenhuma outra tradição. É tudo muito tecnológico, com realidade aumentada, óculos 3D e projeção em 360 graus. A única coisa convencional que usei de Natal é o laço veludo de vermelho, porque coincidentemente a namorada do youtuber tem na cabeça”, comenta. Novidade também é uma versão do trono do Papai Noel para os pets.

Tempo de renovação Cláudia Travesso se define como uma apaixonada pelo Natal. Para ela, a data é marcante não apenas pelo significado de renovação, mas também pelos encontros familiares. “Penso que o Natal influencia muito a nossa vida, porque nos faz renovar as energias e acaba funcionando como um rito de passagem, fim e começo da história. Além disso, é uma das poucas datas em que, independentemente de religião, cria-se um momento de confraternização muito importante.” Desde pequena, ela sabia que era a época em que veria os tios mais distantes.

Marcos Vieira/EM
Sala Minas Gerais (foto: Marcos Vieira/EM)

A empresária não se esquece da primeira árvore que decorou. Na época, com 19 anos e recém-casada, ela morava na Suíça e ficou fascinada com a variedade de enfeites. “A árvore era até pequena para tanta enfeite que queria colocar. Todo dia a gente acendia as luzes para jantar.” O acervo natalino aumentou ao longo dos anos e a decoração da sua casa ficou cada vez mais sofisticada. Até que um dia ela foi chamada para decorar a árvore de um amigo, depois do escritório do marido, e assim começou a oferecer o serviço para as empresas, batendo de porta em porta.


Depois de vender as suas lojas de roupa, Cláudia assumiu a missão de profissionalizar a decoração de Natal. Até então, eram as secretárias quem enfeitavam as árvores das empresas. Para que atendesse o mesmo cliente no ano seguinte, a empresária lançou a ideia de aluguel das peças. “Como acho que o Natal é uma data de renovação, gosto de variar a cada ano. Mesmo dentro do tradicional dá para fazer bem diferente, mudo o material, a forma de montar a árvore.” Escolhido o modelo, a equipe monta, decora, ilumina e depois do Natal desmonta. São tantas opções que as peças ocupam dois galpões.


Atualmente, além de decorações residenciais, a empresária desenvolve projetos para empresas, hotéis, hospital, clube, condomínio e até cidades inteiras (neste ano, ela ficou responsável pelos enfeitem que iluminam as ruas de Congonhas, Santa Bárbara e Contagem).

Marcos Vieira/EM
(foto: Marcos Vieira/EM)

Natal segue moda? Seguir a tradição não é suficiente. O trabalho exige pesquisas constantes para descobrir o que tem sido lançado em todo o mundo. Cláudia participa todo ano de uma feira na Alemanha e já perdeu a conta de quantas vezes viajou para a China. Além de fazer decoração, ela atua como consultora de compras de uma importadora de produtos natalinos. “Isso significa ditar um pouco a moda do Natal no Brasil, então preciso estar um passo à frente. Qual cor vai pegar? Qual a proporção da árvore? Além disso, tento sempre considerar o que o brasileiro, principalmente o belo-horizontino, está buscando”, pontua.


Natal se resumia a Papai Noel, anjo e boneco de neve. Hoje até a rena, tão marginalizada, está ganhando mais espaço, assim como coruja, esquilo, borboleta, pássaro e outros bichos que viraram enfeite. Talvez por isso as árvores com tema pet venderam como água. Em termos de cores, tifany, que por estar entre dourado e prata consegue combinar com quase tudo, mas a tradição. “Como vou à China e compro mais de 40 containers de produtos posso dizer que o vermelho e o dourado predominam no Natal. Até tenho nas lojas Papai Noel azul, verde-água, mas representam pouco em termos de venda”, conta.

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