Indignada com Silvio Santos, Fernanda Lima desabafa: 'o machismo mata'

'Nem no SBT, nem na Globo, nem em casa, nem no trabalho e nem na mesa do bar', defende apresentadora sobre o fim da tolerância contra brincadeiras agressivas

por Diário de Pernambuco 25/08/2017 15:23

 Globo/Divulgação
Fernanda Lima comanda o quadro 'Amor e Sexo' (foto: Globo/Divulgação)
Após fazer críticas a posicionamentos machistas e sexistas de Silvio Santos, e ser rebatida pelo comunicador nas últimas semanas, a apresentadora Fernanda Lima divulgou, nesta sexta-feira (25), uma carta aberta, nas redes sociais, sobre o tema. Em uma sequência de imagens publicadas no Instagram, Fernanda disse ter uma responsabilidade como personalidade pública e que não pretende se calar: "O mundo mudou e não cabe mais rir do oprimido, mas sim do opressor".

No texto, a comunicadora lembra os altos índices de violência sexual no país e afirma que as mulheres não vão "assistir caladas essas 'brincadeiras' se reproduzindo por aí a torto e a direito. Nem no SBT, nem na Globo, nem em casa, nem no trabalho e nem na mesa do bar". "No Brasil, as pesquisas mais recentes mostram que em média oito mulheres são assassinadas por dia apenas por serem mulheres", lembrou Fernanda, em seu texto.

 

Entenda

 

No início de julho, o apresentador Silvio Santos fez um comentário machista, em seu programa, em vídeo no qual a apresentadora do quadro Amor e Sexo, da Globo, aparecia. "Com essas pernas finas e essa cara de gripe, ela não teria nem amor nem sexo", disse o dono do SBT. A afirmação foi rebatida logo depois por Lima, entrevista ao Pânico na Band: "Acho que o Silvio é o maior comunicador vivo brasileiro, mas, nesse quesito, eu perguntaria 'Silvio, por que não te calas?'".

A discussão se desenrolou nas últimas semanas, quando circulou nas redes a notícia de que Patrícia Abravanel, filha de Silvio, teria atacado Fernanda nas redes sociais e apagado lodo em seguida. Nesta quinta-feira (24), as atrizes Camila Pitanga e Letícia Sabatella defenderam Fernanda Lima na internet.

"A gente constrói um mundo melhor com boas ideias e com boas ações. É preciso ter muita coragem, mas é muito bom encontrar aliadas como você nessa luta", escreveu Camila em trecho de publicação no Instagram. "Fernanda é uma revolução no ramo de apresentadores de televisão. É mais que carisma, beleza e talento. Fala o que não pode mais ser calado. Fernanda me representa!", apoiou Sabatella.

Confira a carta de Fernanda Lima na íntegra:

25/08/17*

Uma publicação compartilhada por Fernanda Lima (@fernandalimaoficial) em


"Pessoalmente, ser chamada de magra, ou mesmo ser objetificada com frases do tipo "se ela não souber fazer amor ou sexo, eu vou ensinar ela", me parece um absurdo, mas não me oprime a ponto de me fazer sair do conforto do meu silêncio para pedir respeito. Sei quem sou, gosto do meu corpo e escolho com quem faço amor e sexo. No entanto, politicamente, como uma comunicadora, venho aprendendo que o mundo mudou e que não cabe mais rir do oprimido, mas sim do opressor. Ter privilégios também implica ter responsabilidades. De que adianta dar visibilidade às minorias para zombar da cara delas?

Romper o silêncio pode ser desesperador ou libertador. Prefiro acreditar na segunda opção, então, não me calo. Sigamos firmes no propósito de usar nossa voz para pedir respeito, igualdade e justiça. Sigamos firmes na construção de vias de comunicação, de informação, de aprendizado sobre os males sociais do machismo para que nenhuma mulher mais sofre qualquer tipo de violência pelo simples fato de ser mulher: chega de assédio, de abuso, de violência contra nossos corpos, contra quem somos. O corpo da mulher não é território público onde se pode meter a mão, avaliar, invadir, usar, agredir. Sigamos firmes e juntas construindo um grande abrigo de proteção para todas as mulheres, contra qualquer violência machista.

Pois, enquanto escrevo esse texto, o machismo mata. Enquanto você lê esse texto o machismo mata. No Brasil, as pesquisas mais recentes mostram que em média oito mulheres são assassinadas por dia apenas por serem mulheres. Só em 2014, foram mais de vinte mil atendimentos de mulheres no sistema público de saúde vítimas de violência sexual. Um quarto desses atendimentos foi de adolescentes e um terço foi de meninas de até 11 anos de idade. MENINAS. Uma pesquisa de 2016 mostrou que quase metade dos casos de agressão grave às mulheres aconteceu dentro das suas casas, por gente próxima, família, amigos, vizinhos. Acabaram de sair dados indicando que em São Paulo, por exemplo, um terço dos assassinatos de mulheres foi praticado pelos seus MARIDOS ou COMPANHEIROS.

Mas até a morte chegar, como desfecho terrível dessa história, há um longo caminho de humilhação, de abuso verbal, físico e agressões. Estamos cada vez mais conscientes e atentas. Então, chega de benevolência com qualquer comportamento que de alguma forma inferiorize a mulher. Não vamos assistir caladas essas "brincadeira" se reproduzindo por aí a torto e a direito. Nem no SBT, nem na Globo, nem em casa, nem no trabalho e nem na mesa do bar. Nem meu pai, nem meu avô, nem meu marido, nem meu filho, nem você. Nem contra mim, nem contra nenhuma mulher ou representante de minoria política.

Um beijo a todas e todos que topam encarar esse papo verdadeiramente profundo e transformador, sem mimimi. Fermanda Lima, 25/08/17"

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