Mexerico

'Provocações', de Abujamra, foi recusado por outras emissoras antes de chegar à Cultura

''Devem ter odiado o programa. TV é um rascunho, uma coisa virgem'', declarou apresentador que se manteve à frente da atração por 15 anos

Agência Estado

''As pessoas não sabem o que vai dar certo, como vai ser a primeira cópula. Elas pensam que o aprofundamento das coisas medíocres é que dará certo'', disse Abujamra sobre a TV
Ator e diretor de teatro, que morreu nesta terça-feira, aos 82 anos, falou em 2002: 'Devem ter odiado o programa', afirmou. "Se você me perguntar o que tem de bom na TV ou o que eu fiz de bom nesses 40 anos de TV, eu diria: alguns segundos": assim disse o ator, diretor e dramaturgo Antonio Abujamra a Renata Gallo, em entrevista ao Estado de S. Paulo, em entrevista feita em outubro de 2002.


Na ocasião, ele contou à repórter que, até ser aceito pela TV Cultura, seu 'Provocações' havia sido oferecido à Band e ao SBT, em vão. "Devem ter odiado o programa. TV é um rascunho, uma coisa virgem. As pessoas não sabem o que vai dar certo, como vai ser a primeira cópula. Elas pensam que o aprofundamento das coisas medíocres é que dará certo."

Abu dizia que, apesar do nome, o programa não era feito para causar medo em ninguém. Ele não estava ali para provocar, mas sim para ser provocado - daí fazer perguntas que, sabia, resultariam em respostas provocativas.

Sorte a nossa que a TV Cultura abraçou a ideia. Não fosse por esses 15 anos à frente do 'Provocações', a TV de fato teria nos dado muito menos de Abu do que ele merecia que fosse compartilhado com a massa. Seu personagem mais famoso na teledramaturgia, afinal, já era feito consumado há 26 anos, quando o célebre Bruxo Ravengar agitou aquelas bandas do Reino de Avilan, obra de Cassiano Gabus Mendes na novela Que Rei Sou Eu? (1989).

A TV lhe deu outros 14 personagens, galeria modesta para o tamanho do ator que era. Fez de tudo um pouco, até Cortina de Vidro (1989), um fiasco do SBT. Fez Amazônia (1991), na extinta Manchete, O Mapa da Mina (1993, também de Cassiano), na Globo, A Idade da Loba (1995), na Band, Os Ossos do Barão (1997) e Marcas da Paixão (2000), no SBT, Começar de Novo (2004), na Globo, Poder Paralelo (2009), na Record, e Corações Feridos, no SBT, a última novela, ainda em 2011.

Mas não foi mero golpe de sorte que o bruxo Ravengar tenha caído no colo de Abu. Gabus Mendes, o criador, e o intérprete de sua criatura já se conheciam de longa data, visto que o ator foi diretor de novelas, seriados e teleteatros da TV Tupi, o primeiro canal de TV da América Latina, comandado justamente por Gabus Mendes. Foi na emissora de Assis Chateaubriand que Abu dirigiu séries como O Estranho Mundo de Zé do Caixão e Confissões de Penélope, além das novelas O Décimo Mandamento, Yoshico, Um Poema de Amor, Nenhum Homem é Deus, O Homem que Sonhava Colorido, O Jardineiro Espanhol, O Pequeno Lord, Super Plá, A Gordinha, Salário Mínimo e Gaivotas.

Com o fim da Tupi, em 1980, foi dirigir novelas na TV Bandeirantes. Seus créditos estão em 'Um homem muito especial', 'Os adolescentes', 'Os imigrantes' e 'Ninho da serpente'. Na Globo, dirigiu 'Obrigado doutor', ainda em 1981. Participou ainda da nova série de seu filho, André Abujamra - 'Sonhos de Abu' - que estreou há pouco mais de um mês no Canal Brasil. De semelhanças físicas que não deixam dúvidas sobre o DNA em comum, pai e filho contracenaram em mesa de cantina, a caráter, com guardanapo dependurado pelo colarinho, e boa comida à mesa.

Para todos os efeitos, foi um provocador disposto a ser provocado, mesmo quando lhe baixava aquela cara de mau do Ravengar.