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Chefs de BH levam para o cardápio sabores encontrados em viagens pelo mundo

Culinária estrangeira é encontrada em diversos restaurantes da capital; saiba onde encontrar

Márcia Maria Cruz

- Foto: Nicolas ASFOURI/AFP

Há quem diga que uma das maiores riquezas da vida são as experiências trazidas pelas viagens. O que comemos contribui muito para a memória que guardamos de um lugar. Não há forma mais prazerosa de conhecer a cultura de outro lugar do que se sentar à mesa com os moradores locais ou provar dos quitutes que comem nas ruas. As texturas, os sabores entram no baú das memórias, fazendo o mundo de cada um expandir.

Chefs e mochileiros sabem bem como as viagens são importantes para se descobrirem sabores e, claro, aproveitam desses “achados” do paladar, de ingredientes e procedimentos culinários para enriquecer suas práticas de trabalho ou mesmo do dia a dia.

Fred Trindade, do Trindade, e Matheus Paratella, à frente do Paratella Gastronomia Italiana, são dois chefs da alta gastronomia que aproveitam o conhecimento adquirido em outras paragens para usá-lo em seus restaurantes. Acostumados a ingredientes e formas de preparos sofisticados, eles também se deixam seduzir pela comida de rua. Muitas vezes, são esses sabores simples que servem de inspiração para a criação de pratos e para a montagem de cardápios. “A viagem seja no Brasil ou no exterior é superimportante para nosso crescimento profissional. É uma forma de trocar informações com outros colegas e aprofundar nossa paleta de sabores para criação de novos pratos e novas técnicas”, diz Fred.

Experiências A experiência de viagens é tão radical que fez com que um casal de mochileiros – a designer gráfica Tamara Lacerda, de 25 anos, e o bancário Lucas Meireles, de 27 – largasse os empregos para abrir o bar restaurante Trip Food – Comida Mochileira, aberto há seis meses na Savassi. E quem quer reviver as viagens o Trip Food permite que os “viajantes” se embrenharem por outras culturas, num ambiente afeito ao compartilhamento de experiências e com jeitão de hostel.

Para quem nunca saiu do Brasil, os pratos da Bélgica, Polônia, Canadá, Estados Unidos, Itália e Alemanha aguçam o desejo de desbravar novos lugares. E se o orçamento está curto para viagens, o restaurante é uma inspiração. Os pratos cabem no bolso do viajante mochileiro que, de muito, tem apenas a vontade de conhecer outros países, mesmo quando a grana é apertada
. Quem chega pega a própria cerveja, podendo escolher numa carta com mais de 25 rótulos, entre as mais tradicionais e especiais nacionais e importadas. Tem até a Mochilipa, exclusiva da casa.

Mas é sempre bom ficar preparado, porque depois de uma viagem as mudanças vêm. Foi o que ocorreu com Tamara e Lucas, que resolveram apostar no negócio depois de uma viagem a 14 cidades da Europa – Lisboa, Milão, Roma, Veneza, Paris, Mikonos, Atenas, Cracóvia, Eindhoven, Amsterdã, Dublin, Gawie, Praga e Viena. “Para ser mochileiro tem que ser corajoso. Em essência, é mesmo colocar a mochila nas costas com pouca coisa e optar por uma vida mais simples. Tem que ter espírito aventureiro, porque a gente passa por muito perrengue”, diz Tamara. Muitas vezes, em locais com costumes muito diferentes dos brasileiros, o que salva são os lanches de rua.

 

O chef Frederico Trindade coleciona sabores de cada lugar que visita. De Lisboa, as castanhas portuguesas assadas na brasa, os crepes de sarraceno com manteiga bretanha na França. Do Peru, ele recorda os anticuchos (coração de boi) na brasa. O acarajé no Rio Vermelho, em Salvador
. “O fato de serem simples faz dessas comidas inesquecíveis. Pela quantidade e alta rotatividade, as técnicas são muito aperfeiçoadas. Devido à repetição, os cozinheiros cometem poucos erros”, diz.

O chef de gastronomia ítalo-brasileira Matheus Paratella, à frente do Paratella Gastronomia Italiana, no Bairro Buritis, Região Oeste de Belo Horizonte, guarda lembranças das viagens que já fez tanto a trabalho como a lazer. As mais afetivas estão relacionadas aos sabores que descobriu. Cozinheiro desde os 14 anos, para ele trabalho e lazer se misturam nas viagens. “Quem tem a culinária no coração está sempre atento aos ingredientes. Vivo em busca de algo novo”, revela.

Entre as memórias gastronômicas estão o sanduíche pealmeal bacon e o suco de maçã, que degustou em Toronto, no Canadá, há quatro anos. Na época, o chef viajou, a convite do consulado italiano no Canadá, para preparar jantares. Foi convidado pela experiência que tinha com trufas brancas em restaurante em Alba, na Itália. Quando não estava preparando pratos sofisticados, como qualquer outro turista, Matheus foi conhecer o Saint Lawrence Market em companhia do chef Lee, que lhe apresentou a iguaria popular: peameal bacon sanduíche. “É uma especialidade do Canadá. Muito famoso. É muito típico naquele mercado”, conta.

O peameal é feito com pão de sal (parecido com a ciabatta) recheado com pancetas, que são lascas finas da carne da barriga do porco. “Parece bacon, mas não é defumado. É preparado na chapa”, diz. Para completar a experiência, o suco de maçã, que é bastante típico no Canadá. “Essas experiências são muito importantes. Na viagens, temos inspirações”, diz o chef, que tem 23 anos de experiência.

PORCHETTA Antes de montar o próprio restaurante, Matheus trabalhou no Trindade e no Alma Chef, ambos no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul, período em que realizou muitas viagens a trabalho para a Europa. Como morou 20 anos na Itália, optou pela culinária tradicional. Um dos pratos que gosta de preparar é a porchetta. Tradicional prato italiano, é preparado com costela desossada e depois recheada com embutidos, legumes e ervas aromáticas.

Da experiência de viagem, o casal de mochileiros trouxe para o cardápio do Trip Food o zapienkank, sanduíche polonês. A baguete de sal aberta recebe recheios variados: o mais tradicional é o de sauté de cogumelos e queijo gratinado, mas há outros quatro tipos. “Lá, é como se fosse o nosso cachorro-quente. Depois da balada, os carrinhos lotavam”, diz. Trazer para o cardápio o zapienkank e as batatas belgas, primeiros pratos do menu, é uma maneira de estender a vivência da viagem.

Ainda por meio do cardápio, é possível ter a experiência de estar nos Estados Unidos, com os hambúrgueres, e na Itália ao saborear as massas. O sabor da Alemanhã é o curry wurst (salsichão acompanhado de tomates e batata frita). Para quem não esteve no Canadá, os poutines (feitos com batata, recheio e queijo derretido) são uma grata surpresa.

E mais lugares deverão ser acrescentados ao cardápio, que deve chegar ao conjunto de 10: os próximos a entrar são o Peru, com o ceviche; e a África do Sul, com prato ainda em estudo. “Ainda não sabemos, estamos planejando uma viagem para a África do Sul em março do ano que vem”, adianta Tamara. Com horário de funcionamento estendido na sexta e no sábado, o restaurante se tornou opção para quem sai tarde da balada e quer comer algo.