Antes de se casar, o neto de sírios não sabia cozinhar. Pela tradição, os homens apenas sentavam à mesa e comiam o que as mulheres preparavam-se. Abrahão começou servindo os filhos e os amigos, até que pediu para a mãe lhe ensinar receitas de família. “Guardei muito dos sabores da cozinha da minha avó, mas o restaurante é muito mais que isso.
Todas as cozinhas que se relacionam com o mundo árabe interessam a Abrahão. “Não temos preconceitos”, brinca. A comida judaica, por exemplo, está presente no cardápio do bistrô com o quibe vegetariano, que originalmente era preparado pelos judeus que moravam no Iraque. A receita é à base de lentilha, triguilho e legumes, os temperos e que se diferenciam da tradição árabe. Da Turquia, vem a pasta de azeitona verde ou preta, que leva estragão e endro, ervas muito usadas na culinária do país localizado entre a Europa e a Ásia. Os ingredientes são macerados em um pilão.
EXCLUSIVIDADE
O cozinheiro não deixa de oferecer os pratos árabes tradicionais, como arroz com lentilha, cafta de bandeja e quibe (cru ou frito), mas incorpora elementos da gastronomia contemporânea, e também faz a própria cozinha. Aliás, boa parte do cardápio é composta por pratos que só podem ser saboreados no restaurante de Abrahão, pois não são encontrados em livros de receitas.Prato originalmente libanês, o makloube, que significa carne que está por cima, aparece em uma versão diferente. A receita que ele criou leva uma camada de arroz com cúrcuma, berinjela frita e no topo carne bovina com cominho e refogado de cogumelos, alcaparras e pimentões, os ingredientes “intrusos”. “É para quebrar um pouco a noção de que comida árabe é museu. A minha personalidade é de sempre renovar, não tenho medo de ousar nem de quebrar paradigmas”, defende. Outro exemplo é o cordeiro aos sete temperos com cuscuz marroquino.