Bares de BH resistem à tendência de sofisticação culinária

Sem cardápio e com serviço desempenhado pelos próprios donos, estabelecimentos se esmeram nas características da baixa gastronomia

por Alexandre Guzanzhe Eduardo Tristão Girão 10/02/2015 08:30

Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press
O Serelepe, que é bar, não é barzinho, conforme ressalta seu proprietário, foi fundado em 1982 e fica no Centro da cidade; serve petiscos e tem na dobradinha um 'clássico' (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)
Cardápio? “Hoje estou meio preguiçoso, tem dobradinha e churrasquinho. Quando me dá vontade, faço sardinha.” Serviço? “Se não vou com a cara da pessoa, se vejo que vai me dar problema, falo que a cerveja está quente, que já vou fechar o bar.” Sobre as mais de mil garrafas de cachaça na parede? “Pus aquele papel escrito R$ 50 para pararem de me perguntar toda hora.”

Não há garçom, não há música, não há placa na porta, não há cardápio. A TV pequena e velha está desligada. Dois fregueses desacompanhados ocupam metade das quatro mesas de plástico, entre plantas e engradados. Eis o Bar do Delgado.



Aberto e comandado pelo português Antônio Delgado de Andrade, de 76 anos, que nasceu em Póvoa do Concelho e foi criado em Belo Horizonte, esse bar no Bairro Pompeia é apenas um entre os muitos da cidade que atravessam as décadas intocados pelas tendências, aparentemente à margem do tempo.

 

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Ali não tem marketing, móveis de demolição, cerveja artesanal, drinque no pote, harmonização, muito menos chef. No império da dobradinha, da carne cozida e do pé de porco, resistir à tendência de sofisticação que ganhou impulso com a moda da alta gastronomia não é uma missão; é que não há como ser diferente. Assim, mantém-se viva parte representativa da identidade cultural de BH.

Há um quê de folclore em tudo isso e talvez os donos desses bares não se deem conta. Não é só pelo tira-gosto ou pelo ambiente. Uma atmosfera peculiar se forma nesses lugares, na qual influi decisivamente o astral da clientela. Não raro são pessoas que chegam sozinhas, mas que nem por isso sentem-se solitárias: as mesas “conversam” umas com as outras e com o proprietário da casa, sempre presente.

Há certo clima de cumplicidade no ar. Quem quer conversa, pode colocá-la em dia facilmente por ali; quem quer meditar quieto, não se sentirá um peixe fora d’água. Todos sentem-se em casa.

“Só vem gente boa aqui e são sempre as mesmas pessoas”, conta Delgado, ao lado da velha fatiadora que hoje só usa para cortar os frios que leva para casa. Lembrança dos tempos em que o imóvel, erguido por ele em 1964, também funcionava como mercearia. “Aqui vendia pão, leite, verdura. Com o comércio que veio para o bairro, isso caiu muito”, diz. Hoje, fica por conta de fazer as compras, preparar os petiscos e atender quem chega – sem ajuda da família, nem de funcionários. “Não é por dinheiro, eu é que não gosto de funcionário. Nunca tive”, explica.

Não há qualquer amargura nessa fala. Ao contrário, deixa transparecer certeza tranquila de que tocar o bar é um ofício que só ele pode desempenhar e que a vida dos três filhos é outra, completamente diferente da dele. De Portugal, não sente saudade, pois percebe BH como sua terra.

De fato, o sotaque lusitano é pouco e os laços de amizade com gente daqui são fortes, como atestam as cabeças de peixe e quadros com fotografias da turma de pescaria. Com uma caneta atrás da orelha e o jeito manso de ver a vida passar no cruzamento das ruas Casa Branca e Mário Martins, ele bem que poderia ser mineiro.

MÃOZINHA


Também no espírito “exército de um homem só”, Paulo Casitta é o responsável por faxinar, fazer as compras, cozinhar e, frequentemente, servir as mesas do Bar do Xumba, na Rua Salinas, aberto em 1982 em Santa Tereza.

Aos 59 anos, Paulinho esbanja disposição e orgulho do que faz. Os churrasquinhos são porcionados e embalados por ele; o tempero da casa é receita sua, com balanço preciso entre cebola, alho, azeite e sal; os pastéis, por fim, são recheados e fritos rigorosamente na hora do pedido. E faz questão de esclarecer que prefere a “mãozinha” no lugar do pé de porco. “Tem mais carne e o sabor é diferente.”

“Ô, Débora, vai querer farinha ou só pimenta?”, questiona Paulinho, entre a cozinha e o balcão, com um olho no espetinho sobre a chapa quente. O dono do bar, na verdade, não é ele e, curiosamente, nem José Carlos Rocha, o simpático Xumba, que toca o negócio para o irmão, Flávio.

“Eu e Paulinho somos os prepostos dele”, diverte-se Xumba. No fundo, nada disso importa. A dupla, que aparentemente conhece pelo nome cada frequentador do local, é a alma do bar e representa com fidelidade aquilo que, ainda hoje, é possível identificar como legítimo boteco.

Há ciência por trás de cada receita (o refogado que recheia o pastel não leva óleo, por exemplo), fidelidade na hora das compras (sempre o mesmo açougue; nada de bandejinhas de supermercado) e genuíno carinho no trato com os fregueses (alguns chamados de “mala”), o que forma uma malha de relações pelo bairro que dificilmente um “bar-empresa” consegue formar – e manter por tanto tempo.

O que dizer de um bar que conta com um orelhão em seu interior? “Não deixamos tirar”, garante Xumba, invariavelmente sorridente e pronto para abrir a próxima cerveja.

BAR OU BARZINHO?

Em primeiro lugar, para ter um bar é preciso gostar; em segundo, ter responsabilidade, ensina Edson Couto Guimarães, 61 anos, proprietário do Serelepe, fincado desde 1982 no primeiro quarteirão da Rua Carijós, no Centro.

Para ele, há uma grande diferença entre bar e barzinho: “Barzinho tem cardápio, filé com fritas, frango com bacon. Começa a misturar demais. Barzinho abre tarde, bar abre às 8h e já vendendo pinga, pois de manhã cedo já tem gente para tomar uma e comer tira-gosto. Quem trabalha de dia bebe à noite, e quem trabalha à noite bebe de dia”, resume.

Mineiro de Cipotânea, na Zona da Mata, Guimarães veio adolescente para a capital mineira. Aqui trabalhou exclusivamente em bares, quase todos no Centro. Essa experiência lhe deu conhecimento para lidar com a variada clientela que se infiltra entre os habitués do local, fenômeno que, de acordo com ele, era mais intenso antes da ida de centenas de servidores para a Cidade Administrativa, das mudanças do trânsito em função do BRT e da informatização dos bancos.

Mesmo assim, a cachaça mais vendida ainda é a “da roça” (que traz da cidade natal), reinando entre outras branquinhas e garrafas de conhaque barato.

Para quem está passando por ali, fica a dica: o PF sai por R$ 9, incluindo tropeiro, espaguete ao alho e óleo, couve, salada e uma carne da estufa à escolha. O bolinho de carne, para abrir o apetite, é receita da casa.

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