Alimento Fundador do movimento Slow Food, defende o novo humanismo

por Eduardo Tristão Girão 27/03/2010 10:51
Alberto Peroli/Divulgação
"Não precisamos ser ricos nem pobres para nos dedicar a essa renovação e não depende de onde viemos e onde vivemos. É fácil, basta sentir a nossa relação pessoal com os alimentos" - Carlo Petrini, fundador do Slow Food (foto: Alberto Peroli/Divulgação)
O movimento Slow Food nasceu na década de 1980, na Itália, mas só de poucos anos para cá se tornou conhecido no Brasil. O marco que simboliza seu surgimento foi um protesto realizado na capital do país, Roma, contra a instalação de um McDonald’s em plena Piazza di Spagna, no centro histórico da cidade. O engajamento de parte da população nessa causa não foi suficiente para impedir a abertura da loja, mas deflagrou a mobilização de um número crescente de pessoas não apenas descontentes com tudo o que o fast food representa, mas preocupadas em valorizar tradições culinárias regionais e em saber como as escolhas alimentares podem ajudar a melhorar o mundo. Hoje, são cerca de 100 mil pessoas envolvidas nessa causa no mundo todo, inclusive no Brasil.

O fundador desse movimento, o italiano Carlo Petrini, esteve esta semana no país para participar do Terra Madre, congresso que reuniu pequenos produtores, artesãos, consumidores e chefs, em Brasília; o debate Entre estantes & panelas, em São Paulo; e palestra no Centro Universitário Senac, também na capital paulista. Autor do recém-lançado Slow Food – Princípios da nova gastronomia (Senac São Paulo), ele deixou claro que apenas conhecer a origem dos alimentos e apreciar pratos e ingredientes regionais com calma (noções que primeiro se espalharam no Brasil quando da recente popularização do movimento) não são mais suficientes para que alguém se sinta militando em prol do Slow Food.

É hora do que chama de “novo humanismo”: “Ele vem da comida, de tudo o que gira em torno dela, com as pessoas e a natureza em primeiro lugar, para recuperar algo que tem valor e não apenas preço, algo que enriquece nossas vidas, nossos relacionamentos, nossa relação com a Terra. Queremos que o belo e o bom estejam disponíveis para todos e acreditamos que essa é uma conquista possível para a civilização, que tem a ver com justiça e sustentabilidade, com o prazer de viver. Não precisamos ser ricos nem pobres para nos dedicar a essa renovação e não depende de onde viemos e onde vivemos. É fácil, basta sentir a nossa relação pessoal com os alimentos. Precisamos educar para que se conheçam os alimentos e as pessoas que os cultivam e os transformam. É preciso saber escolher e cultivar a diversidade, biológica e humana, para que possa retornar a imensa força criativa que sempre esteve na história humana.”

RIQUEZA NACIONAL Para ele, o Brasil tem muito a acrescentar ao movimento e diz isso não apenas por causa da internacionalmente conhecida riqueza natural do país. “O Brasil já está fazendo muito pelo Slow Food porque o povo brasileiro ama sua terra, tão rica, e não a colocará em risco. Vai salvá-la para que todos os brasileiros possam desfrutar dela e para que o mundo possa se enriquecer desse intercâmbio de culturas”, completa. Na sua opinião, as contradições que marcam o país em diversos âmbitos são sinal de riqueza e, portanto, de grande potencial em termos de progresso. “O sucesso que teve a rede do Terra Madre no Brasil mostra isso.”

“Claro, há uma enorme e complexa produção agroindustrial, que está seguindo os padrões dos Estados Unidos e da Europa, mas em breve vocês vão começar a considerar não só a riqueza em termos dos benefícios econômicos que traz, mas também olhar para os danos que ela está fazendo às suas riquezas primárias: a terra, a biodiversidade e os povos que habitam as terras onde predomina a monocultura. Observem o que ocorreu na América rural e na Europa e não cometam os mesmos erros”, finaliza.

Em certos momentos o Slow Food foi criticado por defender hábito alimentar supostamente elitista. Como o movimento se posiciona em relação a isso? É uma questão superada? “Essa crítica advém da crença equivocada de que o prazer é reservado para a elite, de que o belo e o bom são acessíveis apenas para aqueles que podem comprá-los,” afirma. E assegura que não é assim que deve funcionar. “O prazer da comida, por exemplo, é fisiológico. Não sou obrigado a consumir produtos gourmet, caros e de superexcelência, para ter prazer. Desafio alguém a dizer que um prato de origem popular como a feijoada não pode dar esse prazer e também o prazer do convívio e de redescobrir o valor de ingredientes saudáveis e locais cultivados de forma sustentável, às vezes até cultivados por nós mesmos, se tivermos essa possibilidade.” Carlo Petrini lembra que, no mundo inteiro, a culinária é formada a partir de receitas populares, “criadas a partir das instituições brilhantes de homens e mulheres que tiveram de criar os melhores pratos possíveis com os ingredientes que tinham disponíveis.”

PRAZER TAMBÉM É SUSTENTÁVEL

Orientação – “Separar conceitos como sustentabilidade e comércio justo de prazer gastronômico é errado. O prazer também é sustentável. Se consumo produtos locais e sazonais, cultivados sem químicos, que requerem pouco transporte e, portanto, poluem pouco, e se compro diretamente dos agricultores, gastando menos e lhes pagando mais, porque há menos atravessadores, pensaria que esses produtos são inferiores? Não. Esses produtos serão certamente melhores por que são sustentáveis, respeitam as pessoas que trabalham na terra, não são poluídos e não poluem. Eles custam menos! O movimento não mudou de direção. Portanto, continua a ser um movimento para a proteção e o direito ao prazer. Só percebemos que o prazer pode e deve ser acessível a todos respeitando os agricultores e a terra. O prazer tem de passar por isso e não é elitista.”

NOVO PAPEL – “As pessoas estão prontas para desempenhar novo papel e quem não está, logo deverá estar, por necessidade, porque o sistema atual é insustentável, já está vacilante e é insatisfatório tanto para o consumidor como para o produtor. Tornar-se coprodutor significa estar ciente de que o ato de comer é o último ato do ciclo que se inicia na terra e a ela retorna, passando pelos agricultores, artesãos, transformadores, pescadores e também nós mesmos, com nossas ações. O coprodutor sabe que é parte de uma comunidade, pequena ou grande, e sabe que suas escolhas podem mudar a política e, com isso, os que cultivam sua comida terão incentivo para fazer cada vez melhor. Tornar-se coprodutor é construir uma espécie de aliança com aqueles que produzem os alimentos, porque ‘comer é um ato agrícola’, como diz meu amigo Wendell Berry, poeta e agricultor.”

DESPERDÍCIO – “Em primeiro lugar, é preciso redescobrir o verdadeiro valor do alimento, educando-se e informando-se, exigindo educação e informação. E então, aprender a escolher produtos de qualidade e sustentáveis, como os produtos sazonais e locais, tradicionais, frescos e tudo aquilo que exigiu o mínimo possível de transporte e atravessadores. Com um pouco de comprometimento pode ser feito em qualquer lugar, mesmo na cidade. Temos também de aprender a não desperdiçar alimentos, porque o mundo produz alimentos para 12 bilhões de pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e no mundo somos sete bilhões! Enquanto isso, mais de um bilhão de pessoas sofrem de fome e desnutrição – e 1,2 bilhão têm excesso de doenças nutricionais como diabetes e obesidade. Então, há algo errado com esse sistema, que se baseia em consumir por consumir, no desperdício de alimentos como um direito que se mostra obsoleto.”

IDEOLOGIA – Acredito que boas ideias têm pernas longas e um longo caminho a fazer sempre, independentemente de quem as teve. E também acredito que os problemas dos quais temos falado têm muito a ver com política, mas pouco com a ideologia. É preciso entender disso quando se fala de política em 2010. Quem pensa com ideologia pensa como há 50 anos e, desde então, o mundo e as cabeças das pessoas mudaram muito. E tudo continua mudando muito rápido, mais do que imaginamos. Não acho que há mais tempo para velhas ideologias. É hora de um novo humanismo.”

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