Começa mais uma edição do Comida di Buteco

Festival traz de volta à mesa petiscos preparados com folhas da culinária mineira

17/04/2009 07:00
Pedro David/Esp. EM/D. A Press
Eduardo Maya, Flávia Rocha e Maria Eulália Araújo apostam no charme dos botecos de BH (foto: Pedro David/Esp. EM/D. A Press)
Este ano, os organizadores do Comida di Buteco colocaram um desafio sobre a mesa dos bares de BH: criar receitas que tenham couve, taioba e mostarda. O resultado pode ser degustado em 41 endereços da cidade, de hoje a 17 de maio. Eduardo Maya, criador do evento, antecipando o que experimentou na fase preparatória do festival, prevê o retorno aos clássicos. Isto é: a pratos tradicionais, como as várias receitas com carnes, reinventados com o acréscimo de verduras da culinária mineira. E vale acrescentar: com um pouco da história gastronômica milenar das cozinhas egípcia, chinesa, grega e romana.

Confira os candidatos do Comida di Buteco

“Com as folhas, pratos conhecidos ganharam nova apresentação, além de frescor e beleza. É a volta de antigos ingredientes que estavam ausentes na comida de boteco”, explica Eduardo Maya. Ele conta que pesquisou e encontrou poucas opções com vegetais no cardápio dos bares. Por causa disso, defende a mudança de hábitos. Durante o evento, o público poderá experimentar receitas retiradas de velhos baús e constatar a transformação provocada por folhas de texturas marcantes, versáteis e saborosas.

“A proposta do uso de folhas veio para provocar o surgimento de pratos diferentes”, completa Eduardo Maya, lembrando ação semelhante em outras edições, que, segundo ele, ajudaram a renovar o cardápio dos bares. A proposta surgiu também do incômodo das mulheres com pratos calóricos – como o torresmo, astro do festival de 2008, e as carnes. “É um incentivo à valorização das verduras e legumes, mesmo como decoração. Também comemos com os olhos”, afirma o especialista. Por ele, a pauta deste ano teria mais duas verduras: a serralha e a Maria Godó. Mas, durante organização do evento, descobriu-se que não há fornecedores suficientes desses produtos. Por isso, o criador do Comida di Buteco defende que os interessados em resgatar a culinária mineira sigam o caminho do movimento slow food (comida feita artesanalmente, com todo o capricho): “Diálogo direto com fornecedores que garantam os ingredientes necessários”.

MULHERES

“As folhas podem ser comidas à vontade, pois dão ideia de tira-gosto light”, brinca Maria Eulália Araújo, também organizadora do festival. Ela lembra que a edição do ano passado teve um tema “nada amigo da balança”: o torresmo. “Essa será uma edição criativa e saborosa. Um ano forte”, garante. Entre as transformações provocadas pelo Comida di Buteco está o fato de modificar a frequência em bares. “Ir a um festival gastronômico é desculpa muito interessante para invadir os botecos. Já fui a bares que eram essencialmente masculinos e hoje não são mais”, revela Eulália.

Para ela, o essencial num bom boteco é boa comida, cerveja gelada e ambiente. “Um lugar onde somos respeitadas. Pode paquerar, e mulher gosta de ser paquerada, mas sem abordar a moça de forma inconveniente”, aconselha. Para Eulália, saboroso, mesmo, é o fato de o Comida di Buteco completar 10 anos. “Fomos aprovados, o público se apropriou do evento e temos a simpatia de muitos”, comemora, enumerando os motivos de sua alegria. “Pusemos a lupa sobre o óbvio: boteco é uma das principais formas de lazer e sociabilidade em Belo Horizonte. O Comida di Buteco deu glamour ao botequim de bairro e ao roteiro de bares como um todo. Vem contribuindo para a valorização da capital em âmbito nacional e internacional, o que acaba aumentando a autoestima do belo-horizontino”, garante.

“Tira-gosto e boteco nasceram juntos”, afirma Eulália, lembrando que ambos remetem à urbanização e somam diferentes tradições culinárias, como a portuguesa e a espanhola. O boteco mineiro, ela acredita, teve origem nos velhos armazéns, vendas e mercearias, pequenos locais de comércio de coisas essenciais. Nesses espaços, depois de comprar o necessário, o cliente tomava alguma bebida, como cachaça. “Tira-gosto é a culinária de raiz. Deve ter vindo de algum prato da casa do proprietário, feito pela mulher dele. Acabava oferecido no balcão, porque os visitantes sentiam o cheirinho de comida vindo da cozinha”, especula. “Botecar é conversar, beber e beliscar – verbo conjugado de Norte a Sul do país”, conclui Eduardo Maya.

O FESTIVAL

O Comida di Buteco é um concurso gastronômico que elege (com os votos popular e especializado) o melhor prato para ser compartilhado a palito. De hoje a 17 de maio, a 10ª edição do festival (criado por Eduardo Maya e atualmente dirigido por ele e por Maria Eulália Araújo) reúne 41 concorrentes. No cardápio estão petiscos que tenham como ingrediente ou decoração couve, taioba e mostarda. A eleição é feita em cédula que avalia sabor, originalidade e apresentação. Considera-se também o atendimento, a temperatura da bebida e a higiene do boteco.

Além da disputa gastronômica, o festival terá o Circuito Arte e Cultura, de 4 a 10 de maio, com apresentações dos grupos Armatrux (teatro), Choro de Minas, Cirandeiros e Caixinha de Phosphoros, entre outros. Também ficará em cartaz a mostra Arte de banheiro, com retrospectiva dos melhores trabalhos já apresentados no evento e intervenções de Paulo Nazareth, Rodrigo Mogiz, Wagner Rossi, Luciana Lyrio, Rafael Soares, Marconi Marques e Rodrigo Jesus.

Pedro David/Esp. EM/D. A Press
José Batista Martins venceu o festival de 2006 com o prato Trupico mineiro (foto: Pedro David/Esp. EM/D. A Press)
CAMPEÃO DOS CAMPEÕES

O Bar do Zezé, desde que começou a participar do Comida di Buteco, em 2004, sempre esteve entre os vencedores do festival. Foram dois primeiros lugares, duas segundas colocações e uma medalha de prata. “O segredo, primeiro, é ter amor ao que se faz. Depois, é preciso inventar algo que caia na gosto da galera”, diz José Batista Martins, dono do bar. Ele conta que, antes de lançar um prato novo, testa junto ao público. Só o coloca no cardápio se for aprovado. “Bom tira-gosto é aquele que você come enquanto bebe cerveja e não fica com o estômago cheio. Se a comida dá lombeira, você fica com vontade de ir embora para relaxar”, ensina. O Bar do Zezé foi aberto em 2000, substituindo a mercearia, por causa da queda de movimento. Inicialmente, eram quatro mesas e um fogão de duas bocas. Hoje, são 38 mesas, ocupando, inclusive, o lugar da antiga mercearia, desmanchada para dar mais espaço ao boteco.

GRANDE FINAL

Para fechar a 10ª edição do Comida di Buteco, vai rolar a tradicional festa Saideira. A grande confraternização está marcada para 22 e 24 de maio, no Centro Esportivo Universitário (CEU), na Pampulha. Informações: (31) 3209-3900 ou www.comidadibuteco.com.br.

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