Bairro Lagoinha em BH revive efervescência cultural

Com iniciativas de revitalização e ocupação artística, bairro é reduto boêmio de Belo Horizonte e convive com estigma da violência

por Márcia Maria Cruz 09/09/2018 08:00

Cenário de capítulos seminais da história cultural de Belo Horizonte, a Lagoinha foi descrita liricamente pelo escritor Wander Piroli (1930-2006). No livro A mãe e o filho da mãe (1966), Piroli crava: “Um bairro safado, de características muito especiais, que começava na Praça Vaz de Melo (que chamávamos de Praça da Lagoinha, uma praça incrível) e terminava na Pedreira Prado Lopes”. Em todos os tempos, o bairro vem despertando a paixão de artistas, que o eternizaram em prosa e verso e no nome do copo sinônimo de boemia: o copo Lagoinha. Desde 2010, artistas, coletivos de artes e empreendedores mostram que a Lagoinha vive e acolhe movimentos de vanguarda nas artes visuais, na música e nas artes cênicas.

Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS
A atriz Cida Barcelos prepara o solo A dama Geni e o Malandro da Lagoinha, que será apresentado na Casa Rosa Bonfim (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS)

No final da década de 1960, Piroli, que também é autor do livro Lagoinha, da coleção “BH, a Cidade de Cada Um”, já destacava as mudanças urbanísticas do bairro e falava da ambiguidade da imagem da região: ponto da cidade frequentado por personagens fascinantes, muitos deles à margem da sociedade, mas também local retratado negativamente pelas manchetes de jornal – naquela época, por crimes que ocorriam na região da Pedreira e, na atualidade, por abrigar a cracolândia de BH. No entanto, tesouros arquitetônicos construídos nos primeiros anos da cidade, como as dezenas de casarões, convivem com iniciativas contemporâneas que revelam a efervescência da Lagoinha e trajetórias de moradores, que, como já descrevia Piroli, seguem como estrelas.

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O cantor Moisé Pescador e Filipe Thales, do movimento Viva Lagoinha, no espaço Quintal Lounge (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS)

O amor pela Lagoinha pode ser visto na camisa de Filipe Thales, de 34 anos, que se tornou embaixador do bairro e vizinhança. O vestuário tem como estampa a placa da Rua Itapecerica, onde vive há 11 anos. Ele é um dos facilitadores do Viva Lagoinha, movimento de revitalização da região. A via se tornou símbolo do movimento de recuperação que inclui, além da Lagoinha, os bairros Bonfim, IAPI e Pedreira Prado Lopes. “Itapecerica significa pedras que rolam em tupi-guarani. As pedras que eram retiradas da Pedreira Prado Lopes para a construção de Belo Horizonte rolavam pela Rua Itapecerica”, afirma Filipe.

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A empresária Paulina Ribeiro de Oliveira transformou sua própria casa num espaço para eventos culturais (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS)

O coletivo dá visibilidade a ações e projetos como Terreiro Lounge, espaço na Rua Diamantina que funciona como coworking; Hortelões da Lagoinha, responsáveis pela criação de jardins e hortas às margens da Avenida Antônio Carlos; a Casa Rosa do Bonfim, que acolhe projetos de artes, entre eles a Fluxo – Galeria Urbana, os Rolezinhos, circuitos de visitação guiados, em parceria com o Nossa Grama Verde; o Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira, na Pedreira Prado Lopes; a Ocupação Pátria Livre, na Rua Pedro Lessa. A região ainda acolhe antiquários, o Mercado da Lagoinha e restaurantes que formam um leque de opções que confirma a retomada do polo criativo.

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Bruna Viana, uma das idealizadoras do projeto Nossa Grama Verde, que realizará edição na Lagoinha (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS)


CASARÕES A riqueza arquitetônica pode ser vista nos casarões, embora muitos estejam abandonados. Mesmo sem a conservação devida, ainda é possível ver a beleza das casas construídas por imigrantes italianos que foram para lá, no final do século 19, e se instalaram próximo à região de onde foram retiradas as pedras para a construção da capital. Uma delas é a Casa da Loba. Erguido pelo italiano João Amaro, em 1920, o casarão ficou conhecido pela estátua da loba na fachada. Na mitologia, o animal alimentou os gêmeos Rômulo e Remo, fundadores de Roma. A estátua não está mais lá e não se sabe ao certo o paradeiro dela, mas a imponência do casarão emocionou Cida Barcelos, atriz e moradora do Lagoinha que integra o movimento de valorização da região.


Cida dirige e conduz o solo A dama Geni e o Malandro da Lagoinha, em que apresenta a história de uma prostituta que se encontra com o arquétipo do homem da boemia. A Casa da Loba a intrigou de tal forma que a levou a pesquisar sobre a região. “Meu corpo e a Lagoinha são uma coisa só. A Lagoinha é a Dama Geni. A Dama Geni é a Lagoinha”, afirma Cida.

Com estreia prevista para o dia 15 na Casa Rosa do Bonfim, a apresentação do solo faz parte da programação do Circuito Lagoinha, evento que será realizado na Rua José Ildeu Gramiscelli, numa parceria entre o Viva Lagoinha e o Nossa Grama Verde. “Fazemos parcerias para a valorização de iniciativas locais”, diz Bruna Viana, uma das idealizadoras do Nossa Grama Verde. A programação terá shows da banda Lamparina e A Primavera, do cantor Moisés Pescador, de Duzão Mortimer e banda e se encerra com a apresentação do solo. Nossa Grama promove eventos itinerantes em diferentes bairros da cidade com o objetivo de estimular moradores a ocuparem as ruas do lugar.

Bruna explica que podem ser feitos pelo menos quatro roteiros diferentes nos Rolezinhos, com duração da visitação de quatro e oito horas. Um dos circuitos passa pela Praça Rio Branco (praça da Rodoviária), atravessa o viaduto até a Praça Vaz de Melo, segue pela Rua Itapecerica, onde é possível conhecer o antiquário mais antigo da região, o Armazém do Tonhão, atravessa a Avenida Antônio Carlos para encontrar os hortelões. Os visitantes conhecem o Armazém NºOitO e o Restaurante do Muller. Depois, seguem para o Mercado da Lagoinha, passam pelo IAPI, visitam a Ocupação Pátria Livre, em seguida vão ao Restaurante Maria Vermelha. O ponto de chegada é o Armazém da Gigi,  no início da Rua Itapecerica.

A empreendedora e proprietária da Casa Rosa do Bonfim, Paulina Ribeiro de Oliveira, mora há 20 anos no Bairro Bonfim, onde manteve por 10 anos a galeria Circo Bonfim de arte contemporânea e o ateliê da marca A Dona da Casa. Motivada pelos filhos, a estilista Maria Cândida Vecchi e o marceneiro Francisco Machado, da Oficina_NUC, ela abriu a própria casa para receber exposições e outros eventos de arte.

Com vista da varanda para todo o bairro, a casa é um espaço multiuso que pode receber desde jantares e cafés da tarde até exposições de arte e shows. As paredes da sala de Paulina recebem obras da arte urbana belo-horizontina, como as criações dos artistas Comum, Alexandre Rato, Quatro e 25, Meninos Moscas, André Burian, Marco Túlio Rezende e Xeréu. “A casa como espaço cultural surgiu por acaso, do movimento dos meus filhos e os amigos deles. Temos aqui a Fluxo uma vez por ano. Tivemos a realização de duas edições da festa Master Plano e show do grupo Dibigode”, conta a proprietária da residência, que chama a atenção pelo tom incomum de rosa e azul das paredes. Outro casarão do Bonfim, na Rua Borda da Mata, recebeu a segunda edição do Junta – Bazar de Arte Independente, com trabalho de Binho Barreto, Desali, Leonora Weissmann, Renato Negrão, entre outros artistas.

Filipe Thales ressalta que, além do patrimônio arquitetônico, o Viva Lagoinha valoriza os moradores da região. “Apesar de os casarões serem muitos estudados em livros e teses, nosso foco são as pessoas”, afirma. Ele lembra que cerca de 70% dos moradores têm idade acima dos 65 anos. “É uma turma que viveu outra época. Pensamos na requalificação da região, mas a partir do que querem os moradores”, diz.

Ele conta que os próprios moradores devem assumir a gestão de espaço cedido por uma faculdade que se instalará na Rua Itapecerica. O músico e geólogo Moisés Pescador, de 31, compôs três canções sobre o bairro que escolheu para morar há cinco anos. “Sempre soube da importância histórica da Lagoinha. Mas, inicialmente, tive dificuldade de escrever sobre ela”, diz. Foi a partir do contato com o coletivo que ele ganhou inspiração para escrever as letras. Moisés Pescador faz homenagem ao Mestre Lagoinha, de 84, autor de várias composições em homenagem ao bairro.

Circuito Nossa Grama Verde – Edição Lagoinha: No sábado (15), das 10h às 20h. Shows com Lamparina e A Primavera, Moisés Pescador, Duzão Mortimer e banda. Na Rua José Ildeu Gramiscelli, Bonfim. Entrada franca

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