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Ivone Lara enfrentou machismo para se impor junto aos bambas do samba



Muito antes de o termo empoderamento feminino virar moda, Dona Ivone Lara enfrentou o machista universo do samba. Foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo: Os cinco bailes da história do Rio, parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau, que brilhou na avenida em 1965 e se tornou um clássico da Império Serrano. Pioneira, está entre as primeiras mulheres a integrar a ala de compositores de uma escola – no caso, a sua querida verde-e-branco.


Em seus 97 anos – completados no último dia 13 –, a carioca Yvonne Lara da Costa construiu obra singular. É a mais importante compositora de samba do Brasil. Sua morte, na segunda-feira, 16/4, em decorrência de insuficiência respiratória, mobilizou colegas de todas as gerações, de todos os gêneros musicais, comprovando que a autora do clássico Sonho meu não era, apenas, pedra fundamental do samba, mas da cultura do país.


Felizmente, Dona Ivone colheu em vida a veneração de fãs, músicos, autoridades e intelectuais. Ontem, sua morte foi lamentada por políticos de todas as ideologias – do presidente Michel Temer (MDB) ao deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ).


“Dona Ivone teve suas flores em vida e a admiração de toda a classe artística, de toda a imprensa especializada e do público, mesmo com a idade avançada – um privilégio para poucos num país de memória negligente como o Brasil”, resumiu o crítico musical e jornalista Rodrigo Faour em sua página no Facebook.


Gravada por Maria Bethânia, Gal Costa, Beth Carvalho, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Toller, Paulinho da Viola, Mariene de Castro, Roberta Sá e Marisa Monte, entre muitos outros, Dona Ivone – que “simplificou” seu nome ao se tornar artista – deixou várias canções emblemáticas além de Sonho meu e Os cinco bailes da história do Rio. Alguém me avisou (“Foram me chamar/ Eu estou aqui/ O que é que há?) e Acreditar (Acredita, eu não/ Recomeçar, jamais/ A vida foi em frente/ E você simplesmente não viu que ficou para trás), por exemplo, não saem da boca do povo. Batem ponto em rodas de sambistas país afora.


Certa vez, Túlio Feliciano, diretor de um dos shows de Dona Ivone, resumiu assim a importância da compositora: “Ela é a síntese do samba. Tem o ritmo dos tambores do jongo e a riqueza melódica e harmônica do choro.

Em seu canto intuitivo está um pouco da África e do negro americano”.
Dizer que Dona Ivone se confunde com a história do Brasil não é “hagiografia” reverente à comoção fúnebre. A compositora contou ao jornalista Tárik de Souza que o filho tirava boas notas em geografia e história, para espanto da professora, por causa do samba. A mãe lhe ensinava as lições com base no repertório da Império Serrano...

VILLA-LOBOS Filha do violonista e mecânico de bicicletas João da Silva Lara e de Emerentina, pastora do rancho carnavalesco Flor do Abacate, Ivone ficou órfã de pai e mãe ainda pequena. Foi enviada por parentes a um colégio da Tijuca, no Rio de Janeiro, e ali permaneceu até os 17 anos. Aprendeu música com a professora Lucília Villa-Lobos, mulher do maestro Heitor Villa-Lobos, que a elogiou, certa vez. A garota tinha o dom da melodia. Adolescente, compôs a primeira música, Tiê-tiê, parceria com o primo, Mestre Fuleiro, bamba da Império.


Mocinha, foi morar com o tio (um chorão amigo de Pixinguinha), que lhe ensinou os segredos do cavaquinho.

Na década de 1940, já vivendo em Madureira, frequentava a Escola de Samba Prazer da Serrinha e começou a compor sambas. Aos 25, casou-se com Oscar Costa, filho do presidente dessa escola, de quem ficou viúva em 1975. Ali conheceu os futuros parceiros Aniceto, Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira. Em 1947, estreou na recém-inaugurada Império Serrano. Participou da ala das baianas, inclusive.

NISE Enfermeira e assistente social formada, Dona Ivone foi pioneira também na saúde pública. Terapeuta ocupacional, trabalhou como assistente da psiquiatra Nise da Silveira, a mulher que revolucionou o tratamento de doenças mentais no Brasil ao utilizar a arte como terapia.


Lançado em 2016, o filme Nise – O coração da loucura, de Roberto Berliner, traz Glória Pires no papel principal e a atriz Roberta Rodrigues (de Cidade de Deus) como a diligente e sensível enfermeira Ivone.


A compositora se aposentou em 1977 e decidiu se dedicar, de vez, à carreira musical. O parceiro mais frequente foi Délcio Carvalho, falecido em 2013, com quem ela compôs Sonho meu, Minha verdade e Em cada canto uma esperança.
Em 1970, lançou o primeiro disco, Sambão 70.  Gravou e participou de 15 álbuns, fez shows na Europa, África e nas Américas. Em 2012, foi homenageada com um desfile-tributo pela Império Serrano.

REFERÊNCIA Mesmo com a saúde debilitada pela idade, Dona Ivone Lara fez shows até 2016.

O neto André Lara, seu parceiro, contou que ela só parou quando o Alzheimer a deixou mais frágil. “Ela gostava muito de se manter no meio da música. Depois começou a ficar muito cansada. Foi uma referência no samba e na família”, contou André na quadra da Império Serrano, no Rio de Janeiro, durante o velório da avó.


No palco atrás do caixão foram colocadas fotos do desfile da escola no carnaval carioca de 1983. A bandeira da verde-e-branco recobria o corpo da sambista. O filho, Alfredo Lara, contou que a mãe conquistou seu espaço com doçura, mesmo dentro de casa – o marido não a queria no meio do samba.


“Era uma pessoa humilde, na dela, que abriu portas para outras mulheres. Não gostava de polêmicas. Meu pai tinha ciúme, mas acabou aceitando, com a vinda do sucesso, com todo mundo elogiando. As mulheres naquela época só dançavam, não faziam samba”, lembrou. (Com agências)

 

 

Musical em setembro

 

Dona Ivone Lara será homenageada em Um sorriso negro, cuja estreia está prevista para setembro, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.

Nos últimos seis anos, ela vinha participando da pré-produção do musical, contou ontem o idealizador do espetáculo, Jô Santana.


“É uma grande homenagem à mulher, ao empoderamemto feminino. Dona Ivone foi pioneira como compositora”, afirmou Santana, que já encenou um musical sobre Cartola.


“Como disse Alcione, Dona Ivone era um pássaro que veio da  Império Serrano para guiar todo mundo. Era a mãe que acalentava e cuidava, a avó. Ela estava empolgada com a peça. A família aprovou o texto. Vamos fazer também uma exposição no teatro, com fotos e figurinos. A peça  começa com o encontro dela com a médica Nise da Silveira”, explicou.

 

 

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