Amyr Klink usa o know-how adquirido no mar para defender o uso inteligente da água

Famoso por atravessar oceanos, navegador brasileiro faz palestra em BH

por Márcia Maria Cruz 04/11/2017 10:11
Marina Bandeira Klink/divulgação
Amyr Klink diz que tanto as travessias oceânicas quanto o uso da água exigem responsabilidade e planejamento (foto: Marina Bandeira Klink/divulgação)

Amyr Klink, o navegador mais popular do Brasil, ficou conhecido pela travessia solitária do Atlântico Sul em um barco a remo, realizada em 1984. Desde aquela expedição, fez centenas de viagens. Pelo menos 40 delas à Antártida – a última, em janeiro deste ano. Ficou cerca de 1,2 mil dias em alto-mar. No entanto, o que poucas pessoas imaginam é que a parte mais divertida é o fim do trabalho, que se inicia com o planejamento da viagem e a construção do barco.

“Estar no mar é o capítulo final. Passo a maior parte do tempo planejando as viagens. Remar no Atlântico foi fácil. Difícil foi montar o projeto, encontrar todas as soluções e vencer a burocracia”, conta Klink.

Neste sábado (4), o navegador estará em BH. Vai falar sobre o uso inteligente da água, às 14h, no Centro de Referência da Juventude (CRJ). O espaço abrigará a exposição de fotos das expedições produzidas por Amyr e sua mulher, Marina. O público verá o barco em que ele fez a travessia em 1984, além de objetos ligados a essas jornadas.

“Errar o cálculo da água mata. Se você não bebe água nenhuma, morre no terceiro dia. Normalmente, a pessoa morre antes por questões psicológicas, pois entra em desespero. Por outro lado, se você bebe água do mar, sobrevive bem apenas sete dias. Depois, entra no processo de nefrite e morre subitamente a partir do 11º dia”, explica.

A quantidade de água a ser consumida é o maior dos cuidados que o navegador precisa adotar. Em 1984, Amyr levou 275 litros – gastou 273,5 litros. “Sobrou um litro e meio. Os alunos perguntam se eu poderia ter ficado sem água. Respondo que errei as contas. Tinha que ter voltado com nenhum litro. Esse litro e meio foi um quilo e meio que remei à toa da África até o Brasil”, compara.

Em 1984, ele mediu o consumo de água ao longo de toda a viagem. “Devo ter errado em algum momento. Não tínhamos sensores digitais na época, mas hoje dá para programar com muita precisão”, explica. A quantidade de água deve ser praticamente exata. “A menos é um erro fatal, mas exceder também é um erro de desperdício. É uma experiência muito simples”, observa, lembrando que o processo exige eficiência.

PUNIÇÃO


Navegadores como ele desenvolvem um senso de responsabilidade diferente, que exige lidar com recursos de maneira adequada. “No barco, temos absoluta clareza da punição. Você não tem direito de dormir e descansar enquanto não resolver o problema. No mundo real, as pessoas estão sempre pensando que têm direito ao repouso. O certo é ninguém ter direito ao repouso até resolver os problemas. Como cidades não afundam, a gente adota um modo de vida menos responsável. Na maravilha do mundo náutico, o barco afunda quando entra água”, adverte ele.

A maior parte das viagens de Amyr Klink se deu em barcos projetados por ele, que se interessou por literatura náutica antes de pensar em cruzar o oceano. “Fiquei apaixonado e conheci alguns daqueles barcos que passam por Paraty. Mas, naquela época eu não tinha projeto de atravessar o Atlântico. A ideia surgiu porque vi que muitos que tentaram haviam fracassado por erros bem primários de rota e de cálculo de alimento e água. Foi assim que me lancei no projeto de fazer um barquinho para a travessia em 1984.”

A meta era atravessar o Atlântico em 106 dias, mas Amyr conseguiu completar a missão uma semana antes do prazo previsto. O navegador destaca que travessias solitárias como a dele são comuns – inclusive, há competições esportivas no Atlântico e até volta ao mundo.

Com o desenvolvimento tecnológico, navegadores podem prever o armazenamento de alimentos e água por até três anos. “Na época, o problema da travessia a remo é que não tinha espaço para a redundância. Perder um litro de água por vazamento poderia ser fatal”, explica. Ele usou tanques flexíveis, feitos com o mesmo material empregado em carros de corrida e aviões. Havia mantimentos para 110 dias. “O cálculo foi muito justo. Optei por alimentos desidratados, que contemplavam problemas médicos e diarreia”, relembra.

Amyr Klink/divulgação
O barco usado nas viagens de Amyr Klink ficará exposto no CRJ (foto: Amyr Klink/divulgação )


PARCIMÔNIA


Na palestra e na exposição, Amyr Klink convoca o público à reflexão sobre consumo responsável e inteligente da água. Lembra que é possível dessalinizá-la, embora projetos assim sejam caros e difíceis. “A gente gosta de usar água com parcimônia. Adotamos vários mecanismos: aspersão fina nas torneiras, comando no pé em vez do comando na mão e a medição de consumo instantâneo e médio. Não entendo o motivo de a arquitetura moderna não usar sensores eletrônicos, que são muito baratos”, diz. E alerta: há desperdício de água até quando a mão que será lavada tem que abrir a torneira. A mudança do comando da mão para o pé representa economia de 70%.

“No Brasil, a água é barata, então a gente acaba desperdiçando”, pondera o navegador, lembrando que a tecnologia de saneamento é “primitiva”. Entre as estações de tratamento e a torneira, metade da água é desperdiçada devido a vazamentos. “Nosso consumo per capita é absurdo, quase 200 litros por dia por habitante”, diz.

Amyr Klink defende recompensas econômicas para quem recupera nascentes e punição para quem usa água inadequadamente. “É preciso criar estímulos para atitudes corretivas e punição para atitudes erradas”, diz. “A gente transforma água tratada em esgoto quando a usa na descarga. Poderíamos usar ali água de chuva ou sistemas a vácuo”, conclui.

AMYR KLINK
O navegador faz palestra neste sábado (4), às 14h, no Centro de Referência da Juventude (CRJ) – Rua Guaicurus, 112, Centro. Entrada franca
. A exposição Linha d’água – Viagens oceânicas de Amyr Klink e suas lições sobre a água ficará em cartaz no CRJ até 11 de novembro. O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 22h, e aos sábados, das 9h às 14h. Entrada franca.

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