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Entrevista

"Enchi a cara de remédio", afirma Cláudio Botelho sobre cancelamento de musical

Autor do comentário político que gerou reação indignada da plateia em BH e suspendeu as sessões de 'Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos' conta como se sentiu em relação à polêmica e fala em "caça à bruxas"

Silvana Arantes
Cláudio Botelho, em BH, no dia seguinte à estreia frustrada de 'Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos' - Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A.Press

O espetáculo "Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos", de Charles Möeller e Cláudio Botelho, tomou tortuosas trilhas em sua passagem por BH. A sessão de estreia, na noite de sábado (19/3), no Sesc Palladium, foi suspensa, depois que Botelho, protagonista da montagem, incluiu no texto uma referência a “um ex-presidente ladrão que foi preso” e a “uma presidente ladra que sofreu impeachment”.

Parte do público vaiou e começou a se retirar do teatro. Botelho aconselhou que fossem à bilheteria para “pegar seu dinheiro de volta”. Um grande grupo de espectadores preferiu se postar na lateral da sala, gritando “Chico!” e “Não vai ter golpe!”. Após algumas tentativas frustradas de retomar o curso da peça, ela foi cancelada. “Vocês são piores que os militares. Vocês pararam 'Roda viva'”, esbravejou Botelho, citando a canção que viria no ponto em que o espetáculo foi interrompido.


A divulgação do episódio acentuou a polêmica, com reações na internet. O Sesc Palladium e a produtora local decidiram suspender a segunda sessão prevista, para domingo (20/3)à noite. Foi anunciada a devolução dos valores dos ingressos para todos os espectadores, de ambas as sessões. “Vou ter um grande prejuízo financeiro. Sou produtor, sou dono do espetáculo, mas isso é o de menos”, afirma Botelho.

Na manhã de domingo (20/3), o site Mídia ninja postou áudio de uma conversa entre o ator e diretor e Soraya Ravenle, atriz que coprotagoniza o espetáculo, no camarim do teatro, após o tumulto. O site chama a atenção para trecho em que Botelho usa a palavra “negro” para se referir a um espectador e o acusa de racismo.

No início da tarde de domingo (20/3), no hotel em que se hospedou em BH, Cláudio Botelho recebeu o Estado de Minas, para a seguinte entrevista.

As referências que o sr. fez em cena ao ex-presidente Lula e à presidente Dilma eram um improviso, um “caco”, como se diz no jargão teatral, certo?
Faço a peça há dois anos. Sempre fiz (o caco) ali. Ali é a hora da novela e faço um comentário além disso. Fiz sobre o (presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo) Cunha, fiz sobre a Dilma uma brincadeira qualquer há muito tempo.
Em Portugal, fiz sobre a migração, que é uma coisa seriíssima. As pessoas sempre reagiram rindo e entendendo que era uma brincadeira. Ontem, pensei: por que as pessoas estariam em casa, além da novela? Porque a toda hora acontece uma coisa diferente. Então, era um comentário sobre a política atual. Foi na hora. Não programei fazer isso. Aquele é o momento do caco. Já teve de tudo e sempre sou aplaudido.

O sr. poderia descrever sua trajetória mental e emocional ao viver a situação do protagonista de um espetáculo numa sessão em que as coisas começam a sair do controle e dali para a frente?
Eu ri.
Primeira etapa: não entendi o que estava acontecendo. Achei que era uma brincadeira, que aquela gente estava vaiando e ia passar, que ririam comigo. Achei que a plateia estava comigo. Depois, falei: ih, está ficando sério. Continuei rindo, porque achei que deveria continuar rindo. Sair correndo ou discutir? Não discuti. Quando vi, lá atrás saía o bloco (de espectadores). Na minha opinião, essa situação foi programada.

Tenho dificuldade em concordar com sua tese de premeditação porque o episódio que gerou os protestos foi um improviso, “um caco”.
Foi um “caco” e é verdade que nunca fiz esse “caco” antes. Mas tenho um Facebook bastante ativo como uma pessoa que está defendendo o juiz Sergio Moro. Tenho falado bastante sobre isso. Tenho felicitado o vazamento. Muita gente fala que o vazamento é juridicamente errado, e eu estou sempre no Facebook dizendo: vocês não estão prestando atenção ao conteúdo?
Imaginei, pensando assim, que essas pessoas tivessem visto, porque eles são muito organizados, pelo que estou entendendo. Você consegue levantar um coro, rápido, em uníssono, contra? Tem que estar muito preparado, muito armado. Não saíram de casa... Não sei... Posso estar enganado. Não estou acusando ninguém. O acusado sou eu, né...

Por se tratar de um musical baseado na obra de Chico Buarque, um artista identificado com as posições políticas de esquerda, alguns espectadores interpretam sua atitude como uma deturpação da obra dele. Em relação a isso, qual é sua opinião?
Falei hoje (20/3) cedo com o empresário dele, porque isso chegou lá. Estão reclamando e tudo. Tenho um amor pelo Chico Buarque que, se ele ficou arranhado por causa desse episódio, vou ficar muito triste. É um amor de anos. Essa é a sexta peça que faço do Chico. Ele está para mim acima de qualquer coisa. Não consigo pensar no Chico como um representante de um partido ou de um pensamento. Para mim, ele é o maior artista do país. Quero crer, ingenuamente, que o Chico se solidarizaria comigo. Não fiz nada. Fiz uma piada sobre a presidente Dilma. A peça não é sobre isso. Não usei a canção do Chico ou a obra do Chico para fazer alguma coisa contra o pensamento dele. A peça não é sobre o pensamento dele, não é a vida do Chico, a peça é um show, uma música atrás da outra. Parece-me que a censura voltou.



Quando o Brasil discute a pertinência ou não da divulgação dos grampos...
(Interrompendo) Logo eu, que defendi tanto os grampos...

Teve uma conversa sua particular colocada à disposição de todos na internet. Como se sentiu?
Ali só tem um problema: é a desvirtuação da palavra negro. Não é negro; é “nego”, uma expressão. O que eu queria dizer é: não é qualquer “nego” que vai chegar aí e me tirar do palco. Quer dizer, qualquer pessoa. Eu não iria dizer “qualquer louro”, porque isso não é gíria. Tem uma negra no espetáculo, eu fiz Ópera do malandro, não tem nada em mim parecido com isso. Sou o cara que faz o espetáculo do Milton Nascimento. Só me preocupa isso na gravação. Eu não gostaria de ter sido pego na minha intimidade. Ali eu estava muito irritado, no calor da coisa. O que quero deixar muito claro é que é muito vil impingir em mim qualquer... Não vai colar esse negócio. É nego, não é negro, raça.

Em relação à decisão de cancelar a segunda sessão da peça, que posição o sr. defendeu?
Eu queria fazer, gostaria muito de fazer. Estou muito chateado de não fazer, mas sei que o Sesc tem uma posição superior à minha.

O sr. considera o cancelamento uma rendição?
Eu me considero vencido. Só estou fazendo uma peça. Eles conseguirem me tirar... Sou tinhoso. Queria fazer. É minha peça, vim aqui para fazer e acho que todo mundo que comprou ingresso tinha direito de ver. A peça é linda.

Como o sr. passou a noite, depois do conflito? As imagens voltavam à sua mente?
Tive uma sorte, tinha uma festa programada da minha família, que veio me ver. Fui para a festa, e o assunto era esse, claro. Mas tinha tantas tias, tanta gente querida, que isso me entorpeceu um pouco. Quando cheguei aqui (ao hotel), enchi a cara de remédio, dormi. Hoje acordei com aquela sensação de que parece que foi um sonho. Essa é a pior possível. Você não acredita no que aconteceu. Ainda não acredito que tenha acontecido isso. Foi uma situação de muita violência moral. Fiquei muito assustado com a violência. Não com a violência, porque ela não foi física, embora poderia ter sido. Era o ódio.

Qual é o antídoto para o ódio?
A inteligência. Eu poderia dizer o amor, mas estaria sendo simplista. O antídoto para o ódio é a inteligência. Qualquer pessoa que estivesse ali e fosse inteligente, que fosse petista ou o que fosse, continuaria a ver o espetáculo. A atitude (de interromper o espetáculo) é burra. Tomar aquilo como algo que pudesse ferir brios políticos é burrice. E aí gera o ódio. O ódio é primo da ignorância, das trevas. Isso vem da época em queimavam pessoas. Acho que começou uma caça às bruxas um pouco ao contrário. .