Claudio Botelho e Soraya Ravenle em cena do musical que não chegou a ser apresentada na sessão em BH - Foto: Leo Aversa/Divulgação
Após um comentário aparentemente improvisado em cena pelo ator e diretor Cláudio Botelho, sugerindo a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chamando a presidente Dilma Rousseff de %u201Cladra%u201D, a primeira sessão do espetáculo "Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos" em Belo Horizonte, na noite de sábado (19/3), foi suspensa, aos gritos de %u201CNão vai ter golpe!%u201D, proferidos por uma parcela do público, que assim reagiu ao %u201Ccaco%u201D do ator.
Chamada pela produção do espetáculo, sob a justificativa de que o protagonista do musical se sentia %u201Ccoagido em seu camarim%u201D e temia ser %u201Cagredido fisicamente%u201D caso tentasse deixá-lo, a PolÃcia Militar deslocou ao menos três viaturas para a portaria do Sesc Palladium, na região central, por volta das 22h30.
Em "Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos", Botelho interpreta o lÃder de uma companhia teatral em giro por pequenas cidades do interior do paÃs. Como narrador da história, ele faz curtos monólogos, intercalados à s cenas propriamente musicais.
Aproximadamente na metade do espetáculo, o ator se refere à chegada da trupe a uma cidade muito pequena e num momento muito inoportuno para atrair a atenção do público ao teatro. %u201CEra a noite do último capÃtulo da novela das oito%u201D, disse. E acrescentou: %u201CEra também a noite em que um ex-presidente ladrão foi preso%u201D. Citou ainda %u201Cuma presidente ladra%u201D, cujo destino (se o impedimento ou os tribunais) esta repórter não foi capaz de registrar.
A esta altura, parte da plateia começou a vaiar e outra parcela, a aplaudir. As vaias se intensificaram. Botelho demonstrou surpresa: %u201CBelo Horizonte?! Minha cidade?!%u201D. Ele tentou retomar o curso da cena, afirmando que o público vaiava uma ficção. Mas, do palco, avistou o inÃcio de uma debandada de espectadores, aos quais se dirigiu com uma sugestão: %u201CVai embora? Vai mesmo! E passa na bilheteria para pegar o seu dinheiro de volta. Isso para mim é um orgulho. Isso para mim não tem preço%u201D. Aos demais, anunciou: %u201CVou esperar o êxodo terminar para continuar o espetáculo%u201D.
Alguns dos que neste momento se levantavam para dar as costas ao musical voltaram-se ainda uma vez para Botelho, chamando-o de %u201Ctrouxa%u201D e %u201Cbabaca%u201D. Numa dramaturgia espontânea, a caminho da saÃda do teatro, o êxodo se interrompeu. Um grupo de espectadores preferiu se unir e permanecer na lateral da sala. Todos de pé, junto à s portas de saÃda, gritavam (ritmadamente) %u201CNão vai ter golpe!, %u201CNão vai ter golpe!%u201D.
Os gritos se alongavam, intercalando-se com os de %u201CChico! Chico!.
Botelho tentou seguir com a cena. Houve intensas vaias. %u201CIsso é tÃpico de vocês! Vocês querem parar o espetáculo!%u201D, dizia ele, do palco.
Já bastante tenso, o ator e diretor declarou a sessão encerrada. A atriz e coprotagonista do musical Soraya Ravenle discordou da decisão. Com gestos inquietos, insistiu para que a técnica ligasse seu microfone e propôs a todos a volta %u201Cà música de Chico Buarque de Hollanda%u201D. %u201CChega de guerra!%u201D, pediu.
Soraya cantava. Os espectadores indignados com o comentário de Botelho vaiavam. Os demais aplaudiram ao final e se voltaram para o grupo que protestava com outras palavras de ordem: %u201CVai embora! Vai embora!%u201D.
Botelho retornou ao palco para um dueto, de "Biscate".
As vaias não cediam. O elenco todo dava sinais de nervosismo e tensão, com atores conversando entre si e gesticulando intensamente no palco. Botelho declarou a sessão suspensa e esbravejou na ponta do palco, com o braço estendido na direção da plateia, enquanto um membro do staff tentava contê-lo: %u201CVocês são como a ditadura! Vocês pararam o espetáculo! Vocês pararam Roda viva!%u201D
Com um aviso sonoro, a produção se desculpou e pediu aos espectadores que se dirigissem à bilheteria para os procedimentos de devolução dos valores pagos pelos ingressos (entre R$ 25 e R$ 100).
Fechada a cortina, o público começou a deixar o teatro, com opiniões dÃspares. %u201CNão fui a nenhuma manifestação. Não fui à do dia 13 (pró-impeachment) e não iria à do dia 18 (pró-Dilma), porque acho o governo do PT indefensável%u201D, disse o estudante de Direito da UFMG Bruno Bicalho, de 18 anos.
%u201CIsso que aconteceu aqui, para mim, é sinal de intolerância e dessa falsa divisão que se criou na eleição de 2014, porque, no fundo, estavam todos defendendo a mesma coisa%u201D, afirmou. Ao lado de Bruno, a também estudante Julia Brant disse: %u201CEstou atônita. Não sei quem vai ganhar no final, mas acho que estamos todos perdendo%u201D.
O professor de geografia Silvânio Fortini estava entre os que reagiram ao improviso de Botelho. %u201CO que me indignou foi ele se apropriar da obra de Chico Buarque, um cara que hoje vive sendo achincalhado por suas posições polÃticas, para defender o contrário do que ele propõe. Acho que ele não sabe com que obra está lidando. Isso me indignou, além de ele ter agredido a plateia.%u201D
Fortini achou inadequado também que o ator incluÃsse no espetáculo a questão que hoje é motivo de atrito e discussões exaltadas em outros ambientes. %u201CEu não estou aqui para discutir a questão polÃtica. Eu vim ver um espetáculo.%u201D
A professora de português Salete Gualtieri achou o episódio %u201Ctriste, muito triste%u201D e julgou %u201Cum absurdo%u201D a interrupção do musical. %u201CParar o show por causa disso? Eles que saÃssem! Mas esses petistas parecem doentes.%u201D
O Sargento Filho estava no velório de um policial quando ouviu o chamado do Sesc Palladium, %u201Conde um ator fez uma piada de mau gosto, e a plateia levou a mal%u201D, pelo que ele ficou sabendo. Segundo o chamado, o ator se sentia ameaçado de apanhar de um público numeroso. O policial diz que acelerou o motor da viatura, porque havia outras demandas mais urgentes na frente desta, que, no entanto, ele não queria deixar desatendida.
%u201CNosso papel é defender as minorias. E se tem uma maioria querendo bater num ator, a gente vem%u201D, disse, antes de comentar, mineiramente, sobre a origem da confusão. %u201CPiada é aquela coisa... Da gente mesmo (a polÃcia) falam tanta coisa, né?%u201D
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