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História

Exposição sobre a Guerra da Tríplice Aliança lança luzes sobre o conflito ocorrido no Cone Sul

'150 anos da Guerra da Tríplice Aliança: Distintas visões' está em cartaz no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto

Walter Sebastião

La paraguaya, tela de Juan Manoel Blanes, de 1879, foi emprestada pelo Museo Nacional de Artes Visuales, Uruguai - Foto: Eduardo Baldizan/divulgação

Fotos, pinturas, objetos, réplicas de acampamentos militares, ilustrações de jornais, arquivo digital, cronologia e outros documentos foram selecionados para apresentar o mais famoso e controvertido dos conflitos bélicos nacionais: a Guerra da Tríplice Aliança, conhecida no Brasil como Guerra do Paraguai. O conflito, ocorrido entre 1864 e 1870, opôs em armas o Paraguai ao Brasil, Argentina e Uruguai. O evento deixou saldo dramático, como a morte de cerca de 90% da população masculina paraguaia, o que levou as mulheres a serem protagonistas da reconstrução (política, social e econômica) do país. Um bom panorama sobre a guerra, construído com peças de acervos de várias instituições, está sendo apresentado até 28 de fevereiro, no anexo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, sob o título 150 anos da Guerra da Tríplice Aliança: Distintas visões.

Foto de maio de 1865, com vista da Praça Tiradentes, mostrando a saída da 1ª Brigada Mineira de Ouro Preto rumo à região do conflito, recorda a participação de Minas Gerais na guerra. Engenheiros, formados na Escola de Minas, também foram convocados para realizar obras necessárias às operações militares. “Criamos exposição que ajuda a compreender melhor a guerra, os fatos e as consequências. Sem julgar o papel dos envolvidos. O que acaba trazendo revelações que não se estudam na escola”, observa Margareth Monteiro, uma das curadoras da mostra.
Está na exposição, observa, fotos da agência uruguaia Bate&Cia, que registrou o conflito, fazendo-o um dos mais fotografados para sua época.

Outras peças, continua Margareth Monteiro, revelam o impacto dos acontecimentos sobre toda a sociedade. Exemplo, aponta, pode ser carta de mulheres paraguaias doando joias para financiar a guerra ou retratos de intelectuais fardados, como o engenheiro Alfredo d’Escragnolle Taunay (Visconde de Taunay). O episódio, conta a curadora, deixou sequelas até hoje. “Se no Brasil a Guerra da Tríplice Aliança foi esquecida, no Paraguai, que mais experimentou a dor da guerra, os acontecimentos são parte do cotidiano e são recordados como se tivessem ocorrido ontem”, observa, após ter realizado viagens ao país vizinho para pesquisa. A mostra é resultado de acordo de cooperação com o Centro Cultural El Cabildo, do Paraguai.

A exposição integra programação do Museu da Inconfidência, que vem sendo desenvolvida há cerca de três anos, enfatizando aspectos temáticos, sejam históricos ou ligados ao cotidiano, apresentada a partir de acervos históricos. Nessa linha curatorial, a instituição já realizou mostras de relógios, leques, prataria, fotos antigas etc. Entre as propostas  com o mesmo perfil, previstas para 2016, conta Margareth Monteiro, está exposição relacionando a água e o ouro, mas chamando para a importância da água, elemento que cruza todas as fases de busca do metal, associado à programação socioambiental. Entre os itens que serão apresentados estão pepitas de ouro preto, com o metal escurecido pela presença de paladium, bauxita e ferro no solo de onde foi extraído.

Rui Mourão, diretor do museu, explica que esse caminho nasceu, primeiramente,  do desejo de qualificação artística e cultural das mostras do Museu da Inconfidência, sem abandonar consideração com as mostras de arte. “É contribuição no sentido de conscientizar o brasileiro sobre a conservação e a valorização dos nossos patrimônios. E que mostra a importância dos museus dedicados à história, que são muitos no Brasil”, detalha. Para Margareth Monteiro, chefe da Divisão Técnica e coordenadora do Anexo 1, trata-se de compreensão e entendimento mais ativo e em diálogo com a comunidade e o visitante do que pode ser um programa de mostras museológicas. Para ela, a mostra tem impacto sobre o público: escolas e universidade vêm inserindo as exposições no seu calendário de atividades.

SAIBA MAIS

Uma disputa comercial


A Guerra da Tríplice Aliança durou de dezembro de 1864 a março de 1870. Foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul.
De um lado, o Paraguai. De outro, Brasil, Argentina e Uruguai. Os interesses comerciais opuseram o país governado por Solano López, que controlava as terras na bacia do Rio Prata e, portanto, a saída fluvial ao Oceano Atlântico. O estopim para os combates foi a apreensão de um vapor brasileiro, em novembro de 1864. A intervenção armada brasileira ocorreu em território uruguaio, que coincidiu com o fim da guerra civil daquele país. Em dezembro de 1864, o Exército paraguaio invadiu a província de Mato Grosso e, no começo de 1865, Corrientes (Argentina) e o Rio Grande do Sul. Em 1º de maio de 1865, Brasil, Argentina e Uruguai selam um acordo para enfrentar o Paraguai. Foram várias batalhas, sendo a mais destacada a do Riachuelo, na qual o Brasil impôs a primeira grande derrota ao inimigo. A guerra terminou em 1870 ,com a morte de Francisco Solano López, em Cerro Corá. Estima-se que 50 mil dos 150 mil soldados brasileiros envolvidos nas batalhas morreram.
Assim como as interpretações da guerra, também são controvertidos as estatísticas sobre o número de mortos. Há quem estime que, somando civis e militares, só no Paraguai morreram 300 mil pessoas.

EXPOSIÇÃO

150 anos da Guerra da Tríplice Aliança: Distintas visões, curadoria de Margareth Monteiro, Janine Ojeda, Aldo Araújo e Eva Pereyra. Fotos, objetos, pinturas, documentos etc. Sala Manoel da Costa Athaide, Anexo 1 do Museu da Inconfidência. Rua Vereador Antônio Pereira, 33, Centro Histórico de Ouro Preto (MG). De terça a domingo, das 10h às 18h. Até 28 de fevereiro. Entrada franca.

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