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Orçado em R$ 25 milhões, Museu de Congonhas é inaugurado

Espaço visa incrementar a apreciação das esculturas de Aleijadinho

Ana Clara Brant
Exposição permanente do museu, com curadoria de Leticia Julião e Rene Lommez - Foto: Leo Lara/Divulgação
O badalo de um sino aponta que ali é um lugar de fé. O som remete o visitante a uma viagem de mais de 200 anos por uma história de devoção. O Museu de Congonhas, que será inaugurado hoje, tem o objetivo de potencializar a percepção e a interpretação das múltiplas dimensões do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, sítio histórico que detém o título de Patrimônio Cultural Mundial desde 1985.

A abertura integra as comemorações dos 30 anos do título e dos 70 anos de existência da Unesco. “A maior obra de arte do museu está do lado de fora – o Santuário do Bom Jesus. A função do museu é ressignificar e potencializar o sítio histórico no qual está inserido e ajudar a qualificar essa visitação ao santuário, que sempre foi tão precária”, afirma Sérgio Rodrigo Reis, presidente da Fundação Municipal de Cultura, Lazer e Turismo de Congonhas (Fumcult), gestora do museu em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Os recursos do orçamento – de R$ 25 milhões – vieram da Prefeitura de Congonhas, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do  Iphan e de empresas privadas. Para a solenidade de inauguração, estão previstas as presenças da presidente Dilma Rousseff e do governador de Minas, Fernando Pimentel.

A referência a Aleijadinho está patente até no logotipo do museu. O designer espanhol Luis Sardá, envolvido no projeto, se deparou com uma fatura de pagamento assinada por Aleijadinho. Impressionado com a caligrafia do artista, decidiu reproduzi-la na marca da instituição.
“Tinha pensado em fazer algo mais moderno, mas, quando vi aquele pequeno texto, me deu aquele insight e criei a identidade visual do Museu de Congonhas inspirada em sua caligrafia”, afirma.

Voltado para romeiros, turistas, estudantes e os congonhenses, o museu conta a história da criação do Santuário do Bom Jesus, que durou de 1757 a 1872, e da origem da devoção ao santo, apresenta os diversos ofícios da fé e informa sobre outros artistas que trabalharam ao lado de Aleijadinho.

Um dos destaques é a coleção de ex-votos (presente dado pelo fiel ao seu santo de devoção em consagração, renovação ou agradecimento de uma promessa) e santos de casa. Ao todo, são 342 objetos, sendo 72 tábuas votivas ou pintadas, 36 votos esculturais, 26 medalhas, nove oratórios e 199 santos de casa, que faziam parte da coleção de Márcia de Moura Castro (1918-2012) e foram adquiridas pelo Iphan para integrar o acervo do museu. Um quadro que retrata Aleijadinho e que estava na sede do Museu Mineiro, em BH, agora faz parte do acervo.

Retrato de Aleijadinho foi transferido do Museu Mineiro para o de Congonhas - Foto: Leo Lara/DivulgaçãoPROFETAS O desgaste dos 12 profetas causado pelos efeitos da mineração, pela ação de fungos e bactérias e por atos de vandalismo já suscitou discussões sobre se devem ou não ser removidos. Patrícia Reis Braz, coordenadora de Cultura da Unesco no Brasil, afirma que nunca se chegou a um consenso com relação a isso, mas que há preocupação constante e ações de conservação preventiva.

Ela afirma que a Basílica do Bom Jesus, com o apoio da Arquidiocese de Mariana, mantém vigilância das obras de Aleijadinho 24 horas por dia. Patrícia acrescenta que a intenção do museu é contribuir para fortalecer os estudos sobre a conservação de monumentos em pedra.

A coordenadora frisa que, além de atuar na recuperação dos moldes criados na década de 1960, que possibilitaram a criação de réplicas como as que estão na Faculdade de Arquitetura da UFMG e na sede do jornal Estado de Minas, foram realizados novos estudos relativos à produção de cópias digitais das esculturas e ao incremento da técnica de produção de cópias físicas.

“A instituição pretende, ao longo de sua existência, consolidar e difundir esses conhecimentos, além de se utilizar dos moldes para ações de monitoramento. As cópias são uma medida de segurança essencial para se reproduzirem as peças em caso de danos irreversíveis aos originais. Infelizmente, os moldes antigos não têm mais condições de reprodução. Para dois profetas, foram produzidos novos moldes em forma flexível de silicone, possibilitando a produção de cópias em gesso. A produção das demais réplicas deve faze parte do escopo de atuação do próprio museu”, diz. A digitalização em 3D dos 12 profetas possibilita sua visualização no museu ou via internet.

Construído ao lado do santuário, o projeto do arquiteto Gustavo Penna contempla, em quatro pavimentos, sala de exposições, reserva técnica, biblioteca (que deve abrigar a Coleção Fábio França, com obras sobre o barroco), auditório, ateliê, espaço educativo, cafeteria e anfiteatro ao ar livre.

Penna diz que se emocionou quando soube que foi o vencedor do concurso nacional para o projeto do Museu de Congonhas e acredita que o novo espaço preencha uma lacuna histórica. “Congonhas tem a missão de preservar esse patrimônio da humanidade, mesmo com as dificuldades. Num momento trágico como este de Mariana, nada mais importante para a autoestima do mineiro do que valorizar sua história, seu patrimônio”, pontua.
 
De olho no turismo
 
Além da inauguração do museu, Congonhas tem outros projetos relacionados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas em andamento ou concluídos. Entre eles, estão a recuperação da alameda que leva até o santuário, a construção de um parque ecológico, a revitalização da basílica e de outras igrejas e a restauração de todo o complexo da romaria e dos demais museus congonhenses.

A expectativa é que, até 2017, grande parte dessas propostas esteja concluída.
“Congonhas sempre foi uma cidade de passagem. As pessoas vão para Ouro Preto, Mariana, São João del-Rei e, geralmente, vêm aqui rapidinho dar uma olhada nessa que é a maior obra ao ar livre do barroco. Com todas essas novas obras, vamos passar a ter mais permanência e visibilidade por parte dos turistas”, diz o prefeito José de Freitas Cordeiro, o Zelinho.
 
Palavra de pedra

A Bíblia de pedra-sabão banhada de ouro das minas, como definiu o poeta e escritor Oswald de Andrade, é resultado do pagamento de uma promessa feita pelo português Feliciano Mendes, que veio para a região de Congonhas e ocupou- se da mineração e foi acometido de grave doença. Ao se restabelecer, dedicou-se ao pagamento da promessa com a construção de uma igreja consagrada ao Bom Jesus de Matosinhos. Em 1757, obteve as autorizações eclesiásticas e régia para construir um templo dedicado ao culto do Bom Jesus de Matosinhos, com recursos provenientes de esmolas.
 
MUSEU DE CONGONHAS
Alameda Cidade de Matosinhos de Portugal, s/n, Congonhas. De terça a domingo, das 9h às 17h; quartas, das 13h às 21h. Ingressos: R$ 10. Haverá visitas mediadas oferecidas a grupos espontâneos. Informações: (31) 3731-3056.
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