Artes visuais

Do WhatsApp ao Facebook: na era das redes sociais, você (também) é a obra de arte

Artistas pernambucanos já se aventuraram a realizar obras colaborativas que usavam o Instagram, Whatsapp, Facebook e Twitter

Isabelle Barros

O projeto FIGmatik foi idealizado pelo fotógrafo Iezu Kaeru e realizado no Festival de Inverno de Garanhuns - Foto: Iezu Kaeru/Divulgação

As redes sociais tornaram a nossa relação com fotos, vídeos, áudios e textos ainda mais integrada ao cotidiano. A mudança comportamental que se seguiu a uma conexão cada vez mais virtual e instantânea também teve seu reflexo na arte. Em um tempo no qual o espaço e o tempo estão cada vez mais comprimidos pela internet, atividades artísticas também passaram a ser feitas em rede, colocando em xeque conceitos como a autoria de um trabalho. Aplicativos como o Whatsapp, o Instagram e redes sociais como o Facebook e o Twitter se tornaram não apenas formas de divulgar o trabalho de vários artistas, mas uma parte integrante do processo de criação, ao trazerem o contato com a arte e com processos colaborativos para uma gama ainda maior de pessoas, que, em grande parte das vezes não se consideram “artistas”.

O #FIGmatik, ação idealizada pelo fotógrafo e educador do Oi Kabum! Iezu Kaeru, é um exemplo de como o compartilhamento de imagens pode ser uma estratégia para tornar as pessoas mais próximas de linguagens artísticas ligadas ao visual. Durante o Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), em Pernambuco, deste ano, Kaeru convocou quem estava na cidade para tirar fotos e postar retratos e autorretratos com a hashtag no Instagram e no Facebook. “Curto muito trabalhos coletivos, nos quais o ego se dissolve. As pessoas se reconhecem nas fotos e isso mexe com a autoestima. Todo mundo se sente produtivo.
Hoje em dia, as pessoas querem participar e estão muito cansadas de apenas contemplar as obras nas galerias”.


O artista visual Iezu Kaeru aposta em trabalhos cujo mote seja o compartilhamento coletivo de informações - Foto: Bernardo Dantas/D.P/D.A PressA interação entre plataformas físicas e digitais também é outra característica do projeto. No último dia do projeto, foram impressos 500 exemplares de um catálogo que reuniu as imagens e um dos equipamentos culturais disponíveis no FIG, a Casa Galeria Galpão, também recebeu cartazes no formato lambe-lambe com as imagens. “Isso se tornou um projeto maior do que o FIG, pois o número de seguidores nas redes sociais continuou aumentando mesmo após o fim do evento. Cada vez mais, procuro incorporar a noção de coautoria na minha obra”, arremata.

O designer, artista visual e músico h.d.Mabuse esteve entre os pioneiros no uso da arte e tecnologia no Recife. Foi um dos pioneiros do coletivo re.combo que, na virada dos anos 90 para os anos 2000, usou especialmente a música e o visual para explorar um formato colaborativo de criação, onde a autoria ficava em segundo plano com relação à obra.

Hoje ligado ao Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R), Mabuse realizou, no início de 2015, a exposição Marginais Herois, em parceria com o designer carioca Rico Lins. A mostra ocupou a galeria de arte Amparo 60 e, assim como o #FIGmatik, tinha entre suas características a habilidade em misturar referências digitais e analógicas. A exposição tinha a criação de cartazes como um dos motes e contava com o trabalho de Rico Lins e do xilogravurista pernambucano J. Borges. Para essa iniciativa, Mabuse ajudou a desenvolver um aplicativo com o mesmo nome da mostra. O público poderia enviar fotografias pelo Instagram e usar a hashtag #marginaisherois. O material enviado fez parte de uma instalação com projeções.

Mabuse é um dos pioneiros no Recife no trabalho com arte e tecnologia e foi um dos participantes da exposição Marginais Herois - Foto: Alcione Ferreira/D.P./D.A.PressPara Mabuse, a adoção de tecnologias na arte, processo radicalizado com as redes sociais, é um processo antigo e que passa por uma evolução segundo os recursos disponíveis. “A produção de ciência e arte sempre esteve associada, apesar das tentativas Cartesianas de separação terem contado uma história diferente.

Se hoje temos redes sociais, arte locativa e smartphones, desde a década de 1960 temos o coreano Nam Jun Paik fazendo arte com vídeo e TVs, ou nos anos 1980 o pernambucano Paulo Bruscky com xerox e fax”.

O artista também levanta outra questão relacionada ao uso massivo das redes: o engajamento do público e a relevância para ele. “O engajamento tem tanta relação com a poética e dinâmica da obra quanto com as características do meio (que é a mensagem). Sendo assim, ele tem tanto a chance de ser potencializado pelo acesso massivo, quanto se perder na cacofonia das redes mediadas por algorítimos comerciais”.

O projeto 'Os sonhadores' foi pensado para o Festival de Inverno de Garanhuns deste ano - Foto: Rodrigo Ramos/Secult PEPara Daaniel Araújo, as redes sociais e aplicativos se transformaram em elementos úteis para o trabalho a partir da ideia de se ter um contato direto com o público. Em 2012, o artista visual publicou reproduções de seus trabalhos no Facebook e, depois, criou uma conta no Instagram para o mesmo fim. Em 2014, ele criou a instalação Os sonhadores para o Festival de Inverno de Garanhuns deste ano. Ele espalhou cartazes por Garanhuns para convocar as pessoas a compartilharem seus sonhos anonimamente por áudio de Whatsapp. Os relatos foram ouvidos em uma instalação na Casa Galeria Galpão.

O artista Daaniel Araújo criou a instalação 'Os sonhadores', na qual pessoas anônimas davam seus depoimentos sobre sonhos via Whatsapp - Foto: A Casa do Cachorro Preto/DivulgaçãoSegundo Daaniel, as redes sociais cumprem uma função de relacionamento e de exposição. “Ela traz a público várias coisas que as pessoas não tem coragem de conversar entre si.
Passei a enxergá-la como se fosse arte urbana, que está na rua e as pessoas se relacionam com ela. O smartphone e a rede social funcionam como uma segunda realidade. Se uma pessoa escolhe não usar isso, ela perde a possibilidade de usar uma plataforma de comunicação. Na minha fanpage, por exemplo, tenho mais de 3 mil seguidores e muitas vezes são pessoas que normalmente não iriam a uma galeria ver uma exposição. É uma quebra de como se recebe arte”.

REDES SOCIAIS EM OUTRAS LINGUAGENS ARTÍSTICAS

AUDIOVISUAL
Recentemente, há filmes que se apropriaram das redes sociais para mover a história, como o curta carioca O lugar mais frio do Rio, de Madiano Marcheti, o curta-metragem canadense Noah, de Walter Woodman e Patrick Cederberg, um drama de 17 minutos que se passa inteiramente dentro de um computador e o longa de terror norte-americano Unfriended, de Levan Gabriadze, que estreia no Recife na próxima quinta-feira.

LITERATURA
Vários escritores exploraram as possibilidades de escreverem microcontos no Twitter e já há livros feitos para serem vistos pelo Instagram, e o interesse do público por uma literatura compartilhada e interativa entre escritor e leitor se estenderam até a criação da rede social Wattpad. A professora e escritora pernambucana Mila Wander é um dos perfis mais bem sucedidos na rede, na qual os escritores podem publicar textos e os leitores podem comentar e até sugerir mudanças na trama. As histórias são publicadas em capítulos e entram no ar à medida que são escritas.

ARTES CÊNICAS
O Grupo Magiluth, do Recife, usou redes sociais para potencializar uma série de intervenções urbanas realizadas no Recife entre os meses de novembro e dezembro de 2013. Elas eram anunciadas pelo Facebook, registradas pelo Instagram e algumas delas pediram a mobilização de várias pessoas para procurar informações em mídias sociais.

MÚSICA
Os pesquisadores pernambucanos Jeraman e Filipe Calegario idealizaram um software baseado no Twitter, ainda em 2009, chamado Marvin Gainsbug. Ele foi programado para compor e executar canções em tempo real com letra e música. Os tuítes se transformaram em versos e a melodia, ritmo e harmonia são afetados pelas palavras que os compõem. O projeto circulou por vários festivais de arte e tecnologia do país e foi visto no Continuum - festival de arte e tecnologia de 2010.

CONCEITOS ÚTEIS PARA ENTENDER A ARTE NAS REDES SOCIAIS

ESTÉTICA RELACIONAL
Campo teórico desbravado nos anos 90 pelo crítico de arte e curador francês Nicolas Bourriaud, a estética relacional fala sobre obras de arte e artistas que tomam as relações humanas como ponto fundamental de partida. A arte contemporânea seria, então deslocada da mera contemplação para incluir o encontro e a participação em suas obras. As ideias individuais dos artistas são apenas o estopim para a construção de significados coletivos. Embora tenha surgido em um período no qual ainda não havia redes sociais, os pilares da estética relacional antecipam as discussões que acontecem hoje.

CROWDSOURCING
O termo, cunhado a partir da junção das palavras em inglês crowd (multidão) e outsourcing (terceirização) passou a fazer parte de várias áreas de atuação, inclusive nas artes, onde é chamado de crowdart. A colaboração de uma grande quantidade de pessoas para realizar determinada tarefa - algo que foi ainda mais popularizado com o uso da internet - é o coração do significado da palavra. Neste caso, o artista se torna uma pessoa que media a conexão entre as diferentes pessoas que compõem o trabalho.

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