Exposição em Ouro Preto revela os primórdios da fotografia de trabalhadores em Minas

Mostra reúne imagens feitas por Assis Horta para documentos e retratos de famílias

por Walter Sebastião 01/05/2013 09:16

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Alexandre Guzanshe/EM
(foto: Alexandre Guzanshe/EM)
Devido à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que começou a vigorar em 1º de maio de 1943, milhares de trabalhadores brasileiros se sentaram diante de uma câmara fotográfica – provavelmente pela primeira vez. Aquelas fotos tinham um objetivo: identificá-los na carteira de trabalho e junto à Previdência Social. Mas os famosos 3 x 4 permitiram à classe operária acesso a algo até então identificado apenas com autoridades, celebridades e abastados: o retrato. Foi assim que a fotografia começou a se popularizar no Brasil.


Apresentada pelo pesquisador Guilherme Horta, essa tese fundamenta a exposição 'Assis Horta: a democratização do retrato fotográfico', que entra em cartaz hoje no Centro Cultural e Turístico do Sistema Fiemg, em Ouro Preto. O projeto sobre o trabalho do diamantinense rendeu a Guilherme o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia 2012, concedido pela Funarte, na categoria reflexão crítica.


A exposição se divide em três blocos. Um deles traz fotos 3 x 4 ampliadas, feitas para carteiras de trabalho na década de 1940. O outro investiga o retrato fotográfico como gênero. O terceiro reúne imagens de famílias ou grupos de operários. Guilherme Horta explica que o conjunto documenta o contato desse segmento da população com a fotografia sob o prisma da representação digna. Isso fez com que o trabalhador passasse também a consumir o produto.
A partir dali, o brasileiro humilde adotou o hábito de frequentar estúdios. Levava esposa, filhos e amigos para se colocarem diante da câmara “com olhar de poder”, observa Guilherme Horta. As poses se inspiram em fotos de diretores de empresas, monarcas e autoridades.


A exposição é um recorte sociológico de acervo muito maior, movida pela paixão de Guilherme pelo retrato. O pesquisador lembra que o material exposto difere das atuais fotos 3 x 4, massificadas e impessoais. Ele reuniu imagens feitas por profissionais qualificados, revelando traços da estética de retratos franceses, sejam eles de identificação (jurídica, antropométrica ou étnica) ou de celebridades.


O autor das imagens expostas em Ouro Preto é um grande fotógrafo, ressalta o curador. Inclusive, Assis Horta terá seu estúdio remontado no centro cultural ouro-pretano. “Ele é um exímio retratista. Percebem-se nessas fotos aspectos artísticos como poses mais soltas, luz elaborada e a busca da essência humana”, aponta Guilherme.
O projeto surgiu a partir de convite do fotógrafo Eustáquio Neves e de Liliam Oliveira, diretora do Museu do Diamante, para que o especialista organizasse o acervo de Assis Horta. “Cerca de 500 imagens já foram escaneadas, mas a pesquisa precisa continuar”, defende.


Disposição para enfrentar obstáculos não faltava aos fotógrafos antigos, sobretudo das cidades do interior. Eles eram obrigados a importar material de trabalho, especialmente negativos (como chapas de vidro emulsionadas), além de papéis fotográficos e equipamentos. “Isso não foi nada simples na época da guerra”, lembra Guilherme Horta.
Outro atributo exigido do profissional: o conhecimento de estética, do manuseio de materiais e sobre processamentos químicos. Vários daqueles homens eram autodidatas. Adquiriram know how por meio de manuais técnicos escritos em outras línguas ou com colegas.


Diamantina Assis Horta é um personagem ilustre, prova de que Diamantina tem papel fundamental na fotografia feita em Minas Gerais. Dono de extensa obra, ele permanece pouco conhecido em seu estado. O diamantinense de 95 anos mora em Belo Horizonte desde 1967. Casado com Maria da Conceição Monteiro Horta, tem 10 filhos. Estudou até o 3º ano primário. Menino, engraxava sapatos de hóspedes do hotel da mãe e trabalhava como contínuo em repartição pública. “Gostava de ter dinheiro para comprar picolés. Quando eles surgiram, eu achava aquilo uma delícia”, relembra.


Assis Horta aprendeu a fotografar com Celso Werneck de Castro, do estúdio Foto Werneck. Ele e Chichico Alkmim, cunhado de Horta, ficaram famosos como os dois fotógrafos de Diamantina. “Certo dia, Celso me chamou para fazer uma foto dele. Ensinou-me a usar o aparelho, fiz a fotografia. Só que ela saiu com defeito. Ele riu e se divertiu, mas a mandou para os amigos. Foi por causa dele que vi a máquina fotográfica pela primeira vez”, recorda o veterano, que se tornou auxiliar de Werneck. Nos anos 1930, comprou loja do patrão. Assim surgiu a Foto Assis, que funcionou em Diamantina até 1967.


“Fazer fotografia dava muito dinheiro”, relembra Assis Horta. O estúdio dele ficava no Centro de Diamantina numa época em que a próspera cidade era referência para toda a região. Fotografou pessoas que o conheceram menino, quando era o Assisinho. O convite para registrar operários de acordo com as regras da CLT veio do cunhado Pedro Duarte, dono da fábrica de tecidos de Biribiri, distrito de Diamantina. A missão foi cumprida em apenas um dia: 400 trabalhadores, com um único clique per capita para economizar material.

 Assis Horta / Divulgação
(foto: Assis Horta / Divulgação)
Capricho
A elegância dos modelos nas fotos de Assis Horta tem motivo. Os trabalhadores caprichavam ao posar pela primeira vez. “Eles faziam a barba e penteavam o cabelo, as mulheres se maquiavam”, conta o veterano. A maioria se vestia com apuro para ficar bem na foto. Amante declarado da beleza, o retratista emprestava chapéus, paletós e gravatas a seus clientes, além de incentivar poses. “Uma boa roupa transforma a pessoa, melhora inclusive o rosto”, garante ele, mostrando a foto em que o cidadão, com sorriso discreto, saboreia o momento em que faz pose grã-fino. Ver-se pela primeira vez numa foto gerava surpresa. “Eles diziam: ‘Sou eu mesmo. Fiquei lindo!”, conta Assis.


A convite do pesquisador Rodrigo Melo Franco de Andrade, criador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Assis Horta fez uma série de fotos da paisagem histórica de Diamantina. Essas imagens contribuíram para o tombamento da cidade.


Isnard Horta, que está identificando o acervo do pai, já classificou cerca de 5 mil fotografias. A maior parte reúne retratos e registra aspectos da arquitetura, mas o extenso conjunto abarca vários temas – de prostitutas do Beco do Mota a festas cívicas, passando por tipos populares diamantinenses.

 

 

Palavra de especialista

 

Eugênio Sávio
presidente da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil

 

Memória do Brasil

 

“É importante conservar, pesquisar e apresentar acervos de fotógrafos mineiros. Trata-se de um trabalho de construção da memória do Brasil e de cidadania. Ainda não conhecemos a nossa história fotográfica. Há pouca pesquisa, poucas publicações. Faltam projetos de incentivo a trabalhos nessa área. Assis Horta teve o cuidado de organizar e guardar seu material. Outras vezes, o acervo fica nas mãos de famílias que não têm interesse por ele. É assim que material relevante acaba indo para o lixo”. 

 

ASSIS HORTA: A DEMOCRATIZAÇÃO DO RETRATO FOTOGRÁFICO
Fotografia. Curadoria e pesquisa: Guilherme Horta. Abre nesta quarta-feira, às 10h. Centro Cultural e Turístico do Sistema Fiemg, Praça Tiradentes, 4, Ouro Preto, (31) 3551-3637. Diariamente, das 9h às 19h. Até 2 de junho.

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