Cia. Luna Lunera superou problemas com iluminação para mostrar o vigor no Festival de Teatro de Curitiba

A realização das mostras regionais foi um dos destaques

por Carolina Braga 08/04/2013 08:45

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Emir Hoshi/Divulgação
O teatro mineiro foi bem representado no festival paranaense pela Cia. Luna Lunera, que deve estrear sua nova montagem em Belo Horizonte somente no segundo semestre (foto: Emir Hoshi/Divulgação)
Curitiba – Era para ser uma estreia comum. Cenário no lugar, figurino nos conformes, adereços de cena, mas eis que detalhes técnicos na luz deram um susto nos atores da Cia. Luna Lunera logo na primeira apresentação de seu novo espetáculo, 'Prazer', no Festival de Teatro de Curitiba. Por problemas no equipamento do Teatro Bom Jesus na noite de sábado, eles até cogitaram atrasar em meia hora o início da peça. Porém, o que mostrariam ali naquele momento era fruto de uma longa temporada de ensinamentos. Entre eles, um essencial de Clarice Lispector: “Que se deve viver apesar de”.

Se é o apesar de que nos empurra para a frente, foi assim, mesmo com a iluminação prejudicada, que Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves em cena e Zé Walter Albinati nos bastidores demonstraram o quão longe conseguem chegar e o quão profundo o teatro deles pode ser. 'Prazer' fala sobre uma das relações mais nobres que o ser humano pode ter na vida: a amizade. É muito verdadeiro no que se propõe.

Muito natural Fragmentos da obra de Clarice servem de provocações para os quatro amigos, que vivem no exterior e ali lidam como podem com as angústias inerentes da vida adulta. O cenário, assinado por Ed Andrade, reproduz a casa de um deles, mas as palavras da escritora dão outro sentido à parede. Ali, naquele espaço, a Luna Lunera passeia pelo teatro naturalista na mesma medida em que se permite romper, brincar com o que há de cotidiano na proposta e, no fim das contas, experimentar.

Assim como em 'Aqueles dois' (2007) – a montagem mais incensada do grupo –, 'Prazer' é fruto de um processo de direção compartilhada. O que houve de diferente na nova experiência é que os atores e diretores contaram com parceiros como Mário Nascimento na preparação corporal, Jô Bilac na dramaturgia e Éder Santos nas projeções de vídeo, além de uma residência artística com Roberta Carreri, do Odin Teatret.

Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves esbanjam sintonia em cena. Em poucos minutos cativam o espectador a compartilhar daquele momento e, inclusive, a se identificar ali. Texto não é só o que está dito, mas também escrito, projetado, vivenciado. 'Prazer' é contemporâneo ao falar das relações, mas principalmente em como nos relacionamos hoje em dia. Quantas vezes uma conversa por e-mail substituiu um encontro? No mundo virtualizado, afinal de contas, o que é intimidade? Quantas amizades suportam o tempo e a distância? Quantas vezes precisamos de um amigo, seja para dançar loucamente, compartilhar um medo, um amor e ouvir que precisamos, sim, ser vigorosos?

'Prazer' se alterna em momentos de humor e introspecção, sempre costurados com pitadas de poesia. É como a vida, tem lá seus sopros de felicidade, prazeres ligeiros e outros momentos nem tão festivos assim. Ao iluminar essas questões, a Cia. Luna Lunera reafirma seu compromisso com um teatro capaz de tocar as pessoas. E neste caso vai além, também diz sobre a coragem de buscar a alegria. Apesar de.

 

com a palavra...

 

Gustavo Bones do Grupo Espanca!
“Acredito que a proposta de abrir o festival, abrir a cidade para quem quiser mostrar seu trabalho, é uma opção louvável. O festival é de uma diversidade impressionante.”

Nathália Marçal, atriz de Por parte de pai
“O festival acaba sendo um meio forte de contato com artistas de cenas culturais diversas em relação aos trabalhos de pesquisa de linguagem cênica e à territorialidade.”

Cynthia Paulino, diretora de Entre nebulosas e girassóis, da Cia. Teatro Adulto
“Gosto do público do festival, sempre atento, sempre curioso com o espetáculo.”

 

Na ponta do lápis

76 espaços foram usados no festival

442 espetáculos

1.200 apresentações

220 mil pessoas prestigiaram o Fringe


NA AGENDA
A próxima edição do Festival de Teatro de Curitiba está marcada para o período de 28 de março a 8 de abril de 2014.

EM AGOSTO
Prazer estreou no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo em novembro porque as obras do espaço em Belo Horizonte não ficaram prontas a tempo. Antes de chegar à terra natal, o grupo ainda passará por Rio de Janeiro e Brasília. O plano é que Prazer estreie em BH em agosto, mas tudo dependerá da pauta dos teatros. Assim como é o desejo da Luna Lunera, o público mineiro merece uma longa temporada de Prazer.

 

Ana Cris Willerding/Divulgação
'Antes da chuva', do grupo Cortejo, ganha força com a interpretação de Bruna Portella e Luan Vieira (foto: Ana Cris Willerding/Divulgação)
Saudável diversidade


A realização de mostras regionais foi um dos destaques da edição 2013 do Festival de Teatro de Curitiba. Criadas como uma alternativa para peneirar um pouco a variedade de propostas que se lançam na programação paralela, as iniciativas ganharam mais força e visibilidade. A Grupos de BH: Teatro para Ver de Perto, capitaneada pelo Galpão Cine Horto, foi a pioneira e mais uma vez chamou a atenção durante o evento.

“As mostras regionais com curadoria são um amadurecimento no formato do Fringe, preservam a diversidade, a abrangência, e garantem critérios de curadoria para a seleção dos espetáculos”, analisa Leonardo Lessa, ator do Grupo Teatro Invertido e também curador da mostra mineira. Foram várias sessões lotadas e a experiência mineira deu exemplos. Este ano, os baianos também organizaram uma mostra especial para demonstrar a atual produção do estado.

“Em 12 dias, foram apresentados sete espetáculos, em 21 sessões, duas oficinas, um bate-papo e o lançamento de uma publicação com fotos, vídeos e informações em três idiomas sobre 28 espetáculos baianos. Como projeto-piloto, a ação se mostra forte e vigorosa para se reeditar”, afirma Maria Mariguela, coordenadora de Teatro da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

Novas propostas Fora das curadorias especiais, o Fringe se reafirmou como espaço para a descoberta de novas propostas cênicas. Chamaram a atenção investidas como a do grupo pernambucano Magiluth na dramaturgia de Nelson Rodrigues com o irreverente 'Viúva, porém honesta'. O boca a boca sobre o espetáculo se espalhou de tal maneira que a última sessão atrasou quase meia hora só para acomodar a plateia. “Público é algo tão raro no teatro hoje que não podemos deixar ninguém de fora”, justificou o diretor Pedro Villela.

Casa cheia também foi o caso do grupo Cortejo, de Três Rios (RJ). 'Antes da chuva', espetáculo com texto e direção de Rodrigo Portella, é uma daquelas pérolas que vez ou outra aparecem por aqui e merecem circular todo o país. Com Bruna Portella e Luan Vieira, a montagem centra força na interpretação dos dois e na força da história de amor que nos é contada.

“Sempre quis montar um espetáculo que fosse capaz de juntar elementos aparentemente antagônicos. Uma obra capaz de provocar risos e ao mesmo tempo emocionar. Que pudesse provocar identificação popular, mas que fosse sofisticada enquanto linguagem. Que fosse capaz de fazer o público ver todos os cenários sem que houvesse cenário algum”, diz Rodrigo. Com Antes da chuva o dever está cumprido.

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