Artista plástico mineiro defende a importância do trabalho em azulejaria nos espaços públicos

Alexandre Mancini integra seleto grupo de criadores que une arte, design e artesanato

por Walter Sebastião 31/12/2012 08:00

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Élcio Paraiso/Bendita
Alexandre Mancini defende a importância do trabalho em azulejaria nos espaços públicos e na arquitetura (foto: Élcio Paraiso/Bendita)

Em Belo Horizonte, há um seleto clube de criadores cuja obra unifica arte, artesanato e design – conhecimentos que o tempo separou. Ao ceramista Máximo Soalheiro e à vidreira Regina Medeiros se junta outro autor ilustre: Alexandre Mancini, de 38 anos. A especialidade desse belo-horizontino da gema são belos painéis de azulejo inspirados na abstração geométrica, consagrada pelo modernismo brasileiro.

“Meu trabalho nasceu do convívio com a Pampulha, com a fachada do Palácio das Artes, com as esculturas de Amilcar de Castro e Ricardo Carvão e com a arquitetura de Jô Vasconcellos e Éolo Maia”, afirma Mancini. Seus painéis surgiram a partir de 2007, depois de ele abandonar o curso de administração de empresas. “Vi que não era para mim”, resume.

O designer e artista plástico experimentou diversas atividades – de confecção de roupas a loja de vestuário antigo. Quando montou uma empresa de decoração à base de peças de porcelana e vidro, veio o contato com a cerâmica de revestimento. “Acreditei que esse era um caminho, comecei a estudar azulejaria brasileira e arte concreta”, relembra. Foi assim que Alexandre decidiu abrir um escritório para fazer o que gostava.

Deu certo. O mineiro é tão reverenciado que, a partir de 2011, passou a ser representado pela Fundação Athos Bulcão, inspirada no criador de azulejos para projetos de Oscar Niemeyer em Brasília e em BH. Mas Mancini lamenta a falta de reconhecimento da arte da azulejaria em Minas: “As pessoas não valorizam, tratam o que é precioso como trivial. Em Brasília e no Rio de Janeiro, há olhar mais atento à importância dessa arte”.

Espaço
Alexandre Mancini/Divulgação
Projeto do painel Tempestade de Triângulos, de Mancini (foto: Alexandre Mancini/Divulgação)
Athos Bulcão é ídolo e referência para Alexandre Mancini. “Quando conheci o trabalho dele, senti enorme afinidade com a visualidade de elementos geométricos simples, coloridos, e com o comportamento dos painéis no espaço”, conta o mineiro. Para ele, a eternidade da azulejaria moderna brasileira está nesses aspectos.

Mancini cultiva e expande sua estética com pesquisas. Ter projetos produzidos pela Fundação Athos Bulcão é motivo de muita satisfação – tanto pelo reconhecimento quanto pelo fato de que, até agora, ele cuida de tudo sozinho. Ou seja, cria desenhos e desenvolve painéis (“peças únicas, datadas e assinadas”, ressalta), além de comprar azulejos, imprimir imagens e queimar a cerâmica para fixar os padrões. “Ainda vendia, embalava e despachava”, brinca ele.

Alexandre Mancini é adepto do que chama de modulação aleatória, isto é, composições montadas livremente a partir de suas indicações. Ou seja: não fechar o círculo (se há formas circulares), não repetir três azulejos na mesma posição em sequência e inserir uma peça branca a cada quatro estampadas.

“Dou liberdade máxima ao operário que vai assentar as peças”, garante. Agindo assim, o designer nunca se decepcionou. “Já houve pedreiros que ficaram contidos quando deviam ser ousados, pois não acreditavam que pudessem ter tanta liberdade. A mesma liberdade de criar harmonias e relações que dou ao pedreiro se oferece ao espectador”, avisa.

Mancini gosta de levar alegria, leveza e surpresa para um ambiente. Esse também era o objetivo de arquitetos modernos nos anos 1940. Entretanto, a partir da década de 1980, essa estética foi ficando rarefeita. “Painéis artísticos bem integrados ao edifício, feitos com azulejo, pastilha de vidro e relevos, enriquecem o cotidiano. Eles evitam que a cidade se torne fria e banal”, ensina o designer e artista plástico.

Ele acredita já ter entregue cerca de 90 obras – a maioria em Belo Horizonte e São Paulo –, mas há trabalhos dele em Brasília, Rio de Janeiro, Belém e Curitiba. Atualmente, o mineiro experimenta o sonho de expandir suas atividades para as galerias de arte. Tem planejado vitrais, relevos (em madeira e pedras) e painéis em pastilhas.

Atleticano, Mancini já concluiu o painel de azulejos com imagens de 11 jogadores de seu time para ser instalado na sede do clube. “Escolhi ícones da nossa história. Gente que vestiu e honrou a camisa do clube e que representa profundamente o Atlético”, conta. A paixão alvinegra já se refletiu em várias obras. Mancini criou painéis evocando a conquista do Campeonato Brasileiro em 1971, o número nove da camisa de Reinaldo e até abstrações sugerindo a palavra galo.

Na trilha de Cash
Outra de Alexandre Mancini: ele sempre teve banda de música. Com o fim da Hot Rod Combo, em 2005, o designer formou a The Folsoms, especialista em músicas de Johnny Cash, que já gravou um disco. Era para ser um grupo cover, hobby de amigos, mas já está se tornando projeto autoral. The Folsoms prepara disco para 2013.

Alexandre Mancini/Divulgação
Painéis de azulejos criados pelo artista mineiro (foto: Alexandre Mancini/Divulgação)


Três perguntas para...
Alexandre Mancini
Artista plástico


Como se desenvolveu a azulejaria brasileira?
A partir dos anos 1930, ela tomou caminhos muito próprios. Há toda uma produção ligada à arquitetura e à arte moderna – dos painéis de Portinari aos de Athos Bulcão, que criaram estética única. Veem-se beleza e harmonia nas composições, boa integração com o espaço e caráter de expressão plástica. É um movimento forte, arrojado. Temos obras maravilhosas, inclusive em BH. Citaria o painel de Mário Silésio, no Detran; o de Silas Raposo, na Escola de Veterinária da UFMG; e as obras de Portinari, na Pampulha.

Esse patrimônio corre riscos?
Temos obras bem conservadas e outras caindo aos pedaços. Para além dessa questão, acho que falta consciência e reconhecimento de que as construções modernas são o nosso patrimônio histórico. Grandes obras foram feitas aqui por arquitetos e artistas importantes. Elas definem o que somos. Não somos só a cidade que se transforma rapidamente. Temos história rica, forte, de grande valor.

O que deve ser feito?
Seria bom que os órgãos do patrimônio, que os responsáveis pelos edifícios, as escolas de arquitetura e de nossos filhos – são eles que, em breve, vão tomar conta disso – difundissem mais o acervo. É necessário explicar melhor, talvez levar o programa de conservação de forma mais forte e vibrante.

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