Nova coleção da Editora Cobogó reúne textos de quatro montagens teatrais do grupo Espanca!

Lançamento será nesta terça-feira à noite, na própria sede da companhia mineira

por Carolina Braga 17/12/2012 09:25

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press-23/8/12
Grace Passô, autora de teatro (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press-23/8/12)
A paixão pelo teatro é algo que acompanha a vida da carioca Isabel Diegues. Muito por isso, todas as vezes que saía de uma sala de espetáculos ela vivia um conflito. Por que esse texto tem de estar restrito ao palco? Por que não oferecê-lo como literatura? Afinal, dramaturgia não é também um gênero literário? Não seria bom discutir os limites do que é teatro e o que é literatura? A resposta é sim para todas as questões, mas, infelizmente – e curiosamente –, não há no Brasil a cultura de se publicarem textos teatrais em livros. “Na Europa, em países como a Inglaterra, e também na Argentina já existe uma prática. Colocam a peça em cartaz e muitas vezes já vendem o texto”, comenta Isabel. Por aqui, de vez em quando isso também ocorre, mas por iniciativa independente de grupos e autores. O teatro nacional que se encontra na livraria são obras de autores muito consagrados. E olhe lá. A sorte de Isabel Duarte é que, estando diante dessa lacuna e também de tantos questionamentos, teve a faca e o queijo na mão para mudar um pouco o cenário. Como é dona da Editora Cobogó, criou em agosto uma coleção dedicada à novíssima dramaturgia brasileira. Em menos de cinco meses, 10 textos de jovens autores já estão na praça. A segunda fornada teatral da Cobogó será lançada nesta terça-feira, em Belo Horizonte. É um pacote com quatro textos escritos por Grace Passô e montados pelo Espanca!: Por Elise, Amores surdos, Congresso internacional do medo e Marcha para Zenturo (montado em parceria com o grupo XIX de São Paulo). A primeira leva, enviada às livrarias em setembro, reuniu seis textos de autores cariocas. Nas salas de aula A ideia da coleção surgiu quando Isabel Duarte se deparou com um livro publicado por Aderbal Freire-Filho. Num desses encontros corriqueiros em porta de teatro, ela questionou o diretor sobre a escassa edição de obras dramatúrgicas. Descobriu que o tal “livrinho” se tratava de uma publicação em tiragem mínima, feita para atender a demanda criada pelos cursos de teatro. “Os professores comentam que toda vez que querem discutir uma peça com os alunos precisam pedir por e-mail ao autor. Com isso, achei que valia a pena entrar nesse mercado”, diz. Desde que decidiu incorporar ao acervo da Cobogó os títulos teatrais, Isabel Duarte procurou conhecer outros trabalhos de autores de São Paulo, Pernambuco, Paraná, Goiás e Minas Gerais. O objetivo é claro: revelar dramaturgos, onde quer que estejam. Só assim conseguirá também criar um registro do que se tem escrito para os palcos no Brasil de hoje. A escolha por começar pelo Rio de Janeiro, segundo Isabel Duarte, foi por uma questão prática. “Resolvi começar com aquilo que estava perto de mim. Além disso, o teatro carioca está em um momento muito rico. Houve uma espécie de efervescência, inclusive com o surgimento de novos autores”, argumenta. A expectativa é que a cada quatro meses novas peças sejam editadas. A estreia da coleção destacava justamente nomes que, em alguma medida, são considerados revelações dos palcos. Com Ninguém falou que seria fácil, por exemplo, Felipe Rocha venceu o Prêmio Shell de melhor autor em 2011. As outras peças publicadas são Trabalhos de amores quase perdidos, de Pedro Brício; Os estonianos, de Julia Spadaccini; Ponto de fuga, de Rodrigo Nogueira; Nem um dia se passa sem notícias suas, de Daniela Pereira de Carvalho; e Alguém acaba de morrer lá fora, de Jô Bilac. Fronteiras De acordo com a editora, tanto os textos cariocas selecionados, como a obra de Grace Passô, permitem reflexões sobre os limites do gênero na atualidade. “É uma outra maneira de se pensar a literatura feita para teatro”, acredita Isabel Duarte. O interesse do tema tratado e a qualidade dos textos foram os principais critérios adotados. “Queria fazer um teatro jovem e contemporâneo”, justifica. O desafio da seleção foi escolher aquelas peças que de fato agregariam algo à discussão sobre as fronteiras entre a literatura e a dramaturgia. “Algumas peças facilmente viram literatura e outras não”, diz. Sendo assim, o processo de edição envolveu trocas constantes com os autores. Isso porque as montagens contemporâneas são bastante marcadas pelo processo colaborativo, ou seja, nem sempre o que foi inicialmente escrito pelo dramaturgo é dito literalmente em cena. “Observamos o que era obrigatório no texto e aquilo que caracteriza a encenação”, diferencia. Nessa tarefa, os autores foram frequentemente confrontados com a pergunta: “Você quer o que fez no palco ou aquilo que escreveu antes?”. Foi assim que conseguiram pensar – e identificar – os limites dos gêneros. Os livros da Coleção Dramaturgia da Cobogó foram editados no tamanho 13x19 cm. As capas coloridas são estampadas com ilustrações dos designers Luiza Marcier, da À Colecionadora; Olivia Ferreira e Pedro Garavaglia, da Radiográfico. O preço de capa sugerido é de R$ 25.
 (Ana Alvarenga/ Divulgação )
Por Elise esteve em cartaz ano passado em BH, no Teatro Oi Futuro (foto: (Ana Alvarenga/ Divulgação ))
Criando espaço, demanda cresce
“Esta publicação é o registro de oito anos de trabalho no Espanca!”, explica Grace Passô. “São textos originais, que escrevi durante os processos de criação dos espetáculos. É também o registro de um teatro brasileiro do nosso tempo, de um pensamento artístico construído pelos artistas da nossa companhia e, de minha parte, um registro de uma identidade dramatúrgica.” Grace Passô destaca a ausência de títulos contemporâneos em catálogo, o que contribuiria para a desvalorização da cena teatral brasileira atual. “Publicar esses textos é uma forma de dizer que a dramaturgia brasileira é viva, está nas salas de ensaio, está nos computadores desses atores e diretores que estão colocando a mão na massa”, completa. Das peças do Espanca! publicadas pela Cobogó, apenas Por Elise foi editada anteriormente, pelo próprio grupo em 2005. Aliás, é assim que normalmente funciona – quando funciona. O que é comum no universo das artes cênicas hoje em dia é que os próprios artistas paguem para editar seus trabalhos. O problema é que, além de transformar a peça em livro, há ainda a distribuição. Como o próprio livro é feito em esquema caseiro, as vendas seguem essa lógica. Normalmente, depois dos espetáculos. Apesar de peças não serem frequentes nas livrarias, isso não significa que não exista uma produção intensa. O projeto Janela de dramaturgia, idealizado pelos atores Vinicius Souza e Sara Pinheiro, provou isso este ano. Durante cinco semanas, eles convidaram jovens dramaturgos mineiros para leituras de textos inéditos. O resultado foi mais que satisfatório, sempre com casa cheia. “Uma vez que se cria o espaço, a demanda aumenta. Muitas pessoas escrevem para teatro, mas ficam com os textos guardados. Elas não têm interesse em produzir um espetáculo, mas simplesmente escrever”, comenta Sara Pinheiro.

 

COLEÇÃO ESPANCA! Lançamento da obra completa do Espanca! amanhã, às 19h, no Teatro Espanca! (Rua Aarão Reis, 542, Centro). Entrada franca. Informações: (31) 3657-7348.



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