Alcione Araújo criticou a "esquizofrenia" brasileira de separar educação e cultura

Seus textos eram marcados tanto pelo lirismo quanto por aguda leitura política do mundo

por João Paulo 16/11/2012 08:21

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Jair Amaral/Esp.EM/D.A Press
O historiador Amilcar Martins cumprimenta Alcione Araújo durante o projeto TIM Estado de Minas Grandes Escritores, em 2002, em BH (foto: Jair Amaral/Esp.EM/D.A Press)
 

A crônica que Alcione Araújo publicava às segundas-feiras no Estado de Minas, inicialmente dividindo o espaço com Fernando Sabino e depois como titular único do espaço, era reconhecida pelos leitores por seu lirismo e capacidade de flagrar a poesia do cotidiano. Alcione gostava de dizer que não inventava seus enredos, oferecendo apenas sua sensibilidade aos encantos do mundo. A coletânea Urgente é a vida provou o acerto de seu método: com ela, o mineiro recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro de crônicas, em 2005.

O dramaturgo e escritor era militante: não se cansava de viajar pelo país para participar de eventos voltados para a divulgação da literatura, preocupado com a formação de leitores. Em Minas, apoiou vários projetos nesse sentido, enfatizando a importância de unir cultura e educação. Ele denunciava a “esquizofrenia” brasileira de separar os dois setores. Alcione dizia que a educação perdia vigor ao se tornar essencialmente técnica, enquanto a cultura se tornava superficial ao priorizar o mercado em detrimento da reflexão.

A partir de 1998, o dramaturgo passou a se dedicar ao romance. A estreia no gênero se deu com Nem mesmo todo o oceano, alentado volume de quase 800 páginas. Mesclando política e exame de consciência, o livro narra a vida de um médico que assistia a torturas nos porões da ditadura militar brasileira e se prepara para explicar seu comportamento a um grupo de jornalistas. Logo antes, trancado no banheiro, ele rememora sua vida, construída por mentiras e concessões à falta de ética em nome do bem-estar material.

Em 2008, Alcione lançou Pássaros de voo curto, que tem como personagens uma cantora lírica que excursiona pelo interior do país, um pianista americano que chega ao país na época do fechamento dos cassinos, e um inglês que vem trabalhar no Brasil e se apaixona por uma imigrante italiana. Com habilidade, o romancista faz se cruzarem esses vários destinos.

Minas O livro mais recente, Ventania, lançado no ano passado, se passa numa cidade imaginária do interior de Minas, que dá nome ao romance. No horizonte estão uma mina de ouro abandonada e uma estação ferroviária sem trens. Philadelpho, o Delfos, de 47 anos, chefe da estação desativada, perdeu a perna em acidente quando ainda havia locomotivas chegando e partindo.

Na literatura, na crônica e no teatro, a marca mais destacada de Alcione Araújo foi sempre o humanismo e a visão ampliada das circunstâncias sociais e dos descaminhos do coração dos homens. Isso, certamente, deverá garantir a perenidade de suas obras. Sobretudo o teatro brasileiro, que deve muito a Alcione, tem uma tarefa importante: manter viva uma obra que ajuda o país a se compreender melhor, mesmo em outro momento histórico.

 

A obra
Romances

Nem mesmo todo o oceano, 1998
Pássaros de voo curto, 2008
Ventania, 2011

Contos e crônicas

Urgente é a vida, 2004
Escritos na água, 2006
Cala a boca e me beija, 2010

Infantil

Quando Papai Noel chorou, 2009

Teatro (em livro)

Teatro de Alcione Araújo. Três volumes, com 14 peças: Simulações do naufrágio, Visões do abismo e Metamorfoses do pássaro, 1999
A caravana da ilusão, 2000
Doce deleite, 2009
Deixe que eu te ame, 2010

Roteiros de cinema

Outras estórias, 1999 (Direção de Pedro Bial)
Policarpo Quaresma, herói do Brasil, 1998 (Direção de Paulo Thiago)
Vagas para moças de fino trato, 1993 (Direção de Paulo Thiago)
Mais que a Terra, 1990 (Direção de Elizeu Ewald)
Faca de dois gumes, 1989 (Direção de Murilo Salles)
Jorge, um brasileiro, 1988 (Direção de Paulo Thiago)
Ela e os homens, 1985 (Direção de Schubert Magalhães)
Nunca fomos tão felizes, 1984 (Direção de Murilo Salles)
Patriamada, 1984 (Direção de Tizuka Yamasaki)

Roteiro de TV

A idade da loba, 1995 (Direção de Jayme Monjardim)

Prêmios

Festivais de Brasília e Gramado. Melhor roteiro, em 1984, por Nunca fomos tão felizes
Prêmio Molière, em 1985, melhor autor teatral, por Muitos anos de vida
Prêmio Jabuti, Câmara Brasileira do Livro, em 2005, por Urgente é a vida

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