Perfil: Carlos Nunes, ator e diretor

Ator diz que fazer rir é mais difícil do que parece e que vive só de teatro com muita dignidade

por Walter Sebastião 05/08/2012 08:29

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Tulio Santos/EM/D.A Press
(foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
Carlos Nunes, de 51 anos, nos últimos 15 apresentou pelo menos uma vez por mês a peça Como sobreviver em festas com buffet escasso. Outras montagens em cartaz por anos são Pérolas do Tejo e Comi uma galinha e tô pagando o pato. Nem adianta cobrar novas montagens dele. “As peças são velhas, mas o público sempre é novo”, responde polido. E nem perguntar sobre o interesse dele por outros gêneros que não a comédia. “As pessoas têm mania de querer que eu faça drama. Não vou dar chute na sorte. Já vivo dramas todo dia”, justifica. Outro sucesso, invisível para o público dos teatros, é Riso 14 mil, performance mostrada em empresas, posta a serviço de vários conteúdos, da prevenção de acidentes até normas de trabalho, passando por ações de socialização de grupos. “O teatro está por toda parte”, garante Nunes. “Não se pode esperar sustento só com bilheteria. Mesmo casa lotada não dá condições de pagar as contas. Você tem que buscar outras possibilidades”, acrescenta. A estratégia de diversificar a atuação tem permitido que ele sobreviva exclusivamente de teatro ao longo de três décadas. “Sobreviver não. Vivo de teatro e de forma digna”, corrige. “Já me apresentei para médicos, MBAs, peão de fábrica, presidente de empresa, às 7h, às 5h da manhã, em troca de turno. São os meus maiores divulgadores. Depois de me conhecer no local de trabalho, vão ver a minha peça no teatro”, conta, indicando a fonte de sua popularidade. “Não sou artista, sou ator. Ator só é em cena. Representa, faz rir ou chorar, e vai embora. Não levo o personagem artista para casa”, explica, avesso ao glamour associado à atividade. “Sempre soube, desde criança, que seria ator”, garante Carlos Nunes. Ao servir o Exército, ouviu de coronel oferta da patente de sargento, caso seguisse vida militar. Recusou. Experimentou fracasso com o infantil Naufrágios, viagens e fantasias. “Eram só duas pessoas na plateia, pai e filho. E durante cena que brincávamos com as crianças no palco o pai saiu para fumar. Fizemos a peça para ninguém. E o menino ainda começou a chorar quando não viu o pai ao lado”, recorda. “Mas isso tem mais de 15 anos”, avisa o fã de Oscarito. Carlos Nunes estudou teatro no Palácio das Artes. Logo depois de formado, em 1979, já estava em atividade com colegas de curso na peça Ato cultural. “Não era como hoje. Você tinha de implorar para a família ir. Era comum ver mais pessoas no palco do que na plateia”, confessa. Carlos Nunes nasceu no Serro e se mudou para BH com 9 anos, em momento que a família vivia problemas financeiros. A mãe teve de espalhar os 13 filhos por várias casas de parentes. Um ano e meio depois, reuniu todos de novo. O ator foi morar com tia de quem não tem boas lembranças. “Quando perguntavam a ela com quem morava, minha tia respondia: ‘É só eu, Deus e o cachorro’. Durante muito pensei que o cachorro era eu. Não era. Para ela eu não era ninguém”, recorda com ironia amarga. Escreveu uma carta para a mãe com falsas manchas de sangue, dizendo que a tia batia nele todo dia. “Era mentira. Ela só me batia uma vez por semana”, brinca. “Apanhei bonito quando minha mãe descobriu o que fiz”, acrescenta.
Agência Gerais/divulgação
(foto: Agência Gerais/divulgação)
Na vida e no palco
•  Vocação “Sempre fiz teatro. No Serro já recitava poemas na escola, celebrava missa. Minha mãe achava que queria ser padre, mas já sabia que seria ator. Era bom aluno em português, história, inglês e geografia, e péssimo em matemática. Só passei de ano quando apresentei a lição sob forma da peça O casamento da hipotenusa com o cateto oposto. Não tinha talento para estudo. Era o que consideravam um aluno burro. Fadado ao fracasso, descobri que existe inteligência emocional, que o teatro podia me proporcionar ser mais do que as pessoas esperavam de mim.” •  Carreira “Não planejei fazer humor popular. Faço o que faço porque sou popular. Não tenho faculdade, as minhas peças trazem o meu conhecimento, a minha alma. Faço o teatro que gostaria de ver. Não há fórmula para o sucesso, se tivesse, só faríamos o que vai dar certo. O diferencial é que me entrego. Mesmo sujo, cansado depois de uma hora e 40 minutos de espetáculo, vou cumprimentar, agradecer as pessoas que estão no teatro. Num mundo de relações distantes, traz muita empatia. Gosto de receber e de retribuir o carinho do público. É respeito.” •  Teatro “É a minha realização, minha alegria, me dá força para viver e atividade com que me realizo. Gosto da fantasia do teatro, de luz, cenário, figurinos. O teatro me torna melhor do que sou. Tem dia que estou cansado, mas o público me envia um gás tão bom que embarco. Dizem que tenho a plateia nas mãos. Não é verdade. É a plateia que me tem nas mãos. Deixo que ela me conduza, me leve. Tenho escrito, com parceiros, alguns textos. É caminho que quero continuar. Tenho muito prazer em dar vida às minhas ideias.” •  Humor “Humor ninguém discrimina, o preconceito é com a comédia. Pensam que é arte inferior, que quem faz não merece sucesso. E, se o sucesso vem, todos acham um absurdo. Acha que é fácil? Façam. Subam no palco e experimentem fazer alguém rir. E vão descobrir que matamos um leão toda noite. Se a plateia não ri, fico murcho. O mais precioso da comédia é que é uma emoção alegre. Sempre querem que eu faça um drama. Não vou dar chute na sorte, já vivo dramas todo dia.” •  Mestres “O grande mestre do humor é, sem dúvida, Chico Anysio. Ele criou mais de 250 personagens e cada um com característica própria, só um gênio pode fazer isso. Não cultivo ídolos, mas toda vez que vou fazer um trabalho penso como seria aquilo feito pelo Marco Nanini, que, para mim, é o melhor ator do mundo. Ele faz uma mulher e um cangaceiro com a mesma naturalidade e isso me encanta.”

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