Evandro Passos vai integrar Conselho internacional de dança da Unesco

Coreógrafo mineiro se destaca pela paixão à dança e artes cênicas

por Thaís Pacheco 04/07/2012 09:39

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Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Nascido em Diamantina, Evandro Passos chegou a Belo Horizonte com 16 anos. Seu programa preferido era frequentar as portas dos teatro. Ficava do lado de fora porque ainda não tinha dinheiro para o ingresso. Certa vez, na entrada do Palácio das Artes, foi convidado a fazer um teste por Geraldo Vidigal, do Grupo Folclórico Aruanda. Aceitou, entrou, aprendeu danças folclóricas e recebeu convites para outros trabalhos, quando começou a expandir horizontes.
Nessa época, meados dos anos 1970, surgiu em BH o hábito de as academias de dança oferecerem bolsas a homens, que eram escassos nesse mercado. Evandro aproveitou todas as oportunidades. Aprendeu e treinou diversas modalidades, passou por diferentes companhias e professores e também participou de todas as oficinas que passaram pela cidade. Uma delas, da coreógrafa Marlene Silva, que abriu a primeira academia de dança afro da capital. Evandro foi conhecer e decidiu: era o que faria. “Era 1977 e quando vi aquilo quis me especializar”, recorda.
Certo dia, o Sindicato dos Bancários precisava de uma apresentação voltada para a cultura negra. O diretor cultural chamou Evandro, que abriu inscrições, reuniu 15 pessoas e montou uma coreografia. Foi um sucesso. Por conta disso, o diretor Gilson Fubá ofereceu o espaço para Evandro Passos criar um grupo e ter um local de ensaios. 
Esse empurrãozinho faria nascer, em 1982, o Grupo Bataka, especializado em dança afro. Trinta anos depois e com dezenas de bailarinos tendo passado pela companhia, saiu o estatuto da Bataka, que se tornou uma associação sociocultural. “A gente vem dando aulas de dança afro e folclórica na escolas, fazendo interlocução com música e artes plásticas. Decidimos ampliar e registramos. Mas o mote ainda é a dança. Estamos dando formação de professores, trabalhando muito com a Secretaria Municipal de Educação. Queremos patrocinar o pessoal que trabalha a cultura afro nas escolas”, avisa Evandro. 
Paralelamente, Evandro é ator. Estudou arte cênicas e já participou de novelas, minisséries e espetáculos teatrais. Recusa-se a ver a dança como arte única.
CORPO BRASILEIRO Evandro Passos, nem de longe, é do tipo que reclama. Aos 52 anos, tem duas faces. Uma delas a do artista; a outra, do homem que há 30 anos dedica sua vida a quebrar preconceitos, mudar pensamentos, mostrar que dança é uma arte para todos e a cultura afro, independentemente de cor de pele, não é nada além de cultura brasileira. 
“O que não deu certo nesses 30 anos de Bataka foi manter esse título de dança afro-brasileira, mas a gente não abre mão disso. No Brasil, esse nome ainda causa estranheza. Empresas não patrocinam porque não querem o nome atrelado a uma companhia de dança afro. Ela é vista como inferior e a dança europeia ainda predomina”, afirma Evandro.
 “Durante muitos anos, falava-se que a dança clássica é a base de tudo, mas por trás desse conceito tem um monte de preconceito. É a dança que a gente quer trazer da Europa para embranquecer o país. Mas a dança afro também tem sua beleza e técnica”, avisa Evandro. “Houve até professor que disse que poderia aprender o clássico, mas jamais seria um grande bailarino por causa do pé chato, da bunda grande, do corpo brasileiro”, lembra.
Se o problema com a dança afro é que ela não tem técnica, Evandro funda um grupo e dá aulas, ensina técnicas com metodologia própria. Ensina pessoas com paralisia cerebral e senhoras de 80 anos a dançar. Se o problema é que ela não está na universidade, Evandro vai até a Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e faz um mestrado, cujo trabalho final vai virar livro pela Mazza Edições. E ainda se torna professor da Universidade Federal de São João del-Rei, onde ministra aulas de dança afro para atores. Se as discussões de política pública para dança não reconheciam a afro, Evandro foi lá e fez pressão para participar dos debates e vê-la reconhecida.
E se o problema é arte tipo exportação, Evandro viaja o mundo ensinando e espalhando essa área da cultura brasileira pouco reconhecida no Brasil.
NO MUNDO “Conheci três continentes graças à dança”, pontua Evandro Passos. “Morei no continente africano, nos Estados Unidos e na Europa”, lembra. Na África, esteve em 1996, com uma bolsa da Unesco. Nos Estados Unidos, deu aulas de dança brasileira na Universidade de Massachusetts . Esteve ainda em Portugal, Espanha e França, sempre a convite de academias, para ensinar dança afro-brasileira. Em janeiro de 2013, vai a Boston e em novembro deste ano vai ao Chile.
Sempre usando o termo “a gente” em vez de “eu”, Evandro garante que nunca viaja sozinho. 
Sempre leva um ou mais integrantes do Bataka e, na impossibilidade de viajar, envia um bailarino de sua companhia. 
Evandro coleciona prêmios e bolsas nacionais e internacionais por seu valor artístico e trabalho social e cultural. Em 2011, ganhou o Notáveis do ano, em Diamantina. Foi um prêmio de reconhecimento de sua cidade, que também veio da classe artística, quando ele venceu o Prêmio Sesc/Sated pelo trabalho de inclusão com a dança. A viagem paga pela Unesco à África também é considerada por ele uma espécie de premiação. Afinal, uma das características dos coreógrafos escolhidos pela Unesco é trabalhar a arte de forma inclusiva. O mestrado de Evandro na Unesp foi patrocinado pela Fundação Ford, instituição dos Estados Unidos que, de acordo com o site da organização, é uma “fonte de apoio a pessoas e instituições inovadoras em todo o mundo, comprometidas com a consolidação da democracia, a redução da pobreza e da injustiça social e com o desenvolvimento humano”.
É exatamente esse o compromisso de Evandro e, por isso mesmo, acaba de ser convidado – e aceitou – para integrar o Conselho Internacional de Dança, o CID, da Unesco. 
Para todos Evandro ainda quer três coisas: que a informação se dissemine, que a dança seja acessível a todos e que o Bataka continue. A disseminação da informação, Evandro acredita, pode estar também na garantia de que ela exista. “As pessoas estão pesquisando e algo que estava restrito a alguns grupos, a dança afro, hoje está na universidade, em movimentos artísticos e até no Festival Internacional de Dança, o FID”. Para o coreógrafo, o registro da história é de suma importância. “Passaram por BH professores fundamentais para a vida da gente e isso não está registrado. Eles desmitificaram que tal corpo não servia para tal dança. Você pode dançar sim. E os novos bailarinos também precisam saber que não começa neles”, ensina. 
Sobre a dança ser uma arte acessível, ele avisa: “Temos de levar a dança onde ela não está. Não pode ser objeto de meia dúzia de bailarinos. Meu lema é levar a dança a todos os públicos e corpos. Com paralisia, com 80 anos ou na periferia. O Brasil seria melhor se todo cantinho de cada cidade ou estado tivesse arte, mas ainda é privilégio de poucos, a dança mais ainda, e isso me deixa meio triste”, lamenta.
Para seu grupo, Bataka, ele deseja vida longa: “O que almejo para o Bataka é que continue por muitas gerações e crie bons espetáculos”, avisa Evandro Passos. Mas enquanto está aqui, a ideia é colocar a mão na massa e, sendo associação, conseguir patrocínio. “Ter sede própria, para que a gente tenha um trabalho de extrema qualidade artística. Sempre fizemos com qualidade, mas precisamos de um salário digno para trabalhar e nos dedicar à dança afro. Acho que já está na hora de termos esse reconhecimento”, conclui. 
 
"Meu lema é levar dança a todos os públicos e corpos. Com paralisia, com 80 anos 
ou na periferia. O Brasil seria melhor se todo cantinho tivesse arte” 


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