FIT-BH 2012 teve momentos altos, alguns mornos e outros pouco expressivos

Mostra recebeu 19 espetáculos internacionais, 12 nacionais e 10 locais

por Carolina Braga 25/06/2012 09:55

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Carolina Braga/EM/D. A PRESS
(foto: Carolina Braga/EM/D. A PRESS)
Dentro da proposta de discutir as fronteiras entre as linguagens artísticas, o Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte de fato colocou o conceito em prática em sua 11ª edição. O pacote, formado por 19 espetáculos internacionais, 12 nacionais e 10 locais, contemplou manifestações variadas no escopo das artes cênicas. Porém, talvez como sintoma do mundo contemporâneo, não houve nada que soasse inovador, ainda que muitas qualidades tenham saltado aos olhos. 
Recordista de público desta edição, a reestreia de Romeu e Julieta, do Grupo Galpão, com direção de Gabriel Villela, foi responsável por tocar a memória afetiva de quem há anos acompanha a programação cultural da cidade. Além disso, o retorno do clássico à estrada também foi uma forma de brindar as novas gerações com a obra-prima, que se revelou imune ao tempo. Mas, digamos que a saga dos amantes de Verona figurou como hors-concours na maratona dos últimos 16 dias. 
Como em toda empreitada do tipo, o FIT-BH 2012 teve momentos altos, alguns mornos, outros nem tão expressivos assim. De forma geral, os gêneros e as artes se misturaram nos espetáculos apresentados. Embora não tenha agradado tanto, a proposta israelense em Quiet, por exemplo, foi um flerte muito claro com a dança contemporânea. Assim como o guatemalês Oxlajuj B’Aqtun incluiu um ritual maia na grade teatral. Até mesmo as artes plásticas tiveram a sua vez. Foram crescentes as filas para ver as performances do artista do Congo radicado na França Olivier de Sagazan. Hit no YouTube, a criação dele traz angustiante reflexão sobre as identidades no mundo globalizado. 
O teatro latino-americano chamou a atenção pela carga política proposta. O melhor exemplo foi a montagem chilena dirigida por Guillermo Calderón, Villa Discurso. É o típico modelo que tem como norte a força da palavra apoiada em atuações preciosas. A viagem hiper-realista do grupo colombiano La Maldida Vanidad, nos espetáculos Los autores materiales e El autor intelectual, figura entre os acertos das escolhas estrangeiras. Com apenas três anos de existência, a companhia com sede em Bogotá demonstrou segurança em sua pesquisa. O negócio deles é o espaço e a relação com o espectador. No que tange às fronteiras propostas pela curadoria, no caso deles, não houve como não reconhecer interpretações contaminadas pela televisão e o cinema. 
O melhor A sétima arte, inclusive, foi a inspiração para a escolha mais feliz do FIT-BH 2012: Estamira – Beira do mundo. A criação da atriz Dani Barros – em atuação impressionante – e da diretora Beatriz Sayad para o documentário de mesmo nome de Marcos Prado é arrebatadora. Difícil encontrar um espectador que não tenha se impressionado com a entrega da atriz e aquele breve encontro com a personagem.
A comédia também foi muito bem representada no Festival com Mistero Buffo, do Grupo La Mínima. Comemorando os 15 anos da companhia, a adaptação de Domingos Montagner e Fernando Sampaio para o clássico de Dário Fo garantiu leveza e riso, sem que isso significasse falta de olhar crítico. E mais: reforçou a presença do circo, juntamente com a montagem Palhaços à vista, da mineira Cia Circunstância. Os 10 espetáculos de Belo Horizonte, inclusive, encontraram novas plateias durante o FIT-BH, quase sempre com casa cheia.
Literatura Seguindo a variedade do cardápio proposto, as adaptações literárias também tiveram sua vez. A poesia, por exemplo, serviu de norte para duas criações da Fondazione Pontedera de Teatro, Abito e Lisboa. O diretor Roberto Bacci fez de bicicletas as metáforas sobre a liberdade encontradas em Fernando Pessoa. Embora as duas peças sejam muito parecidas, o resultado alcançado por Lisboa, na rua, é bem mais surpreendente. 
É também encantadora a adaptação feita pela Mundana Companhia de Teatro para o clássico O idiota, de Dostoiéviski. A peça, que se anunciava polêmica pela larguíssima duração – mais de seis horas e meia – revelou não só que o público tem fôlego para tanto, mas que outros espaços da cidade têm potencial ainda desconhecido para o teatro. É impressionante a forma como o grupo se apropriou das instalações do Centoequatro. 
Mais esperado dessa edição, o grupo da República Tcheca Farm in The Cave comprovou toda a capacidade técnica e o vigor físico que detém. Mas isso não foi suficiente para garantir emoção a The theatre, espetáculo que tem como origem manifestações populares brasileiras. A técnica também é algo que chamou a atenção em Voyageurs immobiles, da francesa Companhia Phillipe Genty. Porém, neste caso houve – e muitos – motivos para encantamento. 
Ainda que os números da 11ª edição não tenham sido computados, não há como negar que a população de Belo Horizonte, mais uma vez, demonstrou o apreço que tem pelo festival. O FIT-BH faz parte do calendário oficial da cidade. Fica agora a torcida para que na próxima edição, prevista para 2014, ano de Copa do Mundo e sem eleições municipais, o compromisso com a arte, independentemente de sua forma de manifestação, seja não apenas mantido, mas renovado. 
 
Análise 
 
» PARA NÃO ESQUECER
 
-Interpretação de Estamira por Dani Barros. 
-O voyerismo proposto pelo La Maldita Vanidad. É interessante maneira de ser público. 
-A apropriação do espaço do Cento e Quatro pela Mundana Cia. Teatral, em O idiota – uma novela teatral
-O vigor físico e o domínio técnico dos tchecos do 
Farm in The Cave em The theatre. 
-O teatro político presente em Villa Discurso do chileno, de Guillermo Calderón. 
-A poesia de Fernando Pessoa invadindo as ruas nas bicicletas dos atores da Fondazione Pontedera de Teatro
-A multidão que se reuniu para ver o retorno de Romeu e Julieta , do Grupo Galpão.  
 
»PODE ESQUECER 
 
-O figurino em cetim do grupo Farm in The Cave.
-A fragilidade – inclusive técnica – do espetáculo alemão, Time out, apresentado no Bairro Milionários. 
-A crítica vazia do espanhol Gólgota Picnic: necessidade extrema de ser polêmico, porém, é vazio. 
-A escolha do Grande Teatro do Palácio das Artes para a apresentação de Los hijos se han dormido, do argentino Daniel Veronese.  
 


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