Fernando Morais fala sobre o amigo Roberto Drummond

17/06/2012 08:39

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Arquivo EM/DA PRESS
Roberto Drummond, Murilo Rubião e Luiz Vilela: mestres do conto (foto: Arquivo EM/DA PRESS)
A sexta-feira se aproximava e, com ela, a eterna agonia: sobre o que escrever esta semana? O ímpeto inicial era fazer uma nota sugerindo ao presidente FHC que aproveitasse a fúria anti-Estado de seu governo para privatizar a inigualável, a sonolenta Varig, a maior de todas as nossas estatais (quem disser que a Varig já é uma empresa privada é porque nunca entrou em uma repartição pública).

A iminência da passagem do Brasil para as semifinais (ainda era quinta-feira) inspira o editor Leão Serva a recomendar: por que não escrever sobre a Copa? Cá comigo imagino que ele está debochando ou não sabe da minha sólida ignorância a respeito de qualquer coisa relacionada ao futebol. Mas quem sabe? Num esforço cívico pouco comum, e estimulado pelo fuso horário a meu favor, ponho o despertador para me chamar às 8h, meia hora antes do jogo do Brasil contra a Inglaterra.
Ainda dá tempo de entrar na internet para abrir a correspondência e ler as primeiras notícias da madrugada brasileira. Um tiro saído da capa do Último Segundo me atinge no meio da testa, espirrando lágrimas por todo o rosto: Roberto Drummond acaba de morrer de infarto em Belo Horizonte. Dias atrás eu havia falado com ele, pedindo ajuda para pajear em Minas o jovem brazilianist americano Charles Smith II. Jamais poderia imaginar que aquela seria a última vez que ouviria a voz de Roberto.

Fui seduzido aí pelo final dos anos 50, começo dos 60, pelo texto inventivo, elegante e bem construído desse mineiro de Ferros, que milhões de brasileiros iriam conhecer bem depois (sobretudo com o sucesso estrondoso da minissérie Hilda Furacão). Na época Roberto se alternava na última página da revista Alterosa, editada em Minas, com craques do tamanho de Ivan Ângelo (Belo Horizonte), Wander Pirolli (Belo Horizonte), Henfil (Neves), os irmãos Japiassu (o poeta Celso e o jornalista Moacir, ambos mineiros de João Pessoa, Paraíba) e Carlinhos Wagner (Mariana). Aliás, era pelas mãos de Carlinhos, meu irmão mais velho, que Alterosa chegava em nossa casa. No meu caso, foi atração fatal: li a primeira crônica do Roberto e gamei.

Minha aproximação com ele não nasceu apenas da relação familiar com Carlinhos Wagner. A Alterosa, editada por Roberto, era propriedade do banqueiro Magalhães Pinto (Santo Antônio do Monte), dono do Banco Nacional e já de olho no Palácio da Liberdade, sede do governo mineiro. Eu era office-boy da revista Banlavoura, house-organ do principal concorrente do Nacional, o Banco da Lavoura, dos irmãos Aloysio e Gilberto Faria (Pedra Azul, ambos), desafetos de Magalhães. A casualidade de ambas as publicações serem impressas na mesma gráfica, em Belo Horizonte, permitiu que eu passasse a cruzar com Roberto Drummond pelo menos uma vez por semana – encontros revestidos da reverência exigida pelo abismo profissional que nos separava: ele ia lá supervisionar a impressão da melhor revista mineira e eu era o contínuo que devolvia os clichês da edição anterior da Banlavoura.

A mudança para São Paulo, em 1965, privou-me de conviver profissionalmente com ele, mas, a despeito da distância, continuamos um de olho no outro. No final dos anos 70 nos reencontramos em Ouro Preto, onde Roberto, o escritor Oswaldo França Jr. (Serro), Frei Betto (Belo Horizonte) e eu oferecíamos um almoço aos cubanos Roberto Fernández Retamar, presidente da Casa de Las Américas, e Jorge Timossi, diretor da Agência Literária Latinoamericana. Em meio a uma orgia de torresmos, cachaça e charutos, Roberto me sugeriu, aos sussurros, em tom conspiratório, um tema que, segundo ele, poderia revelar um fantasma condenado a permanecer eternamente nas sombras. Um espectro que ameaçava arranhar a biografia de Getúlio Vargas:

– Acho que você deveria fuçar a vida da Olga Benário, primeira mulher do Prestes. Pode dar um livro interessante.
Quem o conheceu mais de perto sabe que essa atmosfera, esse jeito elíptico de falar as coisas foi sendo incorporado e, cochichavam as redações, transformado em marca que era realimentada por ele próprio. Uma faceta, quem sabe, daquilo que outro mineiro, José Maria Mayrink (Jequiri), chamou de “inocente vaidade” de Roberto Drummond. Essa expressão ficou martelando na minha cabeça até que eu entendesse que isso, essa “inocente vaidade”, explicava manias dele que não pareciam combinar com o Roberto que todo mundo conhecia – leitores e amigos. Nada grave, claro, mas coisas como começar discretamente a pintar os cabelos (e negar que o fizesse) ou diminuir a idade. Foi preciso que Roberto Drummond morresse para se saber que ele tinha 68 anos, e não os 61 que aparecem em todos os perfis e biografias oficiais, divulgadas por seus editores.

Quando liguei para o Roberto, há poucos dias, para pedir que desse uma olhada no garoto norte-americano, ele, sempre gentil, cavalheiro, respondeu que sim, com o maior prazer. A conversa não terminou antes que desse o tom gauche que ele sempre conseguia plantar, fosse qual fosse o assunto:

– Olharei pelo Charles com o desvelo de um pai que olha para um filho. Não só porque ele chega aqui por suas mãos, mas porque, ao fim e ao cabo, já está na hora de nós, e não os Roberto Campos, fazermos a cabeça dessa geração de brazilianists que vem aí, você não acha?

Espero que Charles tenha tido tempo de conhecer Roberto Drummond – se é que alguém conheceu Roberto Drummond. O pouco que conheci já está me deixando com muita saudade dele.

Fernando Morais é escritor e jornalista, autor de Olga e Chatô, o rei do Brasil. Texto escrito em 21 de junho de 2002.

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