Programação do FIT contempla produções que discutem a relação entre teatro e cinema

Estamira e Depois do filme são montagens que nasceram da sétima arte

por Carolina Braga 10/06/2012 16:19

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Emi Hoshi/Divulgação
Dani Barros leva para o teatro o discurso e a expressividade de Estamira, revelada pelo documentário de Marcos Prado (foto: Emi Hoshi/Divulgação)

Na edição que tem entre seus conceitos a ideia de fronteira, as artes cênicas não são protagonistas exclusivas do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, o FIT-BH. Além de ocupar palcos, praças e ruas da cidade até o dia 24, salas de cinema – e até mesmo telas ao ar livre – abrigarão a mostra Cine FIT.

Foi a partir da provocação de como a relação entre o cinema e o teatro aparece nas telas que o curador Ricardo Alves Jr. pautou a escolha dos 21 filmes que compõem a grade. “A programação constrói um diálogo entre as artes. Além de três espetáculos terem relação direta com o cinema (Estamira, Depois do filme e O idiota), pensamos em trazer filmes que discutissem a mises-en-scène teatral”, explica.

Veja galeria de fotos de alguns dos espetáculos que estarão em cartaz


O Cine FIT pode ser dividido em duas partes. Até o próximo domingo, dia 17, o telão do projeto Cinearte Sarau exibirá, em oito regionais de Belo Horizonte, o longa O palhaço, dirigido por Selton Mello. “Acreditamos que a rua é um lugar para todas as idades. Avaliamos que O palhaço é um dos grandes filmes brasileiros com capacidade de relação direta com o público”, avalia Ricardo Alves Jr. A sessão ao ar livre e com entrada franca será sempre às 20h.

Consulte no mapa virtual onde serão os espetáculos do FIT BH 2012

A partir do dia 18, o Cine FIT se transfere para o Cine Humberto Mauro, onde entrarão na programação longas de Portugal, Japão, Itália, Taiwan, Chile, Polônia e Estados Unidos, além de duas produções franco-belgas e uma co-produção entre Brasil, Inglaterra e Suíça. Os filmes selecionados também pontuam a discussão sobre as fronteiras. Um dos bons exemplos dos limites entre ficção e realidade é Estamira – Beira do mundo, monólogo da atriz Dani Barros, dirigido por Beatriz Sayad.

A inspiração da peça veio da personagem Estamira, trabalhadora do lixão de Jardim Gramacho (RJ), retratada pelo cineasta Marcos Prado no documentário Estamira. “Foram muitas noites de insônia pensando: ‘como eu vou fazer essa mulher? Ela já é incrível, o filme é perfeito, já está lá, como vou colocar isso no palco, sem Gramacho?’. Foi muito trabalho. Foi um processo que durou entre janeiro e outubro do ano passado”, lembra a atriz.

Apesar da fidelidade da peça ao filme, é curioso observar as duas obras de arte, justamente para perceber as sutilezas dos criadores de cada uma das linguagens. No caso da peça, chama atenção não só a interpretação de Dani Barros, que é impressionante, mas também a forma como ela se apropriou da narrativa, seja na forma de falar ou no conteúdo expresso pela personagem real.

“Também me exponho na peça. Não faria muito sentido colocar só a Estamira, porque tinha muitas coincidências que ligavam nossas vidas. Quando vi o filme, identifiquei nele coisas que gostaria de dizer há muito tempo”, recorda a atriz. A obra de Marcos Prado serviu como ponto de partida para o processo de construção da dramaturgia teatral. “Fizemos um trabalho de desmembrar o filme. Montamos uma maquete com as cenas e fomos pegando os trechos da Estamira que a gente mais gostava. Assim percebemos que a poesia e as profecias dela são tão bonitas que outros personagens ficariam sem lugar”, detalha.

Dani Barros conheceu Estamira pessoalmente em fevereiro de 2011, quatro meses antes da morte dela e oito meses antes da estreia da montagem. Os encontros com a catadora de lixo também influenciaram a escrita do texto, que inclui trechos de obras de artistas como Nuno Ramos. “Assisti muito ao filme, mas houve um momento em que tive que parar para ter um pouco mais de liberdade e não ficar muito do jeito dela”, conta. Estamira, o filme, será exibido no Cine FIT, dia 23, às 20h. Os ingressos para a peça já estão esgotados.

Bananeira Filmes/Divulgação
O palhaço , de Selton Mello, terá exibição gratuita (foto: Bananeira Filmes/Divulgação)

CINE FIT
O palhaço
Terça-feira, pátio da Igreja de Santa Beatriz (Rua Machado de Assis, 751, Bairro Londrina, Santa Luzia); quarta-feira, Parque Jacques Cousteau (Rua Augusto José dos Santos, 366, Bairro Betânia); quinta-feira, campo de futebol em frente ao Centro Cultural São Bernardo (Rua Edna Quintel, 320, Bairro São Bernardo); sexta-feira, Praça Duque de Caxias (Rua Mármore, Bairro Santa Tereza); sábado, Praça Nova da Pampulha (Avenida Otacílio Negrão de Lima, ao lado da Igreja da Pampulha); domingo, dia 17, Praça JK (Avenida Bandeirantes, Bairro Sion).

Cine Humberto Mauro
La Fèe (dia 18 às 17h e dia 23, às 16h); Rumba (dia 18 às 21h e dia 24, às 18h); Juventude (dia 19, às 17h); Édipo (dia 19, às 19h); Boca de ouro (dia 19, às 21h); Mãe e filha (dia 20, às 17h); Post mortem (dia 20, às 19h); Good bye dragon inn (dia 20, às 21h); Uma rua chamada pecado (dia 21, às 17h); Cinzas de Deus (dia 21, às 19h30); Sangue do meu sangue (dia 21, às 21h); Moscou (dia 22, às 17h); Testemunha 4 (dia 22, às 19h); Idiota (dia 22, às 21h); Glass lips (dia 23 às 18h e dia 24, às 20h); Estamira (dia 23, às 20h); A fusão do cinema e da dança: o processo (dia 23, às 22h); Evoé (dia 23, às 23h); A cidade é uma só? (dia 24, à 1h); Trabalho de actriz/Trabalho de actor (dia 24, às 16h).

QUER UMA DICA? “Minhas maiores expectativas estão em Abito, do Fondazione Pontedera Teatro, por ser um grupo exponencial do teatro europeu e mundial; Gólgota Picnic, do Rodrigo García, por trabalhar com várias linguagens; e Tercer Cuerpo, do Grupo Timbre 4, de quem tive boas referências. E, claro, estou com uma vontade muito grande de rever Romeu e Julieta, do Galpão, quase 20 anos depois de tê-lo visto pela primeira vez.”
Cláudio Costa Val, roteirista

“Entre as coisas que vou ver destaco a performance de Olivier de Sagazan. Nascido no Congo e radicado na França, ele é um artista plástico que cria imagens alucinantes no próprio corpo. Quero muito vê-lo ao vivo.”
Rômulo Romeu, ator

“Espetáculos imperdíveis são The Theatre, do Farm in the Cave, um grupo internacionalmente reconhecido pelo trabalho em teatro físico e que se baseia no cavalo-marinho e no maracatu para esse espetáculo, Umnenhumcemmil, do grande ator brasileiro Cacá Carvalho, e, por fim, Romeu e Julieta, que fez do Grupo Galpão o que ele é hoje.”.
Juliana Birchal, atriz

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