Genival Tourinho lança o livro Baioneta calada, baioneta falada

Obra será lançada nesta segunda-feira no salão de recepções do Tribunal de Contas de Minas Gerais

por João Paulo 07/05/2012 09:44

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Marcos Michelin/Em/D.A Press
Genival Tourinho relembra passagens de sua juventude em Belo Horizonte e fala da relação com JK, Brizola e Tancredo Neves (foto: Marcos Michelin/Em/D.A Press)
O mineiro é bom de memória, tendo dado à literatura brasileira seus mais importantes estilistas do gênero, Pedro Nava à frente, seguido das poderosas rememorações em verso de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes. A inclinação para relembrar a vida vem sempre acompanhada do gosto pela reflexão e pela busca do sentido do tempo. O advogado e ex-deputado Genival Tourinho, que lança nesta segunda-feira seu Baioneta calada, baioneta falada, um catatau de 600 páginas recheado de lembranças de seus 79 anos, não é propriamente um estilista da memória, sendo mais um homem de ação. E é por isso que seu livro tem tudo para se tornar uma boa referência sobre a vida social e política de Minas Gerais: Genival não enfeita, não se desculpa nem perde a sinceridade. Um livro que retrata a personalidade do autor.
Na verdade, o trabalho é uma espécie de esforço coletivo em que a voz de Genival surge a partir do diálogo com as historiadoras Lígia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Freitas, além da intervenção do amigo Vicente Flores. Com isso, o estilo também varia, indo da prosa confessional em primeira pessoa ao relato de feição mais acadêmica, sobretudo na recuperação do contexto político. Em algumas passagens Genival é autor, em outras aparece como personagem principal.
 Além disso, o trabalho traz ainda farta documentação e trechos de artigos de jornais, discursos e registros oficiais. O resultado é um livro que varia da confissão ao estudo histórico, sem deixar de lado momentos saborosos da vida do autor. Homem irreverente, Genival Tourinho protagoniza momentos curiosos tanto na vida pública quanto em sua banca de advocacia. Sem deixar de irradiar o calor humano em suas relações com amigos e destilar sua impaciência e sarcasmo no trato com os adversários.
O título do livro, emprestado de Oswald de Andrade, deixa claro que o veio principal é o chumbo grosso da política. Genival Tourinho tem muita história para contar. Relembra sua proximidade com Juscelino Kubitschek, a quem apoiou desde a campanha para o governo de Minas e seguiu pela vida afora até os momentos de ostracismo do ex-presidente; testemunha fatos hediondos da ditadura militar, como a tortura e morte de presos políticos; recupera a memória da luta pela anistia; dá depoimentos sobre a organização da vida partidária brasileira depois da experiência forçada do bipartidarismo, com o surgimento de dezenas de siglas e disputa pelo legado trabalhista; e traz de volta a polêmica Operação Cristal, movimento de extrema-direita comandado por generais, cuja denúncia o levou à condenação pela Justiça e à inelegibilidade.
As ações políticas são sempre descritas em sua relação intensa com as pessoas, dos companheiros aos oponentes. Genival oferece perfis sempre interessantes e muitas vezes irreverentes de nomes como Bias Fortes, João Goulart, Darcy Ribeiro, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Carlos Lacerda, Hélio Garcia, Renato Azeredo e Ulysses Guimarães. Não esconde suas antipatias, com Geisel à frente. Como relata em curioso episódio que começou numa entrevista a um jornal e terminou numa acalorada sessão do Congresso, na qual argumentou sobre o então general-presidente: “Ele tem vocação prussiana, que não se coaduna com o temperamento aberto e transigente do povo brasileiro”. Não faltam bastidores e histórias saborosas, bem ao gosto da política mineira.
Época Se o domínio principal da narrativa é dado pela atuação política, nem por isso o livro deixa de evocar a atmosfera moral de outros tempos, em registro mais literário e ameno. O autor retrata episódios da vida de uma Belo Horizonte ainda provinciana, com seu moralismo hipócrita que fazia conviver excessos da religião e zona boêmia; fala da educação e do rigor dos colégios internos, com retratos de professores que fizeram história na cidade, como Arthur Versiani Veloso e Antônio Lara Resende; relembra as lições da Faculdade de Direito e de seus mestres Alberto Deodato e Amílcar de Castro, entre outros.
O autor também recupera a crônica de sua Montes Claros natal, com seus personagens e mitos, como a brava Tiburtina Andrade Alves, que fez um trem voltar em marcha a ré até Bocaiúva, depois de um tiroteio que marcou a vida da cidade; analisa a tendência renitente ao coronelismo no “setentrião mineiro”, sobretudo nos grotões; repassa suas referência culturais, do católico Jacques Maritain à literatura socialista; narra várias demandas em que atuou na barra dos tribunais. Genival Tourinho não deixa de lado nem mesmo aspectos muito pessoais de sua vida – alguns mesmo íntimos –, como a reforçar sua disposição de dizer toda a verdade.
Baioneta calada, baioneta falada é livro que traz momentos muito próximos da vida política brasileira. Como se acompanha hoje no amplo e polêmico debate em torno da criação da Comissão da Verdade, são fatos – como a identificação de torturadores – que ainda teimam em se manter na surdina e são pouco conhecidos das novas gerações. Ao relembrar as estratégias de silenciamento e intimidação que sofreu por parte da ditadura militar, Genival presta um serviço à memória brasileira. E mostra que lembrar, essa obsessão dos mineiros, diferentemente do que se pensa, serve mais ao presente que ao passado.
Baioneta calada, baioneta falada, lançamento do livro de Genival Tourinho, nesta segunda-feira, dia 7, às 19h, no salão de recepções do Tribunal de Contas de Minas Gerais, Avenida Raja Gabaglia, 1.305, Luxemburgo.


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