Escritor oferece autoajuda às avessas em Livro de receitas para mulheres tristes

Livro é do colombiano Héctor Abad

por Diário de Pernambuco 25/04/2012 15:30

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(foto: Reprodução)
O colombiano Héctor Abad desejava escrever um mau título de autoajuda. Um texto literário destinado ao fracasso, ou ao antididatismo, justamente nas sendas onde o resultado se exigia final. Saiu-se com o Livro de receitas para mulheres tristes (Companhia da Letras, 141 páginas, R$ 32), sua última obra lançada no Brasil. Nela, constrói um tratado culinário sobre a felicidade, sobre a passagem do tempo, sobre a morte, sobre os fortes ou discretos temperos do amor. Suas receitas não confiam em seus resultados e, talvez por isso, Abad tenha encontrado um caminho certeiro para o lirismo. “Como aprender a viver e conviver com mais felicidade?”, poderiam se perguntar as leitoras ou os leitores diante de um título cheio de promessas… É quando o autor de Ausência do que seremos recoloca a pergunta com a delicadeza dos pratos mais sofisticados: a vida melhor vivida, por vias da palavra, seria antes uma questão de desaprendizagem. A dedicatória (“Para minhas cinco irmãs, ou melhor, para minhas seis mães”) poderia oferecer um falso ponto de vista para o narrador. Familiar. Abad prefere pensá-lo como uma amante inocente, um Don Juan aposentado, que não mais se deita com as figuras de sua interlocução. É para elas (e para os homens delas) que falará como reagir ao assédio das moçoilas casamenteiras (“por acaso é um mal a solteirice?”). Como responder em caso de insucesso do parceiro na cama (“Só o amor da amada curará o amante”). No entanto, é antes da “ausência que seremos” (esse belo verso de Borges que Abad tomou do guardanapo ensanguentado posto no bolso do paletó de seu pai assassinado), que nos chega a melhor chave para Livro de receitas para mulheres tristes. Lembra o escritor que as mudanças mais importantes de nossas vidas acontecem de modo quase imperceptível.  Que não vale se preocupar com problemas que um chá da camomila não possa resolver. E que o amor é o ingrediente principal das receitas que querem saciar a fantasia e mitigar o assombro da morte.

Entrevista >> Héctor Abad Seu livro de receitas me pareceu uma resposta (irônica, talvez) àqueles muito populares (no século 19 e começo do 20) manuais de “amor e felicidade no casamento”. Inspirou-se em algum formato já existente? Imagina um(a) leitor(a) ideal? A ironia consiste em fazer um livro de autoajuda que não sirva: um livro de autoajuda inútil. No fundo, a literatura é isso: algo que não é didático, que não te ensina modelos de vida, que não te diz como viver, como amar, como morrer, mas que, sem querer, talvez, ajude um pouco a essas mesmas coisas. Os manuais antigos e os livros de autoajuda confiam em seu resultado; meu livro não confia. Entretanto, algumas das receitas podem ser feitas, e não são comidas ruins. E as situações de que falo no livro são normais na vida: infidelidade, matrimônio, desamor, importância, morte, doenças. Me inspirou, sobre tudo, a vida, mas também a literatura: o título segue o mesmo procedimento do humorista Max Beerbohm (Contos fantásticos para homens cansados); Julio Cortázar fez receitas poéticas deste tipo; e sobretudo me inspirei na Arte de amar, de Ovídio, que é um livro que parece não haver envelhecido, dois mil anos depois de escrito. Colecionou problemas ou tristezas? Como o título foi definido? Escrevi estando doente, na cama, e suponho que isso influiu. Eu sabia que não ia morrer, mas sabia também que a vida era muito frágil, e que mais valia tomá-la com certo humor, para não morrer de tristeza. A coleção de situações a que alude o livro foram surgindo espontaneamente. Gosto muito de conversar com as mulheres; cresci numa casa cheia de mulheres; senti sempre uma curiosidade extrema pelo mundo feminino e, ainda que homem, irremediavelmente, esse mundo distante e dificilmente compreensível sempre me fascinou. Foi ajudado por algumas mulheres tristes? Fui ajudado por minha orelhas: as mulheres falam, falam, falam e eu ouço, ouço, registro, copio. Se há algo que não entendo bem, pergunto. Sigo sem entender. De toda maneira, anoto o que me dizem. Um escritor é como um radar que passeia por aí: seu mundo é o alheio, filtrado por sua sensibilidade e sua consciência. Como as mulheres que você conhece receberam Livro de receitas para mulheres tristes? Geralmente com riso e cumplicidade. Algumas feministas se ofenderam, achando que eu tentara me apropriar de territórios estranhos. Umas poucas protestaram porque não podiam conseguir todos os ingredientes para fazer as receitas. Enfim, em qualquer livro há muita reações. Este livro foi publicado em espanhol, há muitos anos, em uma edição privada, e teve muitos avatares. Uma vez a tradução italiana foi oferecida como presente a todos os convidados de um casamento, na Sicília. A velha edição de Sellerio era linda. Tão bonita como esta nova, a última, da Companhia das Letras, com essa bela ilustração de capa. Um livro sobre (grandes e pequenos, raros e frequentes) sofrimentos femininos, escrito por um homem. Como você imagina a figura do seu próprio narrador? Um irmão? Um pai? Um amigo? Um amante? O narrador, quando imaginei o livro, era um velho mulherengo fora de cena: um Don Juan aposentado. Nessa época eu tinha pouco mais de 30 anos. Agora tenho pouco mais de 50. Alguém escolhe o narrador não segundo o que é, senão segundo o que imagina que pode vir a ser. Quando era jovem, escrevia do ponto de vista dos velhos. Agora, que estou nas vésperas da velhice, gosto mais de escrever do ponto de vista de um jovem ou de uma criança. O importante é não ser um mesmo, porque ser sempre um mesmo é muito chato. Em todo caso, nesta Culinaria (o título original é Tratado de culinaria para mujeres tristes) a voz parecia mais a de um velho amante com quem já não se deita; com aquele com o qual jamais se voltará a deitar. Um velho amante que se tornou inocente, além do bem e do mal. Pensa que essas figuras de interlocução mais franca andam ausentes no universo da mulher contemporânea? Não, espero que não e creio que não. Pelo menos a minha experiência diz que as mulheres buscam - e se tem sorte encontram - um interlocutor sincero, aberto, mas sobretudo com orelhas. O grande problema entre homens e mulheres é que estamos interessados em orifícios distintos: os homens buscam você sabe qual orifício; as mulheres buscam o orifício de um ouvido que as escute. Qual receita lhe custou mais escrever? Qual foi a mais simples? Já não me lembro. O livro, para mim, agora, parece que foi um divertimento de um jovem sem cabelos brancos que já não sou eu. O escreveu uma pessoa que compartilha comigo uma só coisa: chamava-se com meu próprio nome.  Trecho do livro:Há dias em que as mulheres amanhecem lindas e dias em que seria preferível nem levantar. Isso acontece com todas, e o mal não está nos olhos. A pele é caprichosa e altera as feições a seu bel-prazer. Pouco importa que as pessoas continuem a reconhecê-la. Você sabe e eu sei que há dias em que você não é a mesma. O tempo às vezes corre para frente (você se vê mais velha), e às vezes volta para trás. Os dias de cara ruim, aproveite-os em tarefas de recolhimento; os dias de cara boa, aproveite-os sem mais.” Livro de receitas para mulheres tristes, página 42



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