Nova geração de artistas populares de Minas Gerais se destaca no cenário brasileiro

Para especialistas, é importante separar o bom artesão do criador com originalidade

por Sérgio Rodrigo Reis 10/04/2012 10:34

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Marcos Michelin/EM/D.A Press
Trabalho de Vanilson dos Santos, de Nova Serrana, tem conquistado interesse entre colecionadores de arte (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
O artista plástico José Alberto Nemer dirigia pela Rua Santa Rita Durão, perto da Praça da Liberdade, quando viu da janela vários quadros enfileirados. Feitas pelo então lavador de carros Valmir Silva, a maioria das pinturas eram cópias de naturezas-mortas conhecidas, mas uma em especial exibia forte originalidade. 
Quando começou a conversar com Valmir veio à tona a difícil história de quem, entre a lavagem de um carro e outro, usava material precário para pintar. “Chamei um empresário para me ajudar a ajudá-lo. Fomos  a uma loja e fizemos um estoque de telas, tintas e pincéis. Cada vez que ele terminava os quadros, comprávamos a produção.” O incentivo mudou a vida de Valmir, que parou de lavar carros, abriu um ateliê e virou artista reconhecido, inclusive vencendo a concorrência da Galeria de Arte da Cemig, ano passado, entre 180 inscritos. Nem todos os artistas populares de Minas têm mesma sorte.
À exceção de nomes locais com projeção nacional como dona Isabel e suas bonecas de barro, Ulisses e as figuras de argila antropomórficas, Artur Pereira e os animais e presépios e o escultor GTO com suas mandalas, poucos são os artistas populares que viraram objeto de desejo de galeristas, colecionadores e críticos. 
A falta de políticas públicas de reconhecimento dessa produção, não raras vezes, interrompe carreiras brilhantes. Muitos, em vez do ofício da criação, como têm origem humilde e precisam sobreviver, deixam o talento de lado ou relegado às horas vagas para se dedicar a outras ocupações. Exemplos não faltam. “Tem sido cada vez mais raro encontrá-los. A vida dos artistas populares é árdua e, para sobreviver, eles têm que ter vários empregos. Assim não sobra tempo para produzir e dar continuidade aos trabalhos”, lamenta a pesquisadora e especialista em arte popular Germana Moro Chaves. Apesar das dificuldades, Minas ainda continua surpreendendo na área. 
A maioria dos artistas populares tem origem em ofícios variados ou no artesanato e, entre uma criação e outra, usa a habilidade e a criatividade para distanciar sua produção de seus pares. “É o grau de invenção que eles colocam no que fazem e o processo criativo peculiar de uma fatura que os tornam únicos”, sugere Nemer. 
O pedreiro e escultor Vanilson Santos é um deles. Morador de Nova Serrana, dedica os fins de semana à criação de cabeças entalhadas em madeira, que têm chamado atenção do mercado. São como autorrepresentações, exibem nariz achatado, boca forte e uma expressão carregada. “Mesmo quando faz mulheres, elas se parecem com ele. São esculturas bastante autênticas. Pena que tem produzido cada vez menos”, conta Germana.
Além do Vale do Jequitinhonha, região com forte tradição de artistas populares, há nas outras partes do estado criadores que, mesmo com as dificuldades, usam a madeira, o ferro, a pintura e a argila como forma de expressão. Numa das visitas a Raul Soares, sua terra natal, Joubert Cândido, que desde 2003 pesquisa arte popular e artesanato, ouviu de conhecidos sobre as esculturas de José Paulo. “Me falaram que estava fazendo algumas coisas esquisitas... Coisa da doido! Quando vi, fiquei admirado com a originalidade.” 
O que o despertou na criação de José Paulo, que vive em Bicuíba, distrito de Raul Soares, é a maneira rude e inventiva como entalha. “Só não trabalha mais por causa da desesperança com a arte. Não crê que possa ganhar dinheiro com esse trabalho.” O especialista tem outra avaliação e vê perspectiva para o artista. As esculturas, iniciadas sem maiores pretensões – como um santo feito de um pedaço de pau – começaram a chamar atenção dos vizinhos.
Além do artesanato Assim como o escultor José Paulo, existem outros artistas espalhados em Minas Gerais e no Brasil que ainda vivem no anonimato e não foram “descobertos” pelo mercado de artes visuais, colecionadores ou críticos. Não é tão simples encontrá-los. Um dos maiores desafios tem sido distinguir o que nasce de um bom artesão daquilo que vem de um artista popular. Ambos têm a mesma origem: os ofícios. Mas o artista atua em outro nível de investimento criativo e de invenção. “É isso, como tantas outras coisas nessa área das relações entre criação e fruição, que gera os equívocos, inclusive institucionais, quando se monta exposição – ou até museu – em que o objeto museológico não tem a autonomia qualitativa da arte”, analisa José Alberto Nemer. 
Jair Amaral/EM/D.A Press
O pesquisador Joubert Cândido destaca obras dos artistas José Paulo e Marcos Moura (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Do mesmo modo, segundo ele, há muito pouco interesse científico nas criações que se replicam a partir de uma matriz, como as que se seguiram ao sucesso de nomes como Vitalino, dona Isabel, Julião, GTO ou Artur Pereira. “É compreensível que um artista popular que se afirma no circuito e no mercado tente passar para seus descendentes o modus operandi de sua criação, pois todos vêm de uma tradição do fazer movidos pela sobrevivência elementar e não têm, pelo menos no início, a consciência e nem a pretensão de tornar aquela obra uma afirmação do ego, de sua individualidade”, analisa Nemer.
Para a constituição do acervo do Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, um dos principais critérios adotados por José Alberto Nemer, um dos responsáveis pelo trabalho, foi ir direto às referências matriciais, e só a elas. “Não nos interessava – antropológica e cientificamente falando – abordar escolas, como as que derivaram de artistas-inventores. Os seguidores, que perpetuam os mesmos modelos de um criador, o fazem, certamente, por necessidade financeira. Mas o mercado é desinformado ou cínico”, ataca.


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