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CRÍTICA

'Convenção das bruxas' vai da elegância à completa crueldade

Difícil priorizar os nomes estelares por trás da mais recente produção assinada por Robert Zemeckis, diretor de filmes memoráveis como Forrest Gump e da trilogia De volta para o futuro. Claro que, antes de mais nada, vale destacar a estrela Anne Hathaway, no protagonismo de Convenção das bruxas. A Grande Rainha das Bruxas, o papel por ela desempenhado, abre um portal de possibilidades: da insanidade à sensualidade, Hathaway (que esteve em O diabo veste Prada) capricha nos trejeitos e na voz esganiçada, e alterna ainda discursos inflamados e bizarros à semelhança de um Adolf Hitler. É ela quem lidera o elenco das grotescas bruxas que guardam obsessão em esmagar seres que tanto detestam: as crianças.



Numa narração inicial do filme, um personagem pontua a premissa do longa, e que espalha pavor entre os pequeninos: bruxas estão entre todos e circulam, livremente, misturadas às pessoas normais. Aos moldes de demônios, as bruxas recolhem garras por debaixo das luvas, não têm dedos nos pés, são carecas, sofrem com brotoejas e ostentam narinas alargadas. Entre habilidades, detectam as crianças que tanto detestam.

Em termos de produção, o filme traz prato cheio para Zemeckis (cultivador de efeitos especiais e criador de filmes sombrios como A morte lhe cai bem), que ainda está acompanhado de colaboradores como Guillermo del Toro (de A forma da água) e Kenya Barris (de Black-ish), ambos coautores do roteiro que bebe da literatura de Roald Dahl, autor morto há 30 anos. Criador do premiado Roma, o produtor Alfonso Cuarón também é chamariz para o terror infantil, recheado de aventura e comédia.

Entre os pirralhos repugnantes, aos olhos das vilãs do novo filme, está o órfão interpretado por Jahzir Bruno. Ele é que, desavisado, vai despertar um verdadeiro jogo de gato e rato com as bruxas reunidas num resort, durante um encontro destinado ao planejar de uma gama de maldades contra crianças. Como estratégia, se juntam para transformar pequenos inocentes em ratos.



Grosso modo, para quem assistiu a uma adaptação estrelada pela talentosa Anjelica Huston (nos idos de 1990), há significativas mudanças no contexto social do filme, com abrangência de representatividade. Toda a ação, antes transcorrida na Inglaterra, agora traz Chicago e o Alabama (há, por isso, implemento de questões raciais) como cenários. Na sequência, há passagem para o Golfo do México, reconhecido pela riqueza étnica. A magnética atriz Octavia Spencer (de Histórias cruzadas) entra em cena como a avó do menino, uma tutora com vocação de conselheira e curandeira.

Por fim, Convenção das bruxas parece trazer uma mistura de fitas como Alvin e os Esquilos, Ratatouille, e, sim, Venom, com a malévola persona de Anne Hathaway destilando crueldade, a meio passo de composição repleta de movimentos sinuosos e levitação, que ecoa de um transtorno à la Smeagol ao chique de Catherine Deneuve. Melhor de fato, como prega o filme, não aceitar doces de estranhos ou sedutoras estranhas.