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Trans decide viver na tela do cinema o romance que falta na vida real

No final do monólogo documental 'Lembro mais dos corvos', a atriz Julia Katharine anuncia que, em breve, fará seu próprio filme. E será uma comédia romântica, uma maneira de compensar, no cinema, a ausência de romance em sua própria vida.

Lançamento desta semana do projeto Sessão Vitrine, com uma sessão diária (19h30) no Cine Belas Artes, em Belo Horizonte, 'Lembro mais dos corvos' é o primeiro longa-metragem do realizador paulista Gustavo Vinagre. O filme retrata uma noite na vida de Julia Katharine, também atriz de três curtas do diretor.

Nas sessões, após a exibição do longa, será apresentado o curta Tea for two, projeto de estreia de Julia Katharine como diretora. Este é o primeiro curta de uma realizadora trans a chegar ao circuito comercial do Brasil. E, tal como prometido, é uma comédia romântica.

A história de Gustavo Vinagre e Julia Katharine tem início uma década atrás, no festival Mix Brasil, maior evento LGBT da América Latina. Ele era estagiário do Mix Brasil; ela, secretária. O cinema acabou sendo a base da amizade, interrompida quando Vinagre foi estudar na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba, e Julia se mudou para o Japão.

Retomaram a amizade muito tempo depois, quando Vinagre já dirigia curtas. De alguns deles Julia participou.
“Um dia, a gente estava em uma reunião com outras pessoas e a Julia começou a contar histórias dela. Percebi que já tinha escutado aquilo várias vezes, mas que ainda me sentia muito interessado”, conta Vinagre. Foi nesse momento que ele decidiu fazer dela a personagem de seu primeiro longa.

Em Lembro mais dos corvos, o espectador assiste às passagens da vida de Julia contadas pela própria, enfocada em primeiro plano o tempo inteiro. A equipe – ao todo oito pessoas, a maioria delas mulheres – filmou no apartamento da atriz durante uma noite. Foram oito horas de filmagem, iniciando quando ela fala que sofre de insônia e terminando com o nascer do sol. Na edição, foi mantida a ordem cronológica da noite. Houve poucas tomadas repetidas – a maior parte do material que entrou no filme foi rodado uma única vez.

A presença exclusiva de Julia só é interrompida algumas vezes pela voz de Vinagre, que intervém quando ela pergunta alguma coisa para ele.
“Eu queria criar um ambiente de intimidade, tanto que levei para a equipe pessoas que se sentissem próximas a ela. A intenção (com o filme) era fazer um retrato íntimo dela, tirá-la do lugar em que colocam as mulheres trans, de prostituição, da rua”, explica o diretor.

INFÂNCIA Para a câmera de Vinagre, Julia relata, por vezes com bom humor, noutras com pesar, boa parte de seus 40 anos. A infância, quando foi abusada, dos 8 aos 14 anos, por um tio-avô (situação da qual se conscientizou apenas mais tarde); a dificuldade de relacionar-se com a mãe e com os homens; a temporada que viveu no Japão, onde passou meses morando na rua; e, principalmente, sua paixão pelo cinema.

Julia não estudou porque ficou traumatizada quando levou uma surra de colegas ao afirmar que havia sido abusada por um professor. Sem condições de ir à escola, descobriu nas videolocadoras o cinema. Admite que levou para casa vários filmes de cineastas como Ingmar Bergman e Rainer Werner Fassbinder porque ninguém os alugava. É fanática pelas premiações da indústria americana, tem Nicole Kidman como ídolo e acha que o cinema lhe permite viver o que não consegue na vida real.

Lembro mais dos corvos foi apresentado em 2018 na Mostra de Tiradentes, de onde Júlia saiu com o prêmio Helena Ignez para destaque feminino. No mês passado, ela retornou ao evento na cidade histórica, levando Tea for two, exibido na mostra Foco. No curta estão em cena três mulheres: Silvia (Gilda Nomacce), uma cineasta em crise que é surpreendida pela visita da ex, Isabel (Amanda Lyra), que lhe pede para voltar.
Só que, ao conhecer uma vizinha trans (a própria Julia Katharine), ela acaba fascinada.

“Como nunca fiz nenhum curso, tenho aprendido (cinema) na prática. Os sets têm sido minha escola”, diz Julia, que também fez uma pequena participação no longa Crime delicado (2005), de Beto Brant. “Foi mais difícil fazer Tea for two do que me expor em Lembro mais dos corvos. No curta, tive que lidar com muitas expectativas e o filme, no meio do processo, se tornou muito maior do que eu imaginava”, diz ela, que se prepara para filmar, na raça (ou seja, sem patrocínio) seu longa de estreia.

A família valente será um drama, segundo Julia. Gilda Nomacce fará novamente o papel da protagonista na narrativa, que vai acompanhar uma família de atrizes. “Como o projeto não está em nenhum edital, será um filme de guerrilha feito por amigos. No momento em que vivemos, de desmantelamento cultural, não quero que esse projeto se perca. Tenho urgência, pois sou uma mulher trans no país que mais mata travestis e transexuais no mundo”, afirma..