'Green book' mostra como o racismo frustrou carreira de pianista negro

Candidato ao Oscar de melhor filme, o longa de Peter Farrelly acompanha o motorista branco Tony Lip (Viggo Mortensen) conduzindo o pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali) numa turnê pelo Sul segregacionista dos EUA, nos anos 1960

por Agência Estado 06/02/2019 08:50
UNIVERSAL PICTURES/DIVULGAÇÃO
Viggo Mortensen interpreta o motorista Tony Lip, que conduz o pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali) numa turnê pelo Sul do Estados Unidos, nos anos 1960 (foto: UNIVERSAL PICTURES/DIVULGAÇÃO)
Adolescente no gueto negro de Watts, em Los Angeles, Charlie Mingus (1922-1979) queria aprender a tocar violoncelo, mas levou um cascudo de seu professor, que o obrigou, aos 16 anos, a trocá-lo pelo contrabaixo, este, sim, “instrumento de negro”.

E o que dizer do piano, instrumento “clássico” por excelência? A discriminação era ainda mais forte. Nina Simone (1933-2003) queria ser concertista, mas foi devidamente bloqueada.

O caso mais recente a se transformar em foco das atenções da mídia por causa do filme Green book: o guia, concorrente ao Oscar deste ano, é o do pianista negro Don Shirley (1927-2013).

Nascido em Pensacola, na Flórida, de pais jamaicanos, ele queria ser pianista clássico. Aos 18 anos, solou o famoso Concerto nº 1 de Tchaikovski com a Boston Pops. Mas o empresário Sul Hurok – o mesmo que incentivou a contralto negra Marian Anderson a quebrar preconceitos e vencer na carreira de cantora lírica – só faltou dar um cascudo em Shirley para fazê-lo desistir.

Apenas porque resgatou do limbo esse notável pianista negro, que, mesmo assim, insistiu em fazer música ao mesmo tempo norte-americana e clássica, como afirmou em entrevistas antigas, Green book já tem um forte significado simbólico. Até porque o destino de Shirley foi menos glorioso do que o de Mingus ou Nina Simone.

Don ficou ensanduichado entre os dois gêneros numa época em que eles eram rigidamente compartimentados. O Carnegie Hall, aberto graças à elite nova-iorquina na década de 1890, só recebeu sua primeira apresentação de música popular em 16 de janeiro de 1938 (o célebre “concerto” da big band de Benny Goodman, então coroado o “Rei do swing”).

TRIO Determinado, Shirley impôs sua estética híbrida e gravou bastante entre os anos 1950 e 1980. Seu trio já era bizarro para os padrões, mesmo os de hoje: piano, violoncelo e contrabaixo. Ouça no YouTube duas performances arrebatadoras: de Georgia on my mind e, sobretudo, I can’t get started.

Nesta última, ele constrói uma fuga com absoluta densidade, opera o milagre de fundir formas clássicas com um swing refinado. Tudo de extremo bom gosto e nunca banal, sempre essencial. Hoje com 29 anos e vencedor do Concurso Thelonious Monk aos 21, em 2011.

Kris Bowers
fez um admirável tributo a Don Shirley na espantosa trilha sonora de Green book: ele mesmo interpreta os arranjos transcritos das performances do pianista. Tudo muito bem emoldurado pelos sons diversificados da década de 1950, como hits de grupos vocais hoje esquecidos, como Blue Jays e The Blackwells. E muito mais.

Bowers só escorrega quando compõe trechos minimalistas, cacoete hoje quase insuportável de tão repetido nas trilhas. Por isso os momentos musicais mais memoráveis são as recriações de Don Shirley: Blue skies, dois minutos, e Water boy, cinco minutos – ambos pura magia e fusão erudito-popular. Se quiser ouvir mais música dele, fique com os CDs In concert e Um improviso sobre a história de Orfeu no inferno (antológico), disponíveis nas plataformas digitais.

COLE Em Green book: o guia, em cartaz em BH, há uma história lembrada em um diálogo entre os músicos de Don Shirley (Mahershala Ali) e seu motorista Tony Lip (Viggo Mortensen) que vale um outro filme. É verdade que Nat King Cole sofreu como cão nas mãos de racistas brancos dos Estados Unidos, e o que se conta no filme sobre a turnê de Shirley pelo Sul segregacionista do país é só uma parte.

Quando Cole se apresentava cantando Little girl, em 1956, em Birmingham, três homens que pertenciam ao Conselho dos Cidadãos Brancos do Norte do Alabama tentaram sequestrá-lo em pleno palco. Os brutamontes chegaram pelos corredores, subiram ao tablado, jogaram Cole de costas no chão e tentaram levá-lo. A segurança agiu rápido e conseguiu contê-los. Cole saiu com as costas machucadas e os agressores, presos. Eles acabaram condenados pela Justiça.

Antes disso, em 1948, Nat King Cole já era um astro quando sentiu o amargo do racismo pela primeira vez. A casa que havia comprado em um condomínio luxuoso de Los Angeles foi alvo da Ku Klux Klan, que ameaçou sua família da forma de que mais gostava: ateou fogo a uma cruz gigante fincada em frente à sua residência. Quando os conselheiros do condomínio disseram que “não queriam pessoas indesejáveis mudando-se para lá”, ele concordou e respondeu: “Também não quero, se eu vir alguém indesejável aqui, aviso vocês”.

No Hotel Nacional de Cuba, em Havana, 1956, ainda na era de Fulgêncio Batista, Cole não pôde se hospedar no mesmo local em que cantaria, porque alegaram “restrição para pessoas de cor”. Ainda assim, fez uma grande apresentação na casa Tropicana, honrando com seus compromissos.



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