Drica Moraes se destaca em papéis de longas e grava a terceira temporada de 'Sob pressão'

Depois de interpretar mulheres fortes nos filmes 'O banquete' e 'Rasga coração', atriz viverá médica ex-presidiária em série de TV

por Estadão Conteúdo 25/12/2018 11:00
Fábio Rebelo/Divulgação
Drica Moraes e Marco Ricco no filme de Jorge Furtado: a mãe no meio do conflito entre o marido e o filho (foto: Fábio Rebelo/Divulgação)

No seu ofício de atriz, Drica Moraes não se vexa de dizer que não é somente uma observadora. “Roubo tudo, de todo mundo, se vai servir na construção da personagem.” Como assim? “É como se eu tivesse antenas. Estou sempre antenada nas coisas, nas pessoas. E quando vejo alguma coisa interessante, um gesto, um olhar, um movimento de corpo, eu anoto, pensando comigo – ‘Um dia vou usar isso.’ E em geral uso.” Quer dizer que o roteiro não basta? “O roteiro é sempre o ponto de partida. E aí tem a leitura, a conversa com o diretor, a interação com os colegas, o figurino, a locação. Tudo ajuda.”

Talvez Adriana Moraes Rego Reis, filha de um arquiteto e de uma dona de restaurante, única atriz numa família de sete irmãos, não tenha feito tantos filmes quanto gostaria, mas ela reconhece que está numa fase esplêndida. Papéis (e filmes) como O banquete, de Daniela Thomas, e Rasga coração, de Jorge Furtado, são raros.

Em Rasga coração, em cartaz no Pátio 6, Drica interpreta uma mulher no centro do conflito entre pai e filho. Na adaptação de Jorge Furtado da famosa peça de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha, ela vive a mãe. “O Jorge me disse que, na montagem que viu, a mãe era a típica dona de casa derrotada, arrastando as chinelas. Ele me disse que gostou muito da energia que eu trouxe para ela. A ‘minha’ mãe fica ali no meio da disputa entre o marido e o filho, tentando segurar a onda. Acho impressionante como esse projeto foi mudando. Há 10 anos, quando o Jorge pensou em fazer pela primeira vez, estava defasado. Entre 2013 e 2016, já era outro mundo. E, agora, entre a apresentação do filme na Mostra de São Paulo e a estreia, houve o segundo turno, a eleição do (Jair) Bolsonaro e as condições mudaram mais ainda.”

O filme retrata a política a partir de relações familiares. “Pai e filho não se entendem. O velho revolucionário, o garoto contestador, e eu ali, sofrendo pelos dois, tentando fazer a ponte. Minha personagem também teve uma vida, teve sonhos, mas está tendo de abrir mão. O texto original fala da resistência à ditadura militar, mas na perspectiva de hoje. Imagina, já tem gente dizendo que nem ditadura foi.” E de quem ela roubou essa mãe? “De mim, ora. Assim como a doença mudou muito minha percepção do mundo, a maternidade também mudou. Foram duas coisas que me fizeram lutar muito. E agora estou aqui, fazendo as coisas de que gosto. Houve um momento em que parecia que ia perder tudo. A vida tem dessas coisas. Você só não pode é desistir.”

A personagem de O banquete é uma predadora, uma mulher poderosa, que não leva desaforo para casa. “Foi meio assustador de fazer, tão diferente de mim. Mas o bom de ser atriz é isso. De repente você está fazendo personagens que não têm nada a ver com você, e tem de se entregar, de convencer.”

O banquete tem uma dramaturgia forte e diálogos muito bem escritos. “A Daniela chegou a pensar em fazer uma peça de teatro, em vez de filme.” Justamente, o teatro. “Amo fazer, foi onde tudo começou para mim, mas estou numa fase que não tem me permitido voltar ao palco. Muita coisa ocorrendo, todos esses filmes, a série. Mas estou procurando o texto, tem algumas coisas no ar”, anuncia.

Quando questionada sobre o segredo de sua beleza, ela diz não saber, mas concorda. “Tem algum mistério que eu não quero nem saber, mas também me sinto bonita. Talvez tenha a ver com tudo o que passei, com a doença, uma fase muito dura, difícil. Mas até isso ajuda. Estou fazendo uma médica na nova temporada de Sob pressão, que estamos gravando, e adivinha? Estou colocando na minha médica muito daquilo que vivi observando os médicos que cuidaram de mim.”

A temporada de Sob pressão a que Drica se refere – a terceira – irá ao ar no ano que vem. Fernanda Torres estava na segunda, e para substituir uma atriz tão brilhante, com uma personalidade tão forte, era preciso outra do mesmo quilate. Recapitulando – Fernanda entrou na série como Renata, a gestora do hospital, porque o diretor Andrucha Waddington, marido da atriz, e o roteirista Lucas Paraizo acharam importante abordar o tema da corrupção. Sai Fernanda Torres e entra Drica Morais. “O Lucas (Paraizo) criou essa médica e eu sugeri a Drica, por quem tenho a maior admiração. Já tínhamos feito o Rasga coração e eu sabia do que ela era capaz”, diz Jorge Furtado, que também integra a equipe de criação de Sob pressão. “O Lucas topou, a Drica não vacilou.”

Ela conta que sua personagem é muito forte. “O sistema de saúde pública brasileiro é essa loucura que todo mundo sabe. Os médicos têm de ser lutadores, guerreiros. É uma guerra por dia, todo dia, nos hospitais e centros de saúde precários. E a minha médica tem um passado. É ex-presidiária. Estamos justamente na fase de gravar as cenas que revelam o passado dela.” 

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