Mostra Cinema e Direitos Humanos começa nesta sexta-feira em BH com entrada franca

Décima segunda edição terá uma seleção de curtas e longas que visam promover o debate sobre os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

por Márcia Maria Cruz 15/11/2018 09:40

 12ª Mostra Cinema e Direitos Humanos/Divulgação
O documentário Waapa, sobre a infância dos yudjas, que vivem no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, integra a mostra Panorama (foto: 12ª Mostra Cinema e Direitos Humanos/Divulgação )

A polarização no cenário político brasileiro reacendeu a discussão sobre direitos humanos no país. Para celebrar as sete décadas da Declaração Universal dos Direitos Humanos e propor reflexões sobre sua implementação, a Mostra Cinema e Direitos Humanos abre amanhã (16) sua décima segunda edição com a exibição dos curtas-metragens Nós (2017), de Thiago Simas, e Do outro lado (2018), de Bob Yang e Frederico Evaristo. Os cariri-xocós, povo indígena que vive em Alagoas, participam da cerimônia de abertura.

O longa programado para a noite inaugural é Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), de Hector Babenco. A programação da mostra se estende até o dia 21, no Sesc Palladium. “A tendência de algumas pessoas é enxergar os direitos humanos como algo ideológico. É um equívoco. Queremos construir uma sociedade melhor. Acreditamos que a mostra nos faz mais humanos”, diz Beatriz Goulart, da Pimenta Filmes, que organiza o ciclo em Minas. Os filmes estão divididos em quatro seções: Temática, Panorama, Homenagem e Mostrinha.

Promulgada pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Paris, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completará 70 anos em 10 de dezembro. Em 30 artigos, o documento aponta diretrizes para o reconhecimento da dignidade de todas as pessoas, independentemente de etnia, classe social, gênero ou quaisquer outras atribuições.

A Mostra Panorama abriu convocatória para produtores de todo o Brasil. Foram selecionados filmes que tratam dos direitos de deficientes, população LGBT, pessoas idosas, população negra, população em situação de rua. Os títulos também abordam segurança pública, combate à tortura, saúde mental, cultura e educação em direitos humanos. O curta-metragem Uma bala, de Piero Sbragia, um dos selecionados, tematiza o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, no último dia 14 de março. “O curta nasceu de uma maneira bem forte. Estava dando aula quando soube da morte dela. Fiquei naquele momento de transe. O Brasil não tinha histórico de assassinato de políticos”, diz Piero.

 12ª Mostra Cinema e Direitos Humanos/Divulgação
O documentário As sementes mostra como quatro mulheres conduzem sua luta por igualdade e suas ações sociais em Minas, na Bahia, no Rio Grande do Sul e no Rio Grande do Norte (foto: 12ª Mostra Cinema e Direitos Humanos/Divulgação)


Naquele mesmo dia, o diretor contatou um amigo que havia escrito um poema para a vereadora. Ele convidou então oito mulheres para ler o poema e gravou a leitura, ainda sob o impacto do crime recém-ocorrido. “Costumo dizer que é um filme-manifesto. Estamos completando 300 dias do homicídio e não houve nenhuma solução. Não se sabe quem mandou matar Marielle”, afirma. O filme se enquadra na mostra por tratar da violência contra a mulher. “A cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil apenas por ser mulher. A ideia do filme nasceu do sentimento de incômodo e impotência diante dessa estatística. Não é um filme somente sobre o assassinato de Marielle. Fala de feminicídio e resistência.”

POVOS ORIGINÁRIOS Seguindo as diretrizes da declaração, a mostra selecionou 40 filmes. O artigo VII, por exemplo, aborda a proteção de grupos minorizados contra arbitrariedades. Monocultura da fé mostra o assédio ao povo indígena no Mato Grosso do Sul. O curta-metragem Waappa, de David Reeks, Paula Mendonça e Renata Meirelles, também joga luz sobre a cultura dos indígenas. A organizadora da mostra observa que os filmes são importantes para apresentar aspectos da cultura dos povos originários, como por exemplo a relação de proximidade deles com a natureza.

As sementes, de Beto Novaes e Cleisson Vidal, conta a história de um assentamento no Rio Grande do Norte, registrando a rotina de uma mulher que trabalha com abelhas num acampamento. “Maria dos Santos luta pela posse da terra, pela igualdade de gênero e contra a desnutrição nas áreas quilombolas na Bahia”, diz.

Enrolado na raiz (2015), de Camila Caracol, aborda a valorização de pessoas negras. A ideia do filme surgiu quando a diretora fazia seu trabalho de conclusão de curso (TCC) na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Na época, ela atuava no projeto Pérolas Negras, o que a levou a ter contato com jovens negras em municípios mineiros da Zona da Mata e em comunidades quilombolas no Pará e no Rio de Janeiro. Nascida numa família composta por negros e brancas, Camila passou a se identificar como negra depois que ingressou na universidade, o que fez com que ela tivesse mais empatia com as questões desse grupo minorizado.

CAMILA CHRISTIAN/DIVULGAÇÃO
A mineira Camila Caracol fala sobre autoimagem e aborda temas como mercado de trabalho, educação e relações afetivas com mulheres negras em Enrolado na raiz (foto: CAMILA CHRISTIAN/DIVULGAÇÃO )


“Em todos os lugares, percebia que as meninas tinham a autoestima muito baixa por não se ver representadas pelos meios de comunicação”, diz. Ela lembra que o cabelo é uma das marcas que evidenciam a negritude das pessoas. Por isso, escolheu a discussão sobre o cabelo crespo para ser o fio condutor da narrativa do curta. “No filme, as mulheres contam como sentem o racismo na vida delas. Muitas já alisaram o cabelo. Ainda trato de mercado de trabalho, educação e relação afetivas”, diz.

ANIVERSÁRIO
A Mostra Temática foca no aniversário de 70 anos da Declaração Universal, com títulos como Heróis, de Cavi Borges, que aborda a trajetória dos atletas medalhistas olímpicos Rafaela Silva, Rogério Sampaio e Popole Misenga. O filme será exibido no dia 20, às 9h. A Mostra Homenagem apresenta o trabalho do ator e diretor Milton Gonçalves, que atua em Lúcio Flávio, passageiro da agonia, A Rainha Diaba, de Antonio Carlos de Fontoura, Eles não usam black tie (1981), de Leon Hirszman, e Carandiru (2003), de Hector Babenco, entre outros.

No ano passado, a Mostra Cinema e Direitos Humanos incorporou um eixo temático de filmes voltados para o público infantojuvenil, a Mostrinha. Na edição 2018, destacam-se nessa seção A bicicleta do vovô (2012), de Henrique Dantas, que será apresentado no dia 17, às 9h, e A câmara de João, de Tothi Cardoso, com sessão no dia 18, também às 9h.

A mostra promove sessão para grupo de deficientes visuais e, numa tentativa de promover empatia com as pessoas com problemas na visão, também oferece aos demais integrantes do público vendas para acompanhar os filmes de olhos fechados. Para permitir a acessibilidade, todas as sessões contam com closed caption e, em sessões selecionadas haverá audiodescrição e tradução em libras. Os espaços onde ocorrem as exibições também têm estrutura acessível para receber os diferentes públicos. A programação pode ser acessada em braille.

12ª Mostra Cinema e Direitos Humanos
De 16 a 21 de novembro, no Sesc Palladium (Avenida Augusto de Lima, 420, Centro). Entrada franca. Retirada de ingresso 30 minutos antes das sessões. Mais informações e programação: mostracinemaedireitoshumanos.sdh.gov.br

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