Filme 'Eduardo e Mônica' quer reconciliar brasileiros separados por ideologias

Após Faroeste caboclo, René Sampaio dirige filme sobre a música da Legião Urbana que narra o improvável amor entre adolescente careta e mulher descolada

por Renato Alves 19/08/2018 08:00

Janice Moraes/Divulgação
Cena do filme com Alice Braga e Gabriel Leone rodada na Chapada dos Veadeiros (foto: Janice Moraes/Divulgação)

Além da relação improvável entre duas pessoas completamente distintas, como na música da banda Legião Urbana, o filme Eduardo e Mônica vai propor a reconciliação entre brasileiros separados por ideologias. Prevista para estrear em agosto de 2019, a obra cinematográfica, rodada em Brasília, retrata o país no período da redemocratização, em meados da década de 1980.


Saindo da adolescência, Eduardo é criado em uma família conservadora, católica, de militares. Universitária militante estudantil, Mônica frequenta a Chapada dos Veadeiros (GO), além do circuito alternativo da capital. Quando os dois se cruzam, vem o choque. Diferenças realçadas em toda a trama, com os conflitos de um amor improvável entre o jovem casal. Dilemas que remetem ao cenário do Brasil atual, rachado após a polarizada eleição presidencial de 2014.

Com tal mensagem, os responsáveis por levar a canção de Renato Russo à telona pretendem exibir uma comédia romântica com enredo denso, sem pieguice. “O filme vai mostrar como é possível divergir sem se atacar”, afirma o diretor René Sampaio. “O longa propõe, como a música, a gente se encontrar nas diferenças”, comenta Gabriel Bortolini, produtor-executivo de Eduardo e Mônica.

O longa se passa na Brasília de 1986, ano em que o álbum Dois, da Legião Urbana, foi lançado, trazendo, entre outras, a canção que fala dos encontros e desencontros do improvável casal. A esotérica Mônica, que gosta de viajar, tem amigos de perfis diversos, curte filmes de arte e mora só em um galpão ocupado longe do Centro da cidade, vai interagir com um retraído Eduardo, frequentador de grupo de jovens católicos, que tem só um amigo e passa a maior parte do dia fechado em seu quarto, na área residencial de oficiais militares.

No filme, Alice Braga e Gabriel Leone são os responsáveis por dar vida a Eduardo e Mônica. Alice se diz empolgada em interpretar Mônica. “Eduardo e Mônica é uma canção de amor atípica, que tomou de assalto toda uma geração, da qual acabou se tornando um hino. Assim como outras letras longas de Renato Russo, esta é totalmente cinematográfica”, observa. Sobrinha de Sônia Braga, Alice é conhecida pela carreira internacional, tendo participado de filmes como Eu sou a lenda (2007), com Will Smith, e Elysium (2013), com Matt Damon. Na TV, interpreta o papel principal da série norte-americana A rainha do Sul, sobre uma poderosa narcotraficante do Sul da Espanha.

Alice conta ter ouvido a canção-base para filme pela vez aos 12, 13 anos, em uma viagem por Florianópolis, no rádio do carro dirigido por Jorge Furtado, amigo de sua mãe. Gabriel diz achar que Dois “é um dos maiores discos da música brasileira”. “É a minha banda favorita. A conheci por meio dos meus pais.” O ator afirma que se sente honrado “em eternizar o Eduardo no cinema”, mas está consciente da responsabilidade. “Sei como são os fãs da Legião.”

René Sampaio já filmou boa parte do previsto. “Até agora, tudo corre como o previsto, mas, em um filme, tudo pode mudar. O roteiro pode mudar até na pós-produção. O que posso garantir é que estamos fazendo um filme de alta qualidade, que só irá para os cinemas quando ele estiver o melhor possível”, ressalta o diretor de 43 anos, responsável pela direção de Faroeste caboclo (2013), outra canção de Renato Russo adaptada para o cinema.

Um dos grandes segredos de Eduardo e Mônica, o filme, é a trilha sonora, a cargo de André Moraes, de 41 anos. Figura conhecida no mercado cinematográfico, ele compôs trilhas sonoras para mais de 30 filmes, entre eles Lisbela e o prisioneiro (2003), Meu tio matou um cara (2004) e Assalto ao Banco Central (2011). Apaixonado por rock, André costuma ter como parceira em suas obras fora das telas a banda de heavy metal Sepultura. Filho do cineasta Geraldo Moraes e irmão do diretor e ator Bruno Torres, o músico tem ainda no currículo a direção-geral do longa-metragem Entrando numa roubada (2015).

Eduardo e Mônica, o filme, expande o que se ouve em Eduardo e Mônica, a canção, defende Sampaio. “Não estamos fazendo um videoclipe para essa música”, faz questão de explicar Bianca De Felippes, a produtora do longa, que está transformando o roteiro assinado a oito mãos (Mateus Souza, Claudia Souto, Jessica Candal e Michele Franzt) em realidade na tela. Para o diretor, “todo mundo já foi Eduardo ou Mônica”. “Não só no sentido da idade”, ele diz. E cita a própria letra de Renato Russo para falar sobre a dualidade a ser tratada na telona, entre razão e coração: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”.

PRESENÇA FEMININA
Boa parte dos integrantes das equipes técnica e de produção de Eduardo e Mônica trabalhou com René Sampaio em Faroeste caboclo. São mais de 100 pessoas, entre equipe e elenco. Metade do time é mulher, algo raro no cinema nacional. À exceção de Gabriel Bortolini, produtor-executivo, toda a equipe de produção é formada por mulheres. Com um orçamento de R$ 9 milhões e financiamento garantido, Eduardo e Mônica é uma coprodução da Gávea Filmes com Fogo Cerrado, Barry Company e Globo Filmes. Distribuição da Downtown Filmes.

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