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25 filmes sobre jovens nos anos 90. Veja seleção de mostra em BH

“Leve o seu tempo, se apresse/ A escolha é sua, não se atrase”, bradava Kurt Cobain em 1992. Come as you are, canção de Nevermind, álbum do Nirvana que ditou as regras do rock produzido naquela década, tinha uma letra “contraditória”, nas palavras do próprio Cobain. Para ele, era uma canção sobre “como se espera que as pessoas ajam”.
 
O que esperar de um jovem dos anos 1990? “É uma juventude que não tem muito pelo que lutar. São jovens com alienação social e muita angústia, que vêm reforçadas pelas transformações do período”, analisa Vítor Miranda, curador da mostra Os jovens anos 90, que começa nesta sexta-feira (15), no Cine Humberto Mauro. Estarão em cartaz 25 longas-metragens, agrupados abaixo, por tema. Como diz Wonderwall (1995), canção do Oasis, “todas as estradas que temos que percorrer são tortuosas”. Ainda mais quando se é jovem. 
As virgens suicidas, de Sofia Coppola - Foto: FCS
Geração MTV 
Como esquecer Renton (Ewan McGregor) fugindo da polícia em disparada pelas ruas de Edimburgo ao som de Lust for life, de Iggy Pop? Uma das icônicas sequências do cinema dos anos 1990, a abertura de TRAINSPOTTING (1996), de Danny Boyle, era acompanhada pela seguinte fala: “Escolha uma vida. Escolha um emprego. Escolha uma carreira...
Quem precisa de motivos quando se usa heroína?” A MTV, que então ditava as regras da cultura pop, influenciou enormemente esse filme. Edição rápida, cortes bruscos, trilha sonora de primeira e muita ironia pautaram o longa, que mostrava uma geração perdida graças ao vício na mais fatal das drogas. Os mesmos artifícios estavam presentes na produção alemã CORRA, LOLA, CORRA (1998) (foto), de Tom Tykwer. A personagem-título, que trouxe fama à atriz Franka Potente, corria pelas ruas de Berlim para ajudar o namorado, envolvido com uma quadrilha de contrabandistas.
As patricinhas de Beverly Hills, de Amy Heckerling - Foto: FCS 
Primeiros filmes 
O período marcou a estreia de cineastas com obras bem distintas. Larry Clark chocou meio mundo ao mostrar a Aids chegando a um grupo de jovens recém-saídos da adolescência, em Nova York. KIDS (1995) é marcado pela crueza que se tornou a marca do diretor. Já Kevin Smith apostou no humor inteligente e despretensioso em O BALCONISTA (1994), apresentando dois personagens abestalhados – Silent Bob (o próprio Smith) e Jay (Jason Mewes) – que se tornaram recorrentes em suas produções. Com AS VIRGENS SUICIDAS (1999) (foto), Sofia Coppola calou os críticos que a massacraram em seus trabalhos como atriz.
Provou estar à altura do sobrenome que carrega. O drama sobre uma família dos anos 1970 trouxe elementos marcantes nos filmes de Sofia: protagonistas femininas, muita melancolia e forte presença da música pop. Outro estreante do período foi John Singleton, que, com OS DONOS DA RUA (1991), discutiu violência e raça a partir de jovens de um bairro negro de Los Angeles. Já VIDA SEM DESTINO (1997), de Harmony Korine, acompanha os moradores de uma cidade de Ohio atingida por um furacão.
Os amantes da Pont Neuf, de Leos Carax - Foto: FCS
Alienadas
“Você gosta de Billie Holiday?”, pergunta Christian (Justin Walker). “Amo ele”, responde Cher (Alicia Silverstone). Não saber que Billie Holiday é uma das maiores cantoras do jazz foi apenas um dos pecados da fútil loirinha cheia da grana que protagonizou a comédia AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (1995), de Amy Heckerling. A despeito da ignorância, a bem-intencionada Cher acaba descobrindo a vida real, coisa que a maléfica Kathryn Merteuil (Sarah Michelle Gellar) vai encontrar da pior maneira possível. Protagonista de SEGUNDAS INTENÇÕES (1999), de Roger Kumble, ela era a versão contemporânea da clássica personagem de As ligações perigosas (1782), romance de Choderlos de Laclos, que, nesse filme, teve como cenário a rica Nova York da década de 1990.
O vídeo de Benny, de Michael Haneke - Foto: FCS
À margem  
O cinema sempre retratou personagens marginalizados.
No recorte da mostra, a questão é tratada de diferentes maneiras. Há um casal apaixonado que vive nas ruas de Paris – OS AMANTES DA PONT-NEUF (1991) (foto), de Leos Carax; dois jovens que se prostituem nas ruas de Portland – GAROTOS DE PROGRAMA (1991), de Gus van Sant; imigrantes árabes e judeus da periferia de Paris – O ÓDIO (1995), de Mathieu Kassovitz; e um trio (dois rapazes e uma garota) absolutamente sem horizonte em Taiwan – ADEUS AO SUL (1996), de Hsiao-Hsien Hou.
The watermelon woman, de Cheryl Dunye - Foto: FCS
Críticos da lingagem 
Michael Haneke ainda não era um dos maiores nomes do cinema europeu ao lançar O VÍDEO DE BENNY (1992) (foto). Aqui a crítica está no lixo audiovisual produzido continuamente. Ele trata da questão de forma hiper-realista. O filme conta a história de um adolescente que, de tão preso ao universo audiovisual, não consegue mais se relacionar com o mundo real. Já OS IDIOTAS (1998), de Lars von Trier, foi concebido dentro do Dogma 95, manifesto que pretendia fazer um cinema mais realista e menos comercial. Para tal, seus realizadores deveriam seguir uma série de regras, muitas com restrição ao uso de técnica e tecnologia. Em Os idiotas, um grupo de amigos decide formar uma comunidade que se dedica a explorar a idiotice como valor da vida.
Coração selvagem de David Lynch - Foto: FCS
Deslocados 
Qual adolescente nunca se sentiu deslocado? SLACKER (1991), de Richard Linklater, aborda justamente isso, a partir de um dia na vida de jovens que não se encaixam na Austin da época. Já THE WATERMELON WOMAN (1996) (foto), de Cheryl Dunye, misto de documentário e ficção, traz como protagonista a própria diretora, mulher negra e lésbica que está fazendo um documentário sobre uma atriz negra do cinema mudo, lésbica como ela. Jovens homossexuais também são os protagonistas de TOTALLY FUCKED UP (1993), de Gregg Araki.
A história acompanha a produção de um documentário sobre a vida desses jovens em Los Angeles. Já UM SOM DIFERENTE (1990), de Allan Moyle, é centrado em um rapaz que, com dificuldades de fazer amigos na nova escola, cria uma rádio pirata em seu quarto. Outra produção indie do período, JULIEN DONKEY-BOY (1999), de Harmony Korine, tem como protagonista um adolescente esquizofrênico. NÉNETTE E BONI (1996), de Claire Denis, são os dois irmãos que a cineasta francesa acompanha. Graças ao divórcio dos pais, os dois foram criados separadamente. ÁGUA FRIA (1994), de Olivier Assayas, trata de dois adolescentes do subúrbio de Paris que, sem nenhum propósito, resolvem fugir. Já ESTRADA PARA LUGAR NENHUM (1997), de Gregg Araki, reúne jovens de Los Angeles que se envolvem com viagens alucinógenas, estupro, morte. Isso num único dia.
 
Para ver de novo 
Nicolas Cage, Laura Dern e Willem Dafoe protagonizam CORAÇÃO SELVAGEM (1990), talvez um dos filmes mais “comerciais” de David Lynch. Dois amantes que vivem intensamente sua paixão caem na estrada. Atenção para a cena em que Sailor (Cage) canta Elvis Presley para Lula (Dern) sob um vermelho intenso. Outro grande momento do período é O GRANDE LEBOWSKI (1998), dos irmãos Joel e Ethan Cohen, que traz Jeff Bridges como o hippie confundido com um milionário de mesmo nome.

OS JOVENS ANOS 90
Até 5 de julho.
Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Entrada franca. Programação completa: www.fcs.mg.gov.br.
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