Indicado ao Oscar, 'O insulto' finalmente estreia em BH

Ao mostrar dura batalha judicial entre cristão libanês e refugiado palestino, longa indicado ao Oscar revê histórico de conflitos no Oriente Médio

por Silvana Arantes 27/05/2018 12:10

 IMOVISION/DIVULGAÇÃO
Kamel El Basha (C), que vive o palestino insultado no longa, foi premiado como melhor ator no Festival de Veneza (foto: IMOVISION/DIVULGAÇÃO )

Quisera eu que Ariel Sharon tivesse exterminado todos vocês” é a ofensa que o cristão libanês profere contra o refugiado palestino em O insulto. O filme de Ziad Doueiri finalmente estreou em Belo Horizonte (Cine Belas Artes, 15h50 e 21h50), depois de uma bem-sucedida carreira em festivais em 2017. O palestino Kamel El Basha foi premiado como melhor ator no Festival de Veneza, e o longa recebeu uma indicação ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira.É de um incidente prosaico – Tony Hanna (Adel Karam) termina por atirar água em Yasser Salameh (El Basha) enquanto molha as plantas em sua varanda – que surge a altercação entre o cristão libanês e o refugiado palestino. O conflito deriva numa batalha judicial que atrai a atenção (e inflama os ânimos) de todo o país.


Quando até o presidente do Líbano se envolve na questão e tenta forjar um acordo entre as duas partes, ele afirma que “entre a sinceridade e a estabilidade, ficamos com a estabilidade”. Os dois homens em conflito, os advogados de ambos e os juízes das diversas instâncias são igualmente autores de frases carregadas de sentidos numa questão que vai muito além da disputa em curso.

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Adel Karam (D) é Tony Hanna, o cristão libanês assistido pelo advogado Wajdi Wehbe (Camille Salameh, C ), personagem com o qual o diretor mais se identifica (foto: IMOVISION/DIVULGAÇÃO)

Exemplos: “Somos os negros do Oriente Médio” (o palestino); “Não decidimos coisas fingindo que nos amamos” (o cristão libanês); “Agressores se passam por vítimas (o advogado do libanês). Doueiri maneja os discursos de tal forma que O insulto adquire o tom de um eletrizante filme de tribunal.

O cineasta pisa em terreno minado consciente de onde está. Na entrevista a seguir ao Estado de Minas, ele afirma que toma claramente um partido no filme e que usa os discursos do advogado para responder aos ataques que sofreu quando lançou seu filme anterior, em 2012. Doueiri chegou a ser detido no Líbano por ter filmado em Israel parte do longa O atentado, no qual um médico árabe de Tel Aviv descobre tragicamente que sua mulher havia se convertido numa extremista.

O sr. trata no filme de um assunto espinhoso como os conflitos étnicos e religiosos no Oriente Médio e escolhe dois personagens – um cristão libanês e um refugiado palestino – que podem soar como símbolos de uma determinada condição e, assim, condicionar o olhar do espectador em relação a eles. Que estratégia usou para evitar a armadilha de que o público encare a história já com uma visão preconcebida sobre os protagonistas?
Quando começamos a fazer o roteiro, não pensamos nas grandes causas e nos grandes temas, no que quer dizer “o cristão” e “o palestino”. Queríamos evitar o máximo possível os slogans. O filme não é sobre um palestino e um cristão – esse é o pano de fundo da história. Estávamos muito mais interessados em mostrar duas pessoas que vão se enfrentar num tribunal de uma forma muito dura e difícil.
Não posso negar que também havia o fato de ser um palestino e um cristão, mas não era meu propósito construir uma mensagem sobre o que é a causa palestina e a cristã. Se fizesse isso, seria um filme didático, e eu estava muito mais interessado em desenvolver esses personagens de tal maneira que eles pudessem ser universalmente compreendidos, seja por um espectador inglês, ou brasileiro, ou sueco, ou chinês.

A solução do conflito em seu filme se dá no âmbito de um movimento individual de gerenciamento das emoções, ou seja, num nível psicológico. Com isso o sr. está dizendo que não há solução possível no nível das instituições e governos no Oriente Médio, mas apenas a alternativa de algum apaziguamento individual?
Quando comecei a conceber essa história, não estava pensando em termos de soluções coletivas. Não estava tentando refletir sobre a sociedade e como se pode mudá-la ou mudar a política de um país, ou sobre como fazemos reconciliações. Esses temas são enormes. Um filme não pode se dispor a isso, é complexo demais.

Eu me concentrei no nível individual. Eu me perguntei: como essas duas pessoas podem alcançar uma paz interior? Eu não estava falando da sociedade, mas certamente o espectador vai pegar esse exemplo e aplicar a ele e à sociedade em torno dele. Eu te asseguro que não era meu objetivo mudar a sociedade, porque um filme não pode mudar a sociedade ou seus hábitos. Nós contamos outra história. E acho que nossos personagens fictícios nesse filme é que alcançam uma mudança, e não a sociedade como um todo.

Que tipo de reação esperava dos espectadores?

Tudo o que esperamos é que o espectador saia do filme feliz e esperançoso. Sou cineasta, ou seja, passo muito tempo escrevendo e dirigindo filmes. O que mais desejo é que o espectador viva com meus filmes, que ele embarque nessa viagem, que simpatize com um, deteste outro, ame um terceiro. Essa é a viagem cinematográfica na qual colocamos nossos esforços. Mas não posso saber como o espectador vai reagir, porque cada um pesca seu peixe, escolhe o que quer. De toda forma, eu quis fazer um final otimista, um “feeling good movie”. No começo desse filme, ficamos fragilizados, pouco à vontade, mas saímos muito felizes no final. Isso foi o que eu quis fazer e como me sinto com esse filme. Mas cada espectador tem sua própria conclusão.

Era seu objetivo fazer o espectador simpatizar com os dois personagens, ainda que escolhesse um lado na disputa?
Não assumi o desafio de fazer o espectador amar os dois personagens. Não sou neutro nesse filme. Tomo partido. Tomo partido do cristão completamente e sou radical na minha posição. Só que isso muda de lado a cada 15 minutos.

Ou seja, é como se o sr. tomasse o partido do advogado no momento em que ele diz que “ninguém tem o monopólio da dor”?
Sim. É o que penso. Eu me identifico com o personagem do advogado. Talvez seja o personagem com o qual eu mais me identifique. Amo todos os meus personagens, mas o que eu mais queria dizer com esse filme está relacionado ao advogado.

É surpreendente o sr. dizer que se identifica com o personagem do advogado, que vem a ser o menos admirável de todos.
Sim, isso espanta muita gente, mas é ele quem diz a verdade.

E dizer a verdade costuma ser meio irritante, certo?
Sim. E eu tinha uma relação particular com as frases do advogado, porque esses diálogos vieram em resposta aos ataques que certos grupos fizeram contra mim por causa do meu filme anterior, O atentado. É verdade que ele é o mais provocador, mas isso é uma resposta aos grupos que me atacaram em 2012. Ou seja, é pessoal.

O sr. disse que tem um apego especial às frases do advogado, e a palavra cumpre um papel fundamental nesse filme. Era sua intenção responder aos ataques que sofreu com um discurso cinematográfico?
Não. A questão é que eu queria fazer um filme de tribunal e, nesse caso, a dramaturgia é centrada na palavra. A palavra se torna a ação. É assim que a história avança. Por isso os diálogos têm enorme peso. Além disso, as palavras são uma questão muito sensível no mundo árabe, no Oriente Médio. As pessoas que vêm do Oriente Médio sabem que as palavras são sobrecarregadas pela nacionalidade, pela religião. É um assunto muito delicado. As pessoas prestam muita atenção às palavras, tentam interpretá-las, entender o que está por trás delas. Portanto, o que a gente diz é crítico.

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