Vitória de Uma mulher fantástica no Oscar chama atenção para cinema do Chile

País tem filmes e diretores que fazem sucesso no exterior, mas obras conquistam poucos espectadores e investimentos em casa

por Pedro Galvão 01/05/2018 10:24
BROWN/AFP
(foto: BROWN/AFP)

Playa del Carmen (México) - Entre todos os artistas indicados ao Prêmio Platino, entregue na noite do último domingo (29), na Riviera Maia mexicana, a estrela mais cobiçada por jornalistas e fãs era a chilena Daniela Vega. Protagonista de Uma mulher fantástica, ela se tornou a primeira mulher transgênero a apresentar o Oscar. A atriz chamou ao palco o cantor Sufjan Stevens, indicado a melhor canção original por Mystery of love, do longa Me chame pelo seu nome.

Mas a noite do Oscar teve outra vitória para Daniela Vega. A atriz viu o longa de Sebastián Lelio protagonizado por ela receber a estatueta de melhor filme em língua estrangeira. Foi a terceira vez na história do Oscar que uma produção sul-americana venceu nessa categoria. As duas vitórias anteriores pertencem à Argentina – A história oficial, de Luiz Puenzo (1985), e O segredo de seus olhos, de Juan José Campanella (2009).


O reconhecimento a Uma mulher fantástica pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood coroa a boa fase e o significativo crescimento recente da produção cinematográfica do país andino. Mesmo com problemas comuns aos vizinhos latinos, o cinema do Chile é capaz de extrapolar a cordilheira com vários títulos elogiados pela crítica internacional, prêmios e indicações em diferentes continentes e diretores e produtores indo e vindo de Hollywood.


Em 2013, outro chileno chegou perto do Oscar, quando No, de Pablo Larraín, esteve entre os indicados. No mesmo ano, Sebastián Lelio se destacou no Festival de Berlim com Glória, que deu o Urso de Prata de melhor atriz a Paulina García. O trabalho chamou a atenção da atriz britânica Rachel Weisz, que escolheu Lelio para dirigi-la em Disobedience, a história de um romance entre duas mulheres, na qual contracena com Rachel McAdams. O longa foi lançado esta semana, nos EUA.


Pablo Larraín dirigiu Jackie (2016), com Natalie Portman no papel da ex-primeira-dama americana, que recebeu três indicações ao Oscar. Larraín e Lelio são expoentes de uma geração de diretores que colocaram o Chile no mapa do cinema mundial com produções como O clube (Larraín, 2015), Post morten (Larraín, 2010), De quinta a domingo (Dominga Sotomayor, 2012), Violeta foi para o céu (Andrés Wood, 2011), Machuca (Andrés Wood, 2004), além da animação A história de um urso, de Gabriel Osorio, vencedor do Oscar de curta em animação em 2016. Estrela do momento na interpretação, Daniela Vega não se lembra de nomes de outros países para citar como suas referências artísticas, mas sim das compatriotas Paulina García e Catarina Saavedra.

Embora tenha sido em 2001 que o cinema chileno voltou a ganhar destaque além das suas fronteiras, com Um táxi para três, de Orlando Lübbert, o produtor Ádrian Solar defende que o vigor da produção do país vem de muito antes. “Não são só 18 anos, são 40.” Ele argumenta que o país tem bagagem histórica que culminou no momento atual. “O cinema chileno não surge com a nova geração, surge no festival de Viña del Mar, em 1960, onde nasce o novo cinema latino-americano. Desde então, contamos com grandes diretores, sem os quais não existiria essa geração de hoje. Cinema não nasce de um dia para o outro. Miguel Littín foi duas vezes indicado ao Oscar – Acontecimentos de Marusia (1976) e Alsino y el cóndor (1982) – é preciso relembrar. Temos um salto em 1990, quando superamos o cinema político e a ditadura”, avalia Solar, que hoje preside a Federación Iberoamericana de Productores Cinematográficos y Audiovisuales (Fipca), uma das instituições responsáveis pelo Prêmio Platino.

FENÔMENOS

Para o produtor, Uma mulher fantástica, filme “sem defeitos”, representa “não uma coroação, mas sim um começo para outras gerações de realizadores”. Ele ainda destaca a urgência do audiovisual chileno. “Os cineastas chilenos tentam retratar os fenômenos sociais do momento, não necessariamente políticos. São fenômenos como a vida dos estudantes, as histórias dos marginalizados, das minorias, gente com a qual ninguém se preocupa, mas cujas trajetórias viram sucesso quando retratadas. Por isso os jovens cineastas que fazem isso são engenheiros de algo, de uma tradição desse cinema. Não há um cinema panfletário, mas sobre temas necessários”, argumenta.


A origem de Uma mulher fantástica respalda a avaliação de Solar. O roteirista Gonzalo Maza já havia trabalhado com Sebastián Lelio em Glória. Ele explica que o longa protagonizado por Daniela Vega não foi feito sobre um tema específico, mas sobre um personagem “em sua viagem, sua dor, seu ânimo e sua vontade de dizer adeus a alguém querido. Essa é a essência”. Só depois veio a ideia de que ele fosse estrelado por um transexual. “É muito fácil ver as pessoas trans como prostitutas, drogados, marginalizados, mas difícil vê-los como iguais, como alguém que poderia ser seu primo, a noiva de seu irmão. As pessoas não têm essa ideia. Quem nos deu licença para pensar que uma transexual não pode ser a noiva do papai? Foi assim que fizemos”, diz o roteirista.


O Chile tem apenas 17 milhões de habitantes – 12 vezes menos que o Brasil. Para Maza, é justamente essa pequena concentração entre o Pacífico e os Andes, o Atacama e a Patagônia uma das explicações para o sucesso do cinema local. “Somos uma comunidade muito pequena, mas muito respeitosa a nós mesmos. Nós nos apoiamos muito. Não sinto que haja competição, pelo contrário, sabemos que não é um negócio milionário fazer cinema no chile. Fazemos isso por razões artísticas e somos capazes de agir conjuntamente, nos dedicar e nos criticar quando é preciso. Isso é o mais importante, é o que nos permite fazer histórias importantes para nós”, afirma.
A jornalista e escritora Violeta Medina, de 50 anos, nascida em Coquimbo, afirma que “o Chile tem uma sociedade muito conservadora e, por isso mesmo, a cultura atua com muita força”. “Temos muitos problemas sociais, raciais e do passado, pelos reflexos da ditadura, e vontade de falar sobre eles. Porém, há uma dicotomia brutal entre o público que vê cinema chileno no país. No exterior, há muito mais reconhecimento”, afirma.


Dados do Ministério das Culturas, Artes e Patrimônio do Chile confirmam a avaliação de Medina. Em 2017, os filmes chilenos obtiveram apenas 0,7 % do público nas salas Multiplex do país. O percentual foi de 12,6% em 2012. Nas demais salas, a produção local também ficou atrás da estrangeira, com 40,1% do total de espectadores. Com 54 mil espectadores, Uma mulher fantástica foi o longa chileno de maior público em 2017. Mas seu desempenho é tímido diante dos 830 mil espectadores de Piratas do caribe 5: A vingança de Salazar.


“O interesse dos chilenos é absolutamente irregular, alternando-se em anos maravilhosos e anos péssimos para o cinema local. Não há lógica. Filmes tremendamente sérios e políticos às vezes têm bons resultados, e comédias que se imagina que vão arrebentar não vão bem”, diz Ádrian Solar. O presidente da Fipca diz que os investimentos do governo chileno no audiovisual estão estagnados há cerca de oito anos, e os custos de produção vêm subindo. “É muito imperfeito e incompleto o sistema chileno. Precisa ser mudado urgentemente.”

*O jornalista viajou a convite da organização do Prêmio Platino

Os cineastas chilenos tentam retratar os fenômenos sociais do momento, não necessariamente políticos. São fenômenos como a vida dos estudantes, as histórias dos marginalizados, das minorias. Por isso os jovens cineastas que fazem isso são engenheiros de algo. Não há um cinema panfletário, mas sobre temas necessários”

>> Adrián Solar,
produtor

É muito fácil ver as pessoas trans como prostitutas, drogados, marginalizados, mas difícil vê-los como iguais, como alguém que poderia ser seu primo, a noiva de seu irmão. As pessoas não têm essa ideia. Quem nos deu licença para pensar que uma transexual não pode ser a noiva do papai? Foi assim que fizemos

>> Gonzalo Maza,
roteirista de Uma mulher fantástica


Temos muitos problemas sociais, raciais e do passado, pelos reflexos da ditadura, e vontade de falar sobre eles. Porém, há uma dicotomia brutal entre o público que vê cinema chileno no país. No exterior, há muito mais reconhecimento”

>>  Violeta Medina,
jornalista e escritora

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