Vinícius de Oliveira relembra sucesso do filme 'Central do Brasil'

Vinte anos após o lançamento do longa, ator fala sobre engajamento político e detalha seus novos projetos

por Walter Felix 22/04/2018 10:00
Ronaldo Corrêa/Divulgação
Com agenda cheia, Vinícius de Oliveira atua no longa Vende-se essa moto, de Marcus Vinícius Faustini, grava a série do TNT Irmãos Freitas e está na série Magnífica 70, do HBO (foto: Ronaldo Corrêa/Divulgação)

Vinícius de Oliveira tinha apenas 12 anos quando estrelou um marco do cinema nacional. Como Josué, ele emocionou o mundo ao lado de Fernanda Montenegro em Central do Brasil (1998), filme de Walter Salles, que faturou o Urso de Ouro e de Prata em Berlim, o Globo de Ouro de melhor filme de estrangeiro e ainda emplacou duas indicações ao Oscar. Vinte anos após o lançamento no Brasil, aquele pequeno ator, hoje aos 32, casado e com dois filhos, segue na carreira artística e fala com orgulho do trabalho que marcou sua vida.

Central do Brasil foi muito importante porque resgatou o público para o cinema nacional, que havia saído dos trilhos. Ele abriu caminhos para vários filmes bons”, analisa o ator. O sucesso do longa marcou o movimento conhecido na história do cinema brasileiro como “retomada”, em que se voltava a investir na área após a extinção dos programas de fomento no início da década de 1990 – definida por Vinícius como o período do “desgoverno Collor”.

“Quem veio depois [de Central do Brasil] viu a potência do nosso cinema e que a gente podia muito bem retomar a produção nacional. Quando comecei a transitar entre a galera que faz cinema, ouvi de vários profissionais que eles resolveram entrar e acreditar na área por conta do filme”, conta Vinícius.

Vinícius trabalhava como engraxate em um aeroporto do Rio de Janeiro quando conheceu Walter Salles. No local, o diretor o convidou para fazer os testes de seu novo filme. A mãe do menino duvidou da veracidade da proposta, mas o cineasta insistiu, voltando ao aeroporto com sua equipe à procura de Vinícius. No processo de seleção, o garoto bateu cerca de 1,5 mil concorrentes para o papel, sem nunca ter tido qualquer contato com a arte cênica.

Em cena, ele deu vida a Josué, um garoto que, após a morte da mãe, sonha em encontrar o pai. Ele conta com a ajuda de Dora (Fernanda Montenegro), uma professora aposentada que se comove com o drama do garoto e parte com ele para o sertão em busca de sua família. As filmagens começaram em 1996, no Rio, e a equipe viajou para o Nordeste no ano seguinte.

Walter Carvalho/Divulgação
Ao lado de Fernanda Montenegro em cena do filme de Walter Salles que o levou à cerimônia do Oscar, em 1999 (foto: Walter Carvalho/Divulgação)


Muitos atores abominam a possibilidade de ficarem marcados por um personagem de sucesso – um sentimento que Vinícius desconhece. “Não tenho problema em ser lembrado pelo Josué. A abordagem das pessoas nas ruas, quando me reconhecem, é sempre de forma muito carinhosa. Todos têm relações muito fortes e incomuns com o filme”, conta.

PILARES Seu êxito, logo na estreia, ele atribui a dois pilares: Fernanda Montenegro e Walter Salles. “Fernanda e eu nos tornamos muito parceiros, não só de trabalho, mas também de viagem. Uma atriz de excelência como ela foi trabalhar com uma criança que nunca tinha feito cinema, que nem sequer sabia o que era tudo aquilo. E sua postura foi totalmente incomum no meio profissional: era como se ela descesse de todos os patamares que já havia alcançado para caminhar comigo, ao meu lado. Fernanda é tão generosa em cena quanto fora de cena, o que para mim foi o fator principal para o sucesso do filme”, elogia Vinícius.

Com o diretor Walter Salles, Vinícius desenvolveu forte amizade e uma parceria de sucesso nas telas, que se repetiu numa participação em Abril despedaçado (2001) e em Linha de passe (2007). “O Walter, com toda a sensibilidade de diretor, soube extrair exatamente o que era preciso para cada cena e para o filme como um todo”, diz Vinícius.

Com apenas 13 anos, o ator brasileiro se viu entre os maiores do mundo na cerimônia do Oscar, em 1999. Central do Brasil concorria nas categorias melhor filme estrangeiro e melhor atriz (para Fernando Montenegro). “Sabia que era algo grande, mas não tinha a real dimensão do quanto aquilo representava para o cinema brasileiro. Foi uma experiência incrível, eu estava diante dos atores que eu cresci vendo pela TV. Era algo muito louco para uma criança que, três anos antes, nem sequer sonhava em fazer cinema.”

Depois de Central, poucas produções brasileiras chegaram tão longe na maior premiação do cinema. Após atuar em nove filmes – e com algumas experiências como diretor –, Vinícius avalia se tratar de problema de visão entre os profissionais que indicam os concorrentes ao prêmio. Para o ator, não é questão de investimentos, tampouco de baixa qualidade das nossas produções.

“Falta o entendimento do que a academia gosta de premiar como melhor filme estrangeiro. Nos últimos anos em especial, parece que as pessoas sequer param para assistir aos indicados dos outros países e os vencedores dos anos anteriores – o que seria um dever de casa simples”, afirma.

Há, ainda segundo Vinícius, uma questão política, que eclodiu em 2016 e tem prejudicado o país na corrida pelo Oscar. “O cinema resolveu enfrentar o governo golpista de Michel Temer, bater de frente após a extinção do Ministério da Cultura, gerando uma briga política muito grande. Filmes com carreira internacional linda, como Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e Boi neon, de Gabriel Mascaro [em que Vinícius atuou], tinham maior potencial e grande capacidade artística”, opina.

INTOLERÂNCIA Ainda que não tenha repetido o nível de repercussão de seu primeiro trabalho, Vinícius de Oliveira nunca deixou de atuar. Dedicou-se ao teatro na pré-adolescência e fez diversos trabalhos na televisão, desde programas educativos na TV Cultura a participações em novelas como Suave veneno (1999) e A regra do jogo (2016), da Rede Globo. Em 2015, protagonizou, ao lado de Laila Garin, a série Santo forte, exibida no canal AXN, como um taxista que tem corpo fechado e enfrenta os perigos da noite carioca.

Com forte engajamento político, Vinícius desenvolve um projeto de série para a TV fechada sobre a intolerância, palavra que se manifesta de diversas formas no contexto atual, segundo o ator. O tema também deu origem ao curta-metragem Crime e honra, em que ele assina a direção e aborda machismo e misoginia. Com trajetória vitoriosa em festivais pelo Brasil, o filme deverá estar disponível na internet até o fim do ano. “O curta trata de questões muito latentes. Intolerância é o que a gente tem visto nas ruas, em especial nas discussões políticas. Os conservadores, que estavam escondidos dentro do armário, resolveram voltar com força e violência.”

MULTIARTISTA Além do trabalho como cineasta, Vinícius também dará as caras no cinema e na TV ainda em 2018. Ele atua ao lado de João Pedro Zappa no longa-metragem Vende-se essa moto, dirigido por Marcus Vinícius Faustini, que estreia em maio. “Meu personagem, o Cadu, vive no Complexo da Maré e resolve comemorar a notícia de que seu primo vai ser pai com um passeio pela Lapa. A infeliz incursão dos dois naquela região acaba culminando em uma fatalidade”, adianta o ator, que se nega a dar spoilers.

Ele integra também o elenco da terceira temporada de Magnífica 70, do canal HBO, como Saulo, homem órfão que cresceu em um convento. Outra Dora (não a de Fernanda Montenegro, mas a de Simone Spoladore, protagonista da série) ajudará o personagem de Vinícius em sua empreitada artística ao descobrir no rapaz um talento multiartístico.

Para conceder esta entrevista, Vinícius precisou encontrar uma brecha nas filmagens da série Irmãos Freitas, projeto do TNT focado na história do boxeador Popó e de seu irmão mais velho, Luís Cláudio. Ele interpreta Gilvan, personagem inspirado no pugilista Kelson Pinto. O trabalho, que lhe exige alto condicionamento físico, ainda não tem data de lançamento.

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