Agência Nacional do Cinema adota cota para mulheres, negros e índios em edital que destina R$ 100 milhões à realização de longas

Ação afirmativa tenta corrigir desequilíbrios no panorama da produção audiovisual

por Pedro Galvão 16/04/2018 20:03

Nos últimos anos, a diversidade se tornou tão necessária na produção cinematográfica quanto luz, câmera e ação. Sob os holofotes de Hollywood, movimentos exigem mais representatividade para artistas negros no Oscar, igualdade salarial entre os gêneros e mais reconhecimento para o trabalho das mulheres, cuja presença é hoje minoritária em indicações a prêmios.

Lelis/E.M/D.A Press
(foto: Lelis/E.M/D.A Press)

Mas não é só no bilionário cinema norte-americano que uma mudança estrutural é necessária para mudar esse cenário. No Brasil, de acordo com estudo divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), 75,4% dos filmes lançados no país em 2016 foram dirigidos por homens brancos. Com a intenção de corrigir esse desequilíbrio, a Agência anunciou um novo sistema de cotas de gênero e raça em um edital que destinará R$ 100 milhões a projetos de produção de longa-metragem.

De acordo com os novos parâmetros, ao menos 35% desse valor deverá financiar filmes dirigidos por mulheres cisgênero, transexuais ou travestis. Outros 10% são assegurados para projetos com direção de pessoas negras ou indígenas. Os dados de 2016 ainda apontam apenas 2,1% dos filmes lançados naquele ano por homens negros e nenhum por mulheres negras.

INCLUSÃO

Diretoras ouvidas pelo Estado de Minas avaliam que a medida é positiva, mas insuficiente para estabelecer um panorama mais diverso na produção cinematográfica brasileira. Vencedora da Mostra de Tiradentes no ano passado com o longa Baronesa, a diretora mineira Juliana Antunes enfatiza a necessidade de políticas amplas para a correção da disparidade histórica entre homens e mulheres no cinema.

“As cotas devem valer para tudo, não só para a Ancine. O número de produções feitas por mulheres é muito baixo e, quando conseguem, é a que preço? Para Baronesa, eu tive um orçamento de R$ 50 mil. Isso é a metade do valor de um curta. Não é justo, foi um filme no qual trabalhei por seis anos sem ser remunerada, tendo dívida”, argumenta a diretora. Ela afirma que “ser mulher tentando fazer cinema é uma luta que os homens não conhecem”.

“Quando estudava cinema, meus professores, quase todos homens, me direcionavam a ser produtora, diretora de arte, ninguém incentivava a ser diretora. A gente tem que ser assistente de produção, passar por várias etapas até chegar lá, enquanto muitos homens já começam dirigindo. Por isso cotas são urgentes, para todas as minorias – homens negros, indígenas. Está passando da hora e (isso) ainda não é suficiente”, afirma Juliana, que conquistou outros sete prêmios com Baronesa, seu primeiro longa.

Sócia com outras duas mulheres na produtora Ventura, a cineasta pretende aproveitar o edital para viabilizar um novo projeto, chamado Bate e volta Copacabana, um longa sobre duas garotas lésbicas da periferia de BH que partem em uma excursão de fim de semana rumo ao Rio de Janeiro para conhecer o mar. “É um filme inclusivo, que apresenta a questão de gênero, LGBT, fala sobre o direito a território, sexualidade feminina e a relação entre mulheres, que raramente é mostrada na tela no cinema brasileiro”, diz.

Marcella Jacques, produtora na Ventura, avalia que a cota de 35% para mulheres é “cabível”, em um primeiro momento. “É uma oportunidade de começar a mudar esse quadro de desigualdade. Como primeiro passo, está OK. Mas acho que é preciso formular uma política pública específica, principalmente para mulheres negras, que claramente são as mais desprivilegiadas”, argumenta. Ela também pretende usar o edital para viabilizar o longa de animação Orquestra vazia, da diretora belo-horizontina Maria Leite.

Além das cotas, outro ponto defendido por Marcella é o incentivo para empresas produtoras de menor porte. A primeira versão do edital, divulgada pela Ancine em 19 de março, foi recebida com preocupação por ela e por diversos outros profissionais do audiovisual em Minas Gerais devido à exigência de qualificações técnicas das empresas produtoras. O edital usa um sistema de ponderação de fatores na atribuição de notas aos projetos concorrentes.

No concurso direcionado a filmes de viés comercial, a qualificação técnica do diretor e a capacidade gerencial e desempenho da produtora (critérios baseados no currículo do diretor e da produtora e no desempenho de seus filmes nos cinemas e nos festivais) tinha 60% de peso. Já a disputa voltada a filmes artísticos e autorais atribuía 55% de peso para a qualificação do diretor e da produtora. Os outros critérios de avaliação são o projeto do filme em si e seu planejamento de produção e adequação do plano de negócios.

Para Marcella, esse modelo prejudica quem é iniciante. A Associação de Trabalhadores do Cinema Independente de Minas Gerais, da qual ela faz parte, divulgou nota no Facebook desaprovando a versão inicial do edital. A pressão parece ter surtido efeito e, dias depois, a Ancine retificou o documento, alterando os pesos. A avaliação do projeto subiu para 65% no caso dos filmes autorais e artísticos, com os critérios de desempenho valendo os outros 35%. “A Ancine costuma se preocupar mais com retorno comercial e menos com o fortalecimento dos artistas. Pequenas produtoras são muito prejudicadas com isso. Nossa luta é por políticas públicas para cultura, no sentido de fortalecer as produções e a quantidade de gente filmando”, diz ela.

Luana Melgaço, produtora da Anavilhana Filmes, também entende que a construção de um cinema nacional mais forte e diverso vai além das cotas. “Elas são fundamentais, mas é quase uma migalha o que estão nos dando. A política hoje é para que as grandes empresas tenham acesso. É quase dirigido o resultado. Queremos que as cotas sejam muito mais amplas, em todas as linhas, todos os editais. É uma conquista, mas ainda é pouco”, afirma.

A produtora cita o filme Hoje eu quero voltar sozinho (2014), de Daniel Ribeiro, para exemplificar sua avaliação de que há um direcionamento nos resultados. “Foi um filme escolhido para representar o Brasil no Oscar, deu um retorno de bilheteria legal (US$ 1,2 milhão) e foi feito por produtora e direção iniciantes. É um filme que pretende dialogar com o público, tem uma forte característica autoral, mas, se fosse tentar a Linha A (trecho do edital da Ancine voltado a produções comerciais) não alcançaria a pontuação necessária.”

PERCURSO

Gabriel Martins, diretor mineiro do curta Nada, exibido em Cannes em 2017, endossa a crítica. “Temos um sistema de pontuações que privilegia realizadores com certo percurso. No caso de realizadores negros, é evidente que ainda temos um déficit muito grande no número de produções. O desafio é contemplar produtores de menos experiência com cotas ou editais específicos. Nas regras atuais, a pontuação da produtora conta muito. Minha produtora tem uma história de sucesso, curta exibido na TV, 10 anos de existência, mas temos poucos longas e poucos produtos considerados de mercado. É um exemplo de como isso deveria ser repensado.”

Martins também opina que um dos desafios é “melhorar a informação sobre as leis”. “Deveria haver uma política para melhor formação sobre os editais do cinema brasileiro. Ter isso na periferia, nos pequenos cursos de cinema, discutir os processos de escrita de editais, entender a legislação, que é difícil, mesmo para quem está no meio. Dessa forma, poderíamos incluir quem está às margens do processo”, propõe o cineasta, que é um dos sócios da Filmes de Plástico.

Gabriel se prepara para rodar Marte 1, sua primeira direção solo de longa-metragem. O projeto é financiado pelo edital afirmativo de longas de baixo orçamento do Ministério da Cultura, voltado a diretores negros. Sobre a política de cotas da Ancine, ele diz que existe uma demanda que não é exclusiva do cinema. “Não se diferencia muito de outros setores públicos no Brasil. É compensar uma questão histórica. As demandas se aproximam de um panorama mais amplo, como foi o acesso às universidades. É para dar oportunidade, mais variedade e incluir mesmo. É um fato, não é uma opinião a ausência de realizadores e realizadoras negras no cinema brasileiro”, afirma.

 

MinC/Divulgação
Ministro Sérgio Sá Leitão chegou a se desentender com presidente da Ancine por conta de políticas de cotas (foto: MinC/Divulgação)

QUESTÃO MOTIVOU RACHA NA ANCINE

Em dezembro do ano passado, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, se desentendeu publicamente com a então presidente interina da Ancine Débora Ivanov. O motivo era justamente a política de cotas para o audiovisual. Em nota, o MinC comunicou a aprovação pelo comitê gestor do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) de um pacote de verbas e medidas para a promoção da igualdade, mas expondo que o único voto contrário foi o de Débora. Em resposta, a agência declarou que a presidente era contra a postergação das medidas, proposta pelo ministro, que gostaria de submetê-las ao Conselho Superior do Cinema.

Em janeiro, Débora Ivanov deixou a presidência da Ancine e voltou a exercer o cargo de diretora da agência. Sérgio Sá Leitão emplacou a indicação de Christian de Castro como novo diretor-presidente da agência. Hoje, Débora Ivanov é esperada na UNA da Praça da Liberdade, como uma das convidadas do seminário “Mulheres no audiovisual brasileiro”. O evento está marcado para as 19h30, na Rua da Bahia, 1.764, Centro. Mais informações em www.una.br.

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