Candidato ao Oscar, documentário aborda assassinato do irmão da diretora, em 1992, e impune até hoje

Strong island, disponível na Netflix, mergulha fundo na cultura racista norte-americana

18/02/2018 10:07
Netflix/Divulgação
No documentário, a diretora Yance Ford entrevista testemunhas da cena do crime contra William Ford Jr., ocorrido numa oficina mecânica. A vítima tinha 24 anos (foto: Netflix/Divulgação)

O documentário Strong island, disponível na Netflix, mergulha fundo na cultura racista norte-americana, o suficiente para surgir como forte candidato ao Oscar em sua categoria. O filme toma forma pelo olhar da diretora Yance Ford, que tenta compreender a morte de seu irmão e, em especial, o fato de que o assassino, conhecido de todos, não foi preso. Nem sequer indiciado.

Conta muito o fato de que o jovem assassinado aos 24 anos, William Ford Jr., era negro e seu assassino, um homem branco. Ainda assim, tudo tem de ser reconstruído pelo olhar da cineasta, que se pergunta, com razão, se os Estados Unidos são mesmo um lugar seguro para um jovem negro. A mesma indagação poderia ser feita por aqui, e com a mesma resposta.

O fato se deu em 1992, quando William Ford se dirigiu a uma oficina mecânica para pegar seu carro. Houve uma discussão, e o mecânico Mark Reilly o fuzilou. Ford estava desarmado. Não houve testemunhas oculares do crime, mas muita gente estava por perto, inclusive amigos de Ford, que dão depoimentos no filme. Falam que, quando a polícia finalmente chegou, foram tratados como criminosos, inclusive a vítima. Discretamente, o atirador foi afastado da cena do crime e dessa forma não foi lavrado flagrante.

A família esperava reparação quando o caso fosse à Corte. Mas isso nunca ocorreu. O corpo de jurados – todos brancos – decidiu que não havia evidências sequer para levar Mark Reilly a julgamento. Seria apenas um caso simples de legítima defesa diante do que classificaram como “medo razoável”.

Ouvindo os envolvidos, e gente de sua própria família, Yance procura desmontar o quebra-cabeças de um aparato policial e jurídico construído para agir de maneira seletiva de acordo com a cor da pele do indivíduo.

INVESTIGAÇÃO Strong island tem seu lado de filme investigativo. Movida pela culpa, Yance Ford tenta apurar o que de fato aconteceu naquele homicídio sem testemunhas oculares. Ela sente que deve isso ao irmão, a quem deveria ter “ajudado mais”, sem que fique claro o que deseja dizer com isso.

Mas o ponto forte é a maneira como, através desse lamentável caso particular, Yance entra na dinâmica de uma sociedade que se deseja modelo de democracia para o mundo, mas não trata seus cidadãos como iguais. Quase 70 anos depois das lutas antirracistas das décadas de 1950 e 1960 do século passado, tantas questões ainda restam pendentes. Martin Luther King foi assassinado em 1968 e, em 1992, a Justiça americana ainda discrimina um crime cometido por um branco ou por um negro.

Yance ainda procura mostrar os efeitos que esse crime não punido provocaram em sua família. Meses depois de William Ford Jr. ter sido fuzilado naquela oficina mecânica, o pai vem a falecer. A mãe dá depoimento pungente sobre os filhos, a luta para criá-los, a ameaça permanente de um mundo violento que, enfim, acabou sendo cumprida. É uma professora aposentada, que se expressa de maneira serena, mas, sente-se, com emoção contida a custo. Morreria também, ao longo da produção do filme.

Pode-se dizer que Strong island tem como limite excesso de entrevistas – as tais “cabeças falantes” dos documentários sem imaginação visual. Verdade. Se bem que ela tente inserir imagens sugestivas que liberem a imaginação do espectador e o impulsione para o ambiente onde os fatos se deram, Yance lida de maneira permanente com a falta de material visual compatível com os assuntos que deseja discutir.

Ainda assim, apresenta de maneira potente esse caso flagrante de injustiça social. Como este é um dos temas preferenciais da pauta contemporânea, é provável que o documentário surja com força na premiação. (Agência Estado)

O homem da notícia

Charles Delvecchio/AFP
Ben Bradlee, editor-executivo do Washington Post, conversa com a publisher Katherine Graham na Redação (foto: Charles Delvecchio/AFP )

Que outro jornalista teria o privilégio de ser interpretado por dois astros como Jason Robards e Tom Hanks? Só mesmo Ben Bradlee, personagem de Todos os homens do presidente, de Alan Pakula, e do recente The Post – A guerra secreta, de Steven Spielberg, que concorre ao Oscar no dia 4 de março. Benjamin Crowninshield Bradlee (1921-2014) foi mesmo uma figuraça, como se pode comprovar no documentário O homem do jornal: A vida de Ben Bradlee, de John Maggio, em exibição na HBO.

De família e porte aristocráticos, o jovem Bradlee foi formado na cultura puritana de Boston. Ele mesmo diz que se casou com a primeira moça que namorou. Teve poliomielite na infância, superou-se, virou atleta, esteve na guerra, acumulou experiência e retornou são e salvo aos Estados Unidos. Então tirou a sorte grande ao ser convidado como correspondente da revista Newsweek em Paris.

Paris é sempre uma festa de civilização para quem sabe aproveitá-la. Ainda mais a Paris do pós-guerra, quando Sartre, Simone de Beauvoir e Marcel Camus podiam ser encontrados nos cabarés ouvindo Juliette Gréco. O jovem Bradlee voltou da Europa mais culto e mais aberto. Regressou também com esposa nova, que conhecera nos embalos tanto da Rive Gauche quanto da Rive Droite

ANOS DE OURO O filme o mostra na vida mundana e deliciosa dos anos de ouro, em festas, flertando com as damas e cultivando amizade íntima com os Kennedy. Mesmo depois de John Kennedy ser eleito, a intimidade continuou, apesar de o priápico presidente dar em cima da esposa do amigo de um jeito que, hoje, lhe custaria processo por assédio.

A celebridade de Bradlee vem de duas coberturas sensacionais bancadas por ele no tempo em que era editor do The Washington Post. A divulgação dos Papéis do Pentágono abalou o governo de Richard Nixon e o Caso Watergate acabou por derrubá-lo. Os casos são narrados pelo próprio Bradlee e também por seus protagonistas, os repórteres vedetes Bob Woodward e Carl Berstein. O próprio Henry Kissinger, então secretário de Estado, vem dar seu pitaco.

O documentário aborda as diversas facetas de Bradlee, do sedutor ao implacável homem de jornal, em estado permanente de “busca da verdade”. Ouvimos tudo de sua própria voz: do seu grande êxito nos dois momentos maiores de sua carreira ao ponto mais baixo, quando o Post publicou uma série de reportagens indicada para o Pulitzer que, comprovou-se, haviam sido forjadas pela repórter. Do limão azedo, o Post fez uma limonada pouco usual na imprensa: assumiu o engano em matéria de capa seguida de quatro páginas internas. Um exemplo de transparência.

No sucesso como na queda, Bradlee comportou-se com elegância, como parece dizer esSe belo documentário sobre um jornalista old school que, soldado exemplar, fez muito mais do que exigia o seu dever. (Agência Estado)

O homem do jornal: A vida de Ben Bradlee
• Direção: John Maggio
• Na HBO (próximas exibições no dia 22/2, às 6h40; no dia 5/3, às 11h05, e no dia 9/3, às 7h10)

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