Diretor mineiro Gilberto Scarpa lança hoje no Sesc Palladium seu novo filme, Paresiga

Média-metragem que aborda a relação amorosa de um casal e os fantasmas do passado

por Pablo Pires Fernandes 17/02/2018 11:40
Vagner Jabour/Divulgação
Zora Santos e Adyr Assumpção interpretam mulher e marido, que fazem uma reflexão sobre os caminhos percorridos no relacionamento (foto: Vagner Jabour/Divulgação)

‘‘Meu assunto cinematográfico é o amor”, diz o diretor Gilberto Scarpa com a costumeira ênfase. Só que, no caso deste cineasta, nunca dá para ter certeza se está dizendo a coisa mais séria do mundo ou se ele está contando uma piada e fazendo hora com a sua cara. No entanto, o que ele fala é tudo verdade – mesmo quando conta a mentira mais deslavada. Afinal, a verdade pode assumir outras formas e, no caso desse artista, a ficção é a maneira como ele brinca com ela. Na vida e nos filmes, realidade e ficção se misturam e esse é o mote de Paresiga, média-metragem de Scarpa que terá première hoje, às 15h, no Sesc Palladium.

Na verdade, a frase dita acima não é exatamente verdade. Observando sua obra – os curtas Os filmes que não fiz (2008), O filme mais violento do mundo (2009), Um U.R.S.O. em minha rua (2010) e Merda! (2012) – não se pode dizer que o assunto é o amor, como é o caso deste Paresiga. Mas é possível afirmar que o afeto – pelo cinema, pelo humor ou pela arte – são elementos centrais de seus trabalhos.

Quem comparecer hoje à estreia, assistirá ao filme mais afetivo, amoroso e intimista do diretor. Paresiga mostra um casal por volta dos 60 anos relembrando fatos do passado e questionando a relação a dois. As lembranças servem de gatilho para o casal tocar em temas universais dos relacionamentos amorosos: afeto, entrega, traição e cumplicidade. A trama se passa ao redor ou no interior de um carro e os diálogos são intercalados por programa de rádio em que o locutor conversa com uma moça em busca de um companheiro.

Um aspecto curioso do filme é a expectativa. Ou melhor, o que um espera e projeta a respeito do outro em uma relação de amor. A personagem de Maria dos Prazeres, a moça em busca de um companheiro, não aparece nas imagens, apenas sua voz (interpretada por Luisa Rosa), que fala de si e do desejo de encontrar alguém. A projeção é bastante romântica e até ingênua. Ela busca um parceiro que goste de música, que seja carinhoso, que goste de passear, enfim, uma alma gêmea. Com a costumeira ironia, o diretor joga com a projeção de um homem idealizado, o que, segundo ele, é dissonante em tempos de feminismo e afirmação de gêneros.

Na conversa do casal, a expectativa se dá a partir de uma antiga história, na qual o marido – papel que coube a Adyr Assumpção – revelou sua atração por outra mulher. Mesmo que a “traição” não tenha se consumado nem se questione a veracidade da palavra dele, a esposa se sente ferida e passa a projetar seus desejos em outro homem. Não é um ato de simples vingança, mas questão de confiança, o que possibilita a plenitude da entrega.

DILEMAS E entrega é outro tema sugerido pela personagem da esposa, vivida por Zora Santos. No processo de revisão de seu relacionamento, ele se redescobre. Em uma passagem lírica do filme, ela afirma se sentir outra e, ao mesmo tempo, ela mesma, despertando a autoestima esquecida ao descrever a própria nudez diante do espelho. Nesse ponto, essa mulher forte e corajosa e que se encontra consigo mesma serve de contraponto à ingenuidade de Maria.  A esposa sabe de suas escolhas e sabe medir as consequências de seus atos. Não há dilemas morais internos ou impostos por uma sociedade machista, ela sabe o que quer.

Em Paresiga, é possível perceber elementos recorrentes nos trabalhos anteriores do diretor. Embora posto de maneira mais sutil, o humor está lá. Não vai provocar gargalhadas como Os filmes que não fiz, mas vai fazer o espectador sorrir de lado e desconfiar do texto por sua ambiguidade. Também está presente a metalinguagem e o diálogo com outros meios. Se em Merda! o teatro é usado como metáfora sobre arte e vida, em Paresiga o rádio e as referências ao próprio cinema trazem elementos exteriores para a narrativa.

Scarpa conta que o processo de realização do filme enfrentou dificuldades e o obrigou a transformar a ideia original em outra história. No entanto, a metáfora central foi mantida. “Se em certos momentos fui impedido de contar com elementos importantíssimos para a realização do filme, em outros eu me autorizei, como artista, a correr alguns riscos e seguir em frente”, conta, referindo-se ainda às placas de pare e de siga comuns nas estradas brasileiras.

A respeito do trabalho de Zora e Adyr, o diretor é só elogios e diz que “é um filme com e para os atores”. Em uma obra sem música alguma e que tem no texto seu elemento central, a bela fotografia de Vagner Jabour e a interpretação dos dois veteranos atores conferem fluidez e leveza à narrativa.

Paresiga é um filme sobre amor e afeto e talvez sua grande qualidade seja captar a ternura e a cumplicidade que existe na relação de um casal maduro e experiente e lançar questões que cercam esses sentimentos. A metáfora à qual o diretor se refere está lá, nas placas verde e vermelha indicando as escolhas e os diferentes caminhos possíveis. Em certo momento, a personagem da esposa diz ao marido que “a vida é construída de detalhes”, indicando saber muito bem as curvas que virou e o caminho que decidiu percorrer.

PARESIGA
Lançamento do média-metragem dirigido por Gilberto Scarpa, com Zora Santos e Adyr Assumpção. Hoje, às 15h, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Entrada franca.

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