Filha adotiva de Woody Allen volta a acusar pai de abuso sexual e cineasta vira alvo de protestos

Depois da queda do produtor Harvey Weinstein, o cineasta Woody Allen é alvo de uma campanha de protestos e deserção de atores, em reação à denúncia de 25 anos atrás

Pedro Antunes/Estadão Conteúdo Estado de Minas 20/01/2018 09:00
MARCOS BRINDICCI/AFP
Instalação do artista argentino Hugo Echarri na exposição Amamos tanto Woody, exibida em Buenos Aires em 2014, ano em que o cineasta ganhou o Globo de Ouro pelo conjunto da obra (foto: MARCOS BRINDICCI/AFP)

“Nunca molestei minha filha, como todas as investigações concluíram um quarto de século atrás”, afirmou na quinta-feira (18) o cineasta Woody Allen num texto publicado em seu Facebook. O diretor de 82 anos se posicionou frente à onda de reações desencadeada pelas declarações de sua filha Dylan Farrow, de 32 (adotada por ele e a atriz Mia Farrow), de que teria sido abusada por ele quando tinha 7 anos.

“Quando essa alegação foi feita pela primeira vez, há 25 anos, ela foi investigada minuciosamente pela Clínica de Abuso Sexual Infantil do Hospital Yale-New Haven e pelo Bem-Estar da Criança do Estado de Nova York. Ambos investigaram durante meses e concluíram de forma independente que não houve abuso. Em vez disso, eles acharam provável que uma criança vulnerável tenha sido treinada por sua mãe irritada a contar a história durante um término controverso”, prossegue o texto.

No rastro do movimento Time’s Up (O tempo acabou), lançado pelas mulheres em Hollywood contra o assédio sexual e o machismo, a filha de Allen e Mia Farrow disse que era hora de o mundo finalmente escutá-la.

“Por que não devo querer derrubá-lo? Por que não devo ficar com raiva? Por que não devo estar magoada?”, disse ao programa CBS this morning, em sua primeira entrevista televisionada. Na quarta, foram transmitidos alguns trechos da entrevista, exibida na íntegra anteontem.

“Por que eu não deveria sentir algum tipo de indignação depois de todos esses anos sendo ignorada, desacreditada e jogada de lado?”, acrescentou Farrow.

Questionada sobre o motivo pelo qual as pessoas deveriam acreditar nela, respondeu: “Suponho que isso seja com eles, mas tudo o que posso falar é da minha verdade e esperança, esperança de que alguém acredite em mim em vez de apenas ouvir”.

Ainda em sua declaração, Allen afirmou: “O irmão mais velho de Dylan, Moses, disse que testemunhou sua mãe fazendo isso – treinando Dylan de forma severa, tentando colocar na cabeça dela que seu pai era um perigoso predador sexual – e, infelizmente, tenho certeza de que Dylan realmente acredita no que diz. Contudo, mesmo que a família Farrow esteja usando de forma cínica a oportunidade oferecida pelo movimento Time’s Up para repetir essa acusação infame, isso não faz com que a alegação seja mais verdade hoje do que no passado.”

Ronan Farrow, filho biológico de Allen e Mia Farrow, é o autor da reportagem da revista The New Yorker sobre a série de abusos sexuais perpetrados durante décadas pelo produtor Harvey Weinstein, publicada em 10 de outubro, a partir da qual surgiram as iniciativas #MeToo (eu também, incentivando outras mulheres a denunciar assédio) e Time’s Up (para denunciar e combater o assédio e o abuso de poder) .

Na esteira do escândalo, Dylan publicou, em dezembro, as acusações contra Allen em um novo artigo publicado no diário The New York Times – a primeira vez que ela falou pessoalmente no assunto foi em fevereiro de 2014, em texto publicado no blog de um colunista do mesmo jornal.

Em consonância com o momento atual e o movimento Time’s Up, Dylan já recebeu a solidariedade de muitos nomes de Hollywood. Colin Firth afirmou ao The Guardian que não voltará a trabalhar com Allen – o ator britânico foi dirigido por ele em Magia ao luar (2013).

Timothée Chalamet, cotado para uma indicação de melhor ator por Me chame pelo seu nome, anunciou que doará para o Time’s Up o cachê recebido por Rainy day in New York, inédito de Allen que será lançado neste ano. Sua colega de elenco Rebecca Hall já havia feito o mesmo. “Tornou-se muito mais claro para mim nos últimos meses, tendo testemunhado o nascimento de um poderoso movimento que tem como objetivo acabar com a injustiça, desigualdade e, acima de tudo, o silêncio”, afirmou o ator.

Entre as atrizes solidárias a Dylan Farrow estão Mira Sorvino, Greta Gerwig e Rachel Brosnahan, que lamentaram ter trabalhado com Woody Allen.

No momento em que Hollywood busca se distanciar de Allen, que cada vez mais passa a ser visto como um nome “tóxico”, Alec Baldwin saiu em defesa do cineasta, classificando de “injusta e triste” a renúncia ao diretor e sua obra.

DIVÓRCIO A entrevista desta semana ocorreu quase quatro anos após Dylan Farrow ter se manifestado pela primeira vez. Em carta publicada em 2 de fevereiro de 2014 no blog de Nicholas Kristof, colunista do jornal The New York Times e amigo da família Farrow, ela relatou o suposto abuso sexual, que veio à tona em 1993, durante o bombástico divórcio de Allen e Mia, motivado pelo fato de o cineasta e Soon Yi Previn (filha de Mia Farrow e do músico André Previn) terem iniciado um relacionamento. Allen e Soon Yi são casados até hoje e têm duas filhas adotivas.

“Quando eu tinha 7 anos, Woody Allen me pegou pela mão e me levou para o sótão no segundo andar da nossa casa”, escreveu Dylan. “Ele me mandou ficar de bruços e brincar com o trenzinho elétrico do meu irmão. Então, ele me agrediu sexualmente. Ele falava comigo enquanto o fazia, sussurrando que eu era uma boa menina e que aquele era o nosso segredo, prometendo que eu iria a Paris e seria uma estrela em seus filmes.”

Dylan teria feito a declaração na época motivada pelas três indicações que Blue Jasmine recebeu ao Oscar: atriz (Cate Blanchett), atriz coadjuvante e roteiro. Blanchett acabou levando seu segundo Oscar pelo papel.

Na época, Woody Allen negou as acusações e acusou sua ex-mulher Mia Farrow de estar por trás do caso. Em uma carta publicada também no The New York Times, o diretor garantiu:“É claro que não abusei de Dylan”. Dylan foi adotada pelo diretor e por Mia Farrow durante seu relacionamento de 12 anos.“Eu a amava e espero que um dia ela entenda que teve um pai amoroso e que foi explorada por uma mãe mais interessada em sua própria raiva purulenta do que no bem-estar de sua filha.”

Na mesma carta, o diretor comentou sobre a declaração de Mia Farrow de que Ronan Farrow poderia ser filho de Frank Sinatra, e não seu. Mia foi casada com Frank Sinatra antes de se relacionar com Allen. “Admito que se parece com Frank, com seus olhos azuis e expressões faciais e, se isso for verdade, o que quer dizer? Que durante o julgamento pela custódia das crianças Mia mentiu sob juramento e falsamente apresentou Ronan como nosso filho”, questionou.

MATCH POINT

Veja personalidades que se manifestaram contra e a favor do cineasta nova-iorquino

CONTRA


GRETA GERWIG
Trabalhou com o diretor em Para Roma, com amor (2012).
O que disse: “Se eu soubesse na época o que sei agora, não teria atuado no filme. Não voltei a trabalhar com ele nem voltarei. As declarações de Dylan Farrow me fizeram entender que eu aumentei a dor de outra mulher, e isso me deixou arrasada. Cresci vendo os filmes dele, que me influenciaram como artista, um fato que não posso negar. Mas eu posso fazer escolhas diferentes seguindo em frente”.

MIRA SORVINO
Trabalhou com o diretor em Poderosa Afrodite (1995).
O que disse (numa carta endereçada a Dylan Farrow): “Confesso que, no tempo em que trabalhei com Woody Allen, eu era uma jovem e ingênua atriz. Eu engoli a versão da mídia de que suas alegações de abuso contra o seu pai tinham eram produto de uma distorcida batalha pela custódia (dos filhos) entre Mia Farrow e ele e eu não me aprofundei na situação, coisa de que me arrependo terrivelmente. Por isso eu também devo desculpas a Mia”.

 IMAGEM FILMES/DIVULGAÇÃO
(foto: IMAGEM FILMES/DIVULGAÇÃO)
REBECCA HALL 
Trabalhou com o diretor em Vicky Cristina Barcelona (foto) (2008) e no inédito Rainy day in New York (2018).
O que disse: “Depois de ler e reler as declarações de Dylan Farrow e voltar a ler as antigas, percebi não apenas o quão complicado é esse assunto, mas que meus atos fizeram outra mulher se sentir silenciada e ignorada. Isso não é algo com que seja fácil para mim neste ou em qualquer outro momento e  eu sinto muitíssimo. Eu me arrependo dessa decisão e não faria o mesmo hoje. É um pequeno gesto e não tem a intenção de servir como compensação, mas doaerei meu cachê para o Time’s Up”.

 

A FAVOR

 IMAGEM FILMES/DIVULGAÇÃO
(foto: IMAGEM FILMES/DIVULGAÇÃO)
ALEC BALDWIN
Trabalhou com o ator em Simplesmente Alice (1990), Para Roma, com amor (2012) e Blue Jasmine (foto)(2013).
O que disse: “Woody Allen foi investigado em dois estados e nenhuma acusação foi feita. Renegar a ele e ao seu trabalho, sem dúvida, obedece a um propósito. Mas me parece injusto e triste. Trabalhei com ele três vezes e isso foi um dos privilégios da minha carreira. É possível apoiar sobreviventes de pedofilia e abuso sexual e ao mesmo tempo acreditar que Woody Allen é inocente? Acho que sim. A intenção não é menosprezar ou ignorar as queixas. Mas acusar pessoas de crimes como esse deveria ser tratado com cuidado. Pelo bem das vítimas também”.

ROBERT. B. WEIDE
Diretor de Woody Allen – Um documentário (2011)
O que disse: “Vai chegar o dia em que cada ator que denunciou Woody Allen ficará tão orgulhoso de sua decisão como aqueles que apontaram nomes durante as audiências McCarthy”.

MOSES FARROW
Filho adotivo de Woody Allen e Mia Farrow.
O que disse: “Eu sinto muito pela minha irmã. Como ela disse, essa tem sido a realidade dela desde a infância. Quebrei meu silêncio falando sobre o abuso (que sofremos) de nossa mãe e meu processo de cura começou depois de eu me afastar dela. Só posso esperar que minha irmã possa fazer o mesmo e finalmente se curar. O que mais me dói é que, ao mesmo tempo em que sei que minha irmã, Dylan, acredita no que ela diz, eu também sei pela minha própria experiência que isso simplesmente nunca aconteceu”.

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