Em seus 120 anos, BH já foi cenário, personagem e musa de filmes; conheça algumas dessas histórias

Capital mineira está na telona desde o início do século 20 e é celeiro de talentos, do pioneiro Igino Bonfioli à nova geração de realizadores

por Mariana Peixoto 05/12/2017 07:53

Leandro Couri/EM/D.A Press
'A cidade está ameaçada', diz o diretor Helvécio Ratton em frente aos tapumes do casario no Bairro Santo Antônio, cenário de 'O menino maluquinho'. (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

O cinema soube acompanhar a Belo Horizonte que, no dia 12, chega a seus 120 anos. ''Qualquer canto desta cidade pode ser universal”, afirma o diretor Helvécio Ratton, que filmou a maior a parte de sua obra em BH. “É claro que há coisas muito particulares. Não tem como fazer um filme à beira-mar aqui; não tem como fazer Paris em Belo Horizonte. Mas tudo depende de como se conhecem as dobras de sua cidade”, acrescenta.

A Belo Horizonte da obra de Ratton é muito diversa. Pode ser a de uma cidade dos anos 1960 (em O menino maluquinho, de 1995) ou do morro (o Aglomerado da Serra de Uma onda no ar, de 2002). Ela pode ser, inclusive, São Paulo. Todas as imagens que mostram a capital paulista em Batismo de sangue (2006) foram rodadas no Centro de BH.

Ratton, de 68 anos, lembra que o cinema acaba servindo também para registrar uma cidade ameaçada. Parte das externas de O menino maluquinho foi realizada no casario da Rua Congonhas, no Bairro Santo Antônio. Há quatro anos, o conjunto, tombado pelo Patrimônio Histórico, está fechado por tapumes metálicos – e sofrendo com a ação do tempo. Há um projeto, suspenso por ora, para a construção ali de quatro torres de prédios residenciais de 27 andares.



CRÔNICA Um dos diretores que mais usaram a capital como cenário, Rafael Conde, de 55, diz que muito de sua obra é uma crônica da cidade. Curta que completou 20 anos em setembro, A hora vagabunda apresenta um aspirante a cineasta convivendo com as dificuldades para filmar. O Viaduto de Santa Tereza é quase personagem da história – numa das cenas mais conhecidas, os personagens escalam os arcos, remontando ao que Carlos Drummond de Andrade fez no início do século 20.

“Belo Horizonte tem bons cenários e, agora, também boas escolas de cinema. Com a tecnologia digital, estamos menos dependentes do Rio e de São Paulo. E isso acontece não só com BH. O cinema se fragmentou, no bom sentido”, comenta Conde.

Seu longa de estreia, Samba canção (2002), dialoga com A hora vagabunda e com a própria aventura de fazer cinema. Um diretor tenta realizar o primeiro filme em BH. O sonho é rodar o longa em 35mm, mas, com pouco dinheiro, ele vai mudando os formatos da produção até chegar ao vídeo. A cidade que aparece na tela traz lugares pouco conhecidos: o Cristo, no Bairro Milionários, e uma vila militar do Bairro da Graça.

Para o realizador Ricardo Alves Jr., de 35, A hora vagabunda contribuiu muito para que sua geração, posterior à de Rafael Conde, “construísse um imaginário da cidade”. “Nos meus filmes, ela é um personagem”, comenta ele. Lançado em abril no circuito comercial, Elon não acredita na morte, longa de estreia de Ricardo, foi totalmente rodado no Baixo Centro. “A arquitetura da região, com seus prédios modernistas, muito me instiga. Já o viaduto é um símbolo muito forte da poesia da gente”, comenta.

Alves Jr. vê BH como personagem de outras produções contemporâneas, como A cidade onde envelheço (2016), de Marília Rocha, de 39, também rodado na Região Central. Em 2016, o longa levou os prêmios de melhor filme, direção e atrizes para Elizabete Francisca e Francisca Manoel no Festival de Brasília. “Só que as personagens dela (as duas atrizes são portuguesas) mostram o olhar estrangeiro, algo como ocorre no curta Korea (2014), de Thiago Taves Sobreiro, em que ele trabalhou com uma comunidade coreana na cidade.”

Marília diz que A cidade onde envelheço só existe por causa de BH: “Este filme nasceu em Belo Horizonte e por causa de Belo Horizonte. Queríamos contar uma história do dia a dia, com o ritmo e os dramas do cotidiano”.

Fundada em Contagem, a produtora Filmes de Plástico virou referência da produção contemporânea brasileira, com vários filmes no circuito internacional de festivais. Ainda que parte tenha sido rodada em Contagem, o longa Ela volta na quinta, de André Novais Oliveira, de 33, traz tomadas em BH. “O filme faz a passagem do Centro de BH para a periferia, mostrando que a cidade vai se ampliando e crescendo de maneira confusa, com as fronteiras borradas”, observa Alves Jr.

Muito atuante, só mais recentemente Cao Guimarães, de 53, filmou em BH. “Cinema é como uma viagem. Você sai de sua casa, de seu cotidiano, então sempre preferi fazer fora daqui”, conta ele, que filmou na cidade O homem das multidões (2013), codirigido com Marcelo Gomes. A história é baseada num conto de Edgar Allan Poe ambientado em Londres.

“Esse filme poderia ter sido feito em qualquer metrópole, pois meu personagem era um solitário de uma grande cidade. E Belo Horizonte acabou virando personagem do filme”, acrescenta. Como seu personagem-título é um condutor de metrô, boa parte das cenas foi rodada no metrô de BH.

DO AMOR AO NON SENSE Filmes de épocas passadas acabaram se tornando registros de uma cidade (ou pelo menos de parte dela) que não mais existe. Se não chega a 120 anos, a filmografia rodada em Belo Horizonte está quase lá. Dois registros seminais estão entre as produções mais antigas ainda preservadas do Brasil. O curta documental Reminiscências, de Aristides Junqueira, reúne imagens de 1909 a 1924 – de uma casa na Rua da Bahia a cenas de um casamento.

Na seara da ficção, o marco não só mineiro, mas brasileiro, é Canção da primavera. Em 1923, Igino Bonfioli lançou um dos primeiros longas do país, a história de amor ambientada no século 19 (com externas realizadas num sítio no Bairro Floresta). Foi Junqueira quem estimulou Bonfioli, seu afilhado de casamento, a começar a filmar.

“Até os anos 1940, os pioneiros do cinema em Minas eram, em sua maioria, imigrantes”, comenta o pesquisador Ataídes Braga. Italiano, Bonfioli chegou ao Brasil no ano da inauguração de Belo Horizonte, mas só passou a morar na cidade em 1904.

A chegada do som ao cinema não trouxe nenhuma grande produção. Humberto Mauro, que filmou a maior parte de sua obra ficcional em Cataguases, veio a BH, em 1957, rodar Cidade de Belo Horizonte, produção do Instituto Nacional do Cinema Educativo (Ince), para o qual dirigiu cerca de 300 documentários.

Outro marco é Phobus – O ministro do diabo (1965), de Luiz Renato Brescia, o primeiro filme de terror rodado na cidade. Com a chegada da década de 1960, a produção belo-horizontina se intensificou devido, principalmente, a integrantes do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), fundado 10 anos antes. Presidente da Associação Mineira de Cineastas (AMC), Geraldo Veloso lembra que no período foram rodados em BH os curtas iniciais da primeira geração do CEC – entre eles, O milagre de Lourdes, de Carlos Alberto Prates Correia; O bem-aventurado, de Neville de Almeida; e Joãozinho e Maria, de Márcio Borges (o compositor do Clube da Esquina).

Outra referência da produção sessentista de BH é o longa Vida provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, com Paulo José, Dina Sfat e Joana Fomm. Há cenas na Praça Tiradentes e no restaurante do Minas Tênis Clube. Em 1968, Rosa Antuña, precursora entre as realizadoras da cidade, lançou Rosa rosae, curta com temática social.

MARGINAL Nos anos 1970, o clássico inconteste é Bang bang (1971), de Andrea Tonacci, italiano radicado em São Paulo. Ícone do Cinema Marginal, Tonacci, morto há um ano, contou a história de um homem neurótico (Paulo César Pereio), que, durante a realização de um filme, se vê envolvido em situações do mais completo nonsense: bandidos incompetentes, uma bailarina espanhola e um macaco que canta.

“É um filme exemplar, extremamente inovador. Mas, nele, Belo Horizonte é apresentada como uma geografia hipotética, pois a cidade não é mencionada. Já em Idolatrada (1983), Paulo Augusto Gomes coloca Belo Horizonte como personagem, pois trata da geração literária da cidade”, acrescenta Veloso, referindo-se a contemporâneos de Carlos Drummond de Andrade.

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